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02 janeiro 2017

O Tempo da Epifania

Eis o Cordeiro de Deus 1A palavra Epifania significa “aparição”. Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. Também pode ser um termo usado para a realização de um sonho com difícil realização. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa". ( cf. Wikipédia).
A Igreja utiliza esse termo para se referir à descoberta de Cristo pelo mundo, à manifestação de Cristo ao mundo inteiro. Isso é representado no episódio narrado por São Mateus (Mt 2.1-12) sobre a visita dos “magos do oriente” a Jesus pouco tempo depois de seu nascimento.
Assim, a partir de 6 de janeiro – Dia da Epifania do Senhor, que no Oriente cristão se celebra também o Natal – até o domingo de carnaval (Domingo da Transfiguração), a Liturgia da Igreja se expressa no Tempo da Epifania. As leituras e reflexões dominicais procuram testemunhar as manifestações do Cristo Vivo, encarnado em Jesus de Nazaré, a diferentes pessoas em seu tempo (e nosso tempo).

03 janeiro 2015

O Santo Nome – o Nome acima de todo nome!

Cristo Sacerdote ícone

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele,  subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2.5-11)

O Calendário Litúrgico da Igreja Episcopal determina para o dia 1º de janeiro, primeiro dia do ano civil, a celebração do Santo Nome de Jesus. Pela proximidade com o Natal, imagina-se que a Festa se enquadra no contexto do Menino de Belém que, tendo sido levado ao Templo para a circuncisão, recebe o nome de Jesus. Entretanto, não se trata disso, uma vez que, nos domingos depois do Natal, a apresentação de Jesus no templo e sua circuncisão têm seu lugar próprio.

A Festa do Santo Nome tem um caráter mais profundo e mais importante que um mero detalhe na vida de Jesus. A Festa se qualifica na Confissão da Fé Cristã, a afirmação do Senhorio de Jesus Cristo, Filho de Deus, Deus-conosco, Redentor e Salvador do Mundo, Rei do Universo!  Ele, o Logos que existia desde antes do Princípio, a Palavra Criadora, que se tornou carne humana em Maria e nessa condição humana, despiu-se de toda dignidade divina para que o ser humano e toda a criação retornasse à presença permanente do Criador! O Deus-conosco para sempre!

Iniciar o ano civil celebrando o Santo Nome significa assim, afirmar que a Igreja, a Comunidade de Fé, segue caminhando em Nome de seu Senhor, na Presença Companheira de seu Senhor através do Espírito Santo, anunciando a Boa Nova, denunciado o Mal e testemunhando a ação redentora de Jesus, o Cristo. Não há outro nome que justifique a ação da Igreja e sua presença no mundo, a não ser o Nome do Senhor! No horizonte do caminhar da Igreja está o Reinado de Deus através de Jesus Cristo, o Deus-conosco, Emanuel.

Infelizmente, o nome de Jesus, hoje, é vulgarizado, vilipendiado pelas práticas nada cristãs de grupos que se identificam como “Igreja”; o nome de Jesus se tornou um fetiche e um talismã, um produto de fácil consumo no mercado religioso, invocado como “palavra mágica” cujo efeito é produzir a “graça” comprada a preço barato dos mercadores de esperança que confiam na desesperança das pessoas para vender a ilusão do “milagre” e da “prosperidade”. O Santo Nome colocado a serviço da charlatanice e da exploração da boa fé das pessoas que andam sem rumo em seu desespero pós-moderno!

Por causa dessas coisas abomináveis, o Santo Nome de Jesus hoje é motivo de chacota e se torna algo  vazio de significado. Se torna uma vacina contra a pregação de forma que pessoas inteligentes não abrem o coração e mente para a Boa Nova! À simples menção do Nome, rejeitam a pregação por identificar o nome com a charlatanice e a exploração da boa fé humana. O Santo Nome, dito como blasfêmia,  transformado em instrumento de Satanás, “pai da Mentira”, de Lúcifer, a luz que cega mas não ilumina o caminho!

É bem verdade que Jesus diz, conforme o Evangelho de João:  “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, Ele vo-la concederá em meu nome. Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” (Jo 16.23b-24)

É preciso cuidado com essas palavras. Jesus diz isso ao seu círculo íntimo de discípulos. Não é uma afirmação genérica, mas uma garantia àquelas pessoas comprometidas com Ele. Jesus se coloca como mediador daqueles que a Ele pertencem! Esse é o contexto dos capítulos 13 a 17 do Evangelho de João: palavras ditas por Jesus na intimidade com os seus discípulos e discípulas – algo restrito à Comunidade Confessante da Fé!

Porque não é apenas “pedir em nome de Jesus”, mas também acolher em Seu Nome: “Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande.” (cf. Lucas 9.48); o servir em Nome do Senhor e a humildade diante da Majestade de Deus.

Assim, a oração feita em nome de Jesus não é uma formalidade ou uma fórmula mágica, mas uma declaração do Senhorio e da Mediação de Jesus Cristo, e da vivência dessa mesma fé nas relações entre as pessoas.

Porque o “pedir” não é superior à vontade de Deus, de Quem, no dizer dos charlatões, devemos “exigir o cumprimento da promessa”. A única oração que Jesus ensinou diz, logo no início “ Pai, … seja feita a Tua Vontade…”, ou seja o pedido é subordinado à vontade e à soberania de Deus. Não é “um direito a ser exigido”, mas Graça concedida pela mediação de Jesus o Cristo! Não é prêmio, mas presente pelos méritos de Cristo.

Assim, o Santo Nome de Jesus não pode ser usado como talismã, ou como produto consumível diante da necessidade. O Evangelho de Mateus coloca na boca de Jesus as seguintes palavras:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.21-23)

Portanto, amigos e amigas, cuidado ao pronunciar o nome de Jesus.  Não é a palavra “Jesus” por si mesma, mas esse é o Nome acima de todo o nome, que ao ser dito é a confissão do Senhorio e a Majestade de Cristo, para a glória de Deus, o Pai (e Mãe).

Quando em sua oração você terminar dizendo “… em o nome de Jesus. Amém!” lembre-se que esse “amém” é – acima de tudo – subordinação à vontade de Deus e abertura para receber a Graça concedida também em nome de Jesus!

Rev. Luiz Caetano, ost+

28 março 2012

A escassez se vence com a partilha!

Multiplicação 1      A Páscoa, a festa principal dos judeus, estava perto. Jesus olhou em volta de si e viu que uma grande multidão estava chegando perto dele. Então disse a Filipe: — Onde vamos comprar comida para toda esta gente? Ele sabia muito bem o que ia fazer, mas disse isso para ver qual seria a resposta de Filipe. Filipe respondeu assim: — Para cada pessoa poder receber um pouco de pão, nós precisaríamos gastar mais de duzentas moedas de prata.Então um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse:  — Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos. Mas o que é isso para tanta gente? Jesus disse: — Digam a todos que se sentem no chão. Então todos se sentaram. (Havia muita grama naquele lugar.) Estavam ali quase cinco mil homens. Em seguida Jesus pegou os pães, deu graças a Deus e os repartiu com todos; e fez o mesmo com os peixes. E todos comeram à vontade. Quando já estavam satisfeitos, ele disse aos discípulos: — Recolham os pedaços que sobraram a fim de que não se perca nada.Eles ajuntaram os pedaços e encheram doze cestos com o que sobrou dos cinco pães. Os que viram esse sinal de Jesus disseram: — De fato, este é o Profeta que devia vir ao mundo! Jesus ficou sabendo que queriam levá-lo à força para o fazerem rei; então voltou sozinho para o monte.          (João 6.4-15)

Quando lê esse texto, muita gente fica imaginando Jesus fazendo aparecer pão e peixe do nada a fim de alimentar todas aquelas pessoas que O estavam acompanhando. Mas eu sempre achei que se assim tivesse acontecido, seria muito injusto, muito mesmo! Afinal, ele resolveu o problema daquelas pessoas, mas e as outras milhares que, em seu tempo também sentiam fome? e os bilhões de pessoas que hoje morrem de fome? Milagrezinho safado esse de Jesus… parece até coisa da tal filosofia safada da prosperidade que enriquece os mercadores da fé!

Entretanto, não foi isso que aconteceu. O alimento que saciou a fome de todas aquelas pessoas não surgiu do nada. Houve alguém que ofereceu o que tinha para ser partilhado. Não fosse aquele menino estar disposto a dividir seus pães e peixes, Jesus não teria feito o SINAL! (no Evangelho de João, nos manuscritos antigos em grego, a palavra milagre praticamente não aparece, mas sim a palavra SINAL)

Jesus começou a dividir e distribuir o pouco que aquele menino tinha para oferecer… e então sim aconteceu o milagre: quem tinha algo partilhou com quem não tinha e então todos experimentaram a fartura, a ponto de sobrar! Eu acho que, isso sim, é um milagre porreta, como dizem lá em Recife. E muito justo! e não resolveu só o problema daquelas pessoas.

O menino apenas tinha lá seus pães e peixes; deixou que Jesus os distribuísse entre os que estavam por perto. Com certeza o menino não comeu cinco pães e dois peixes, muito menos dez pães e quatro peixes. Comeu menos do que tinha, mas comeu e ficou saciado. Mas outros que nada tinham também ficaram saciados. E ainda puderam levar o que sobrou para partilhar em sua casa.

Um SINAL para todas as épocas: dividindo, se multiplica! a quebra dos paradigmas do egoísmo: “primeiro eu!”, “isso é meu!”, e rejeitando a hipócrita resposta de muitos que se dizem cristãos: “_ Vou orar por você, é assim que posso ajudar. Deus vai resolver tua dificuldade, tenha fé!”  ou o que é pior: “Faça a sua doação para o nosso ministério que Deus multiplicará para você” (e quem enriquece é o charlatão, apesar da blasfêmia).

Nosso mundo é um mundo de fartura. Se olharmos bem as estatísticas que mostram a produção de riquezas, veremos que produzimos muito mais do que necessitamos. Todavia, somos movidos pela ganância e pelo espírito (diabólico) de rapina. O lixo das nossas cidades está cheio de alimento de boa qualidade, enquanto milhões não tem o que comer.  Terras produtivas ficam anos sem uso, acumulando valor especulativo para um futuro empreendimento que criará mercado, enquanto milhões de pessoas não têm onde trabalhar e produzir comida para si mesmas. Moradias ficam fechadas esperando melhor oportunidade de preço de aluguel ou venda, e milhões não têm onde morar com dignidade. Roupas de “grife” custam muito dinheiro, acumulando  lucro cruel para seus proprietários que enriquecem à custa de mão-de-obra escrava ou mal remunerada. A ciência médica é avançadíssima em nosso tempo, mas milhões morrem de doenças elementares. Nosso mundo é lugar onde poucos acumulam tudo e a grande maioria vive de migalhas.

Em matemática, dividir significa multiplicar pelo inverso.  Isto é, dividir um número por 3 significa multiplicar esse número pelo inverso de três. Assim, dividir é multiplicar pelo inverso: dividir dons é multiplicar pelo inverso do egoísmo, ou seja, dividir é multiplicar pela solidariedade. Por isso, dividindo, se multiplica! Um milagre matemático!

Jesus pergunta a você hoje: “Como alimentaremos tanta gente? como poderemos melhorar a vida de tanta gente? Como vamos curar tanta gente? Como podemos diminuir a tristeza de tanta gente?”

O que você tem a oferecer para ser partilhado? que dons você pode colocar nas mãos do Cristo, no exercício da divisão que é multiplicação?

Luiz Caetano, ost+

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14 fevereiro 2012

Termina o tempo da Epifania: Jesus rompe o paradigma da mesmice!

transf 2O próximo domingo, dia 19 de fevereiro, domingo de Carnaval, é  o Último Domingo da Epifania, encerrando o ciclo do ano litúrgico que começou com o dia da Epifania (o reconhecimento de Cristo pelos Magos do Oriente, 6 de janeiro).
Foram sete domingos onde a comunidade paroquial refletiu, a partir da leitura litúrgica do Santo Evangelho, sobre as manifestações de Jesus como o Messias, o Ungido de Deus! Já no dia da Epifania, vimos que os magos do oriente, sábios pagãos, reconhecem o sinal da presença de Cristo no mundo e vão ao Seu encontro (Mateus 2.1-12).
Nos domingos seguintes, refletimos sobre as várias manifestações do Cristo, os sinais de sua presença transformadora no mundo: a começar pelo batismo de Jesus no rio Jordão, por João o Batista (Marcos 1.7-13); o chamado dos primeiros discípulos (João 1:35-51); como Jesus fez a água assumir o sabor do vinho e assim mostrar que há um novo paradigma para a compreensão da benção de Deus (João 2:1-12); vimos Jesus libertando um homem das forças do Mal (Marcos 1.21-28); no domingo seguinte, vimos Jesus curando a sogra de Pedro, a cura para o serviço e a reintegração na vida social (Marcos 1.29-39); no domingo passado, vimos Jesus libertando um ser humano da exclusão e assumindo com isso o risco e a consequência da própria exclusão (Marcos 1.40-45). Todos esses sinais manifestam a nova presença de Deus na história humana, transformando a vida, fazendo-a plena e feliz.
Também vimos, nesses domingos, que nem todas as pessoas foram capazes de perceber a Presença de Deus! Pessoas presas a antigos costumes, que surgiram para atender necessidades específicas dentro de um contexto histórico, mas que se perpetuaram e se tornaram paradigmas, confundindo-se com a pureza da Tradição Revelada desde Moisés.
Assim, a manifestação de Jesus como o Cristo, Senhor e Redentor, provoca – para as pessoas – a decisão  de escolher entre  reconhecer a novidade, a boa-nova (evangelho!) e aceitar o desafio de iniciar o caminho rumo a um novo mundo possível; ou manter a comodidade da mesmice já conhecida e rejeitar o desafio de lançar-se rumo a novos horizontes. E você? o que você prefere?
No último domingo da Epifania, veremos o momento da Transfiguração, quando alguns dos discípulos de Jesus, os mais próximos a Ele, o percebem pela Graça, como Senhor através da Visão de Alguém que está além da Lei e dos Profetas, e confirma-se assim a compreensão de que Jesus é o Cristo e Senhor! Esse será o assunto do deste domingo (Marcos 9.2-10)
Após a Epifania, começa, já na quarta-feira após o Carnaval, a Quaresma, tempo de metanóia, conversão, mudança de rumo! Motivados pelas reflexões durante a Epifania, vamos iniciar a Quaresma com o lema: Em busca de novos paradigmas! novos paradigmas para a vida de cada pessoa, para a vida social, para a ação cidadã e para a Igreja, diante dos desafios que surgem no horizonte de nossa História!
Rev. Luiz Caetano, ost+

Nota: tomo a liberdade de sugerir a leitura de artigo em meu blog pessoal - Pirilampos e Pintassilgos - sobre a questão dos paradigmas: Romper Paradigmas! 
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10 janeiro 2012

Epifanias

batismo_de_jesusJá estamos na terceira estação do ano litúrgico, o tempo da Epifania. O ano litúrgico começou no Advento, seguiu-se o tempo do Natal e desde dia 6 de janeiro até o domingo no Carnaval, estamos no Tempo conhecido como Epifania. Neste período, os textos do Evangelho de cada domingo nos apresentam situações onde o Senhor se manifesta diretamente, e as lições bíblicas que precedem a leitura do Evangelho nos remetem às situações da vocação da Igreja, e por conseguinte, dos cristãos: o convite ao discipulado, o serviço, a comunhão e o testemunho.

É oportunidade de refletir sobre a forma como desenvolvemos nossa relação com Deus. Todas as pessoas experimentam, de uma maneira ou de outra, em algum momento de suas vidas,  a percepção da transcendência, um encontro com o Sagrado, um momento onde Deus se manifesta na vida de cada pessoa. Não é, necessariamente, uma ocasião especial ou espetacular. Muitas vezes Deus se manifesta de forma sutil, simples, como uma Presença percebida e sentida intimamente. Na vida de cada um de nós acontece, em vários momentos, uma manifestação de Deus, uma Epifania.

Há quem busque esses momentos ardorosamente, e muitas vezes os deixa passar desapercebidos porque espera que sejam algo realmente extraordinário, “milagroso”, grandioso. Lamentavelmente, há um tipo de “teologia” e, consequentemente, de pregação, que insiste que algo espetacular deve acontecer na vida da pessoa para que signifique uma intervenção divina. E como isso não acontece, muita gente se sente não merecedora do amor de Deus, sem importância para Deus. Ou então, se torna descrente, achando que toda essa conversa é coisa de gente maluca e fanática (e realmente, esse tipo de conversa é isso mesmo e não tem nada a ver com o Evangelho!).

Há uma ideia errada sobre a ação de Deus, como se Ele necessitasse fazer algo realmente mágico, cheio de efeitos especiais, para manifestar-se. De certa forma, isso se deve à má compreensão da linguagem simbólica dos místicos a qual, sendo poesia, não pode ser tratada com os métodos da racionalidade dualista aristotélica que marca a cultura ocidental desde a Renascença – relações de causa e efeito.  Quando uma pessoa mística fala, por exemplo, que viu uma luz, ela n[Rosto%2520de%2520Cristo%25202%255B3%255D.png]ão está falando de fótons ou de determinados comprimentos de ondas eletromagnéticas que chamamos, na Física, de luz. Quando fala que viu Jesus, não está falando de um rosto material, físico, com nariz, boca, olhos e orelhas; e também não está falando de um fantasma! A experiência com Deus é uma experiência transcendente que, por sermos imanentes, só pode ser narrada por aproximação, como o falar dos poetas. Os místicos usam a linguagem do mistério, como os poetas, como os pintores impressionistas. O Mistério é algo que está oculto porém revelado, o que não se “vê”, mas pode ser visto, como na figura ao lado.

Segundo o mito bíblico(1) da Criação, ao concluí-la Deus viu que tudo é bom, ou seja, tudo está completo (cf. Gênesis 1.31). A Criação significa o nosso mundo, a nossa imanência.  Por isso, quando Deus se manifesta, Ele o faz em nossa realidade imanente, e assim não precisa fazer algo extraordinário além do que Ele mesmo criou. Deus não precisa fazer espetáculo ou um mega-show para que você O perceba! Ele não precisa convencer você. Ele apenas oferece a você o Seu Amor; e respeita a decisão que você toma, de aceitar ou não essa relação.

Os atos amorosos de Deus estão ai, não são espetáculos pirotécnicos, mas coisas simples. Mas profundamente belas! Há outras situações em que percebemos Deus intervindo diretamente, e se você souber ver, com o olhar interior do coração, é tão milagrosa uma cura feita por um profissional médico quanto aquela que acontece às vezes e a racionalidade não consegue explicar, o que muita gente chama de “milagre. Atenção! eu creio em milagres! já vi muitos! são simples e belos!

A nossa inteligência – como nossos sentimentos, resultado das reações químicas e relações físico-químicas entre os nossos neurotransmissores – nos permite o conhecimento do Universo apesar dos inúmeros fenômenos ainda não plenamente compreendidos. Por si mesma, nossa mente  já  é algo maravilhoso: os seres humanos são capazes de estudar a vida, compreender seus mecanismos e intervir para eliminar uma doença! Isso não é maravilhoso? (e também são capazes de destruí-la de forma banal, e isso não é maravilhoso – temos também muita facilidade para conviver com o Mal, mas  isso é outra conversa…).

Não espere que Deus lhe chame para uma sessão privada de efeitos especiais para revelar-Se a você. Deus não é técnico da TV Globo (nem da Record!!!); Deus não é dono de estúdios em Hollywood (apesar do nome “Floresta Sagrada”!!!). Ele se manifesta a você em situações simples, mas muito especiais, especiais para você. Talvez para outras pessoas essas mesmas situações sejam sem graça ou bobagens, mas você sabe que foi especial!

Há um provérbio popular cristão que diz: “o meu Deus é o Deus do impossível, pois o possível eu posso fazer!”  É impossível penetrarmos e descrevermos a Transcendência, onde Deus habita; por isso, Ele Se tornou Presença em nossa imanência! essa Presença nós, cristãos,  identificamos em Jesus Cristo, Verbo feito Carne, e a percebemos  como ação do Espírito Santo! É possível fazermos muitas coisas, e Deus caminha conosco, faz junto conosco, e quando não esperamos – mas cremos – Ele torna o impossível possível!

Abra seus olhos! Há uma Epifania acontecendo em sua vida!

Rev. Luiz Caetano, ost+

(1) – sobre o significado de Mito, veja nossa postagem A Natividade do Senhor.

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04 janeiro 2012

Epifania: o Cristo é reconhecido!

Epifania - Magos 1
" Eis que vieram uns magos do oriente a Jerusalém, e perguntavam: ' Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo.(Mateus 2.1b-2)
Passou o Natal, passou o Ano Novo, terminou o apelo comercial dos presentes, das festas, dos cartões de felicitações... a vida retornou à sua normalidade cotidiana. Ou quase! Alguns ainda estão na exceção das férias de verão.
Mas é nesse tempo de normalidade cotidiana que o calendário cristão ocidental celebra a Festa da Epifania do Senhor. Os cristãos orientais, por sua vez, estão agora celebrando o Natal, pois para eles as duas festas coincidem. Outro lado do mundo... outra hermenêutica... outra teologia... mas o mesmo Senhor, o mesmo Cristo!
Mas nós estamos no Ocidente, com o nosso cristianismo greco-romano marcado fortemente pela Europa Medieval, refrescado pela Reforma no século XVI e renovado de tempos em tempos pelos diversos movimentos que eclodem no seio das comunidades herdeiras da Reforma. Para nós, cristãos ocidentais, a festa da Epifania passa despercebida, sem muita importância. Não está na mídia, e geralmente nem é lembrada em grande parte das Igrejas herdeiras da Reforma e suas descendentes.
Não há vitrinas enfeitadas, não há Papais Noel pelas ruas, não há cartões de boas-festas nem campanhas de solidariedade com os pobres, não há político sorridente prometendo mundos e fundos (especialmente pedindo ou roubando fundos) para o próximo ano. A festa da Epifania é discreta, tão discreta quanto aquele casal que, na periferia de Belém da Judeia, esteva às voltas com um parto de emergência, numa estrebaria. A festa da Epifania não foi poluída pelo consumismo, nem pela necessidade de manifestar gestos de solidariedade temporária que assola as pessoas no tempo do Natal, mas terminam em Janeiro, retornando-se à vida sem sentido do cotidiano consumista...
É bem verdade que, pelo interior do Brasil, ainda existem as Folias de Reis e seus assemelhados culturais, e na cabeça das pessoas ainda há uma leve referência ao Dia dos Reis Magos. Puro folclore, herança cultural e colonial de Portugal e Espanha. Nesse caso é uma festa estranha, porque se celebram reis que não existiram. Pelo menos, Mateus não diz que eram reis, mas que eram magos...
Magos, homens (e mulheres!) de antiga sabedoria, de conhecimentos raros sobre o Cosmos e sobre a Natureza . Pagãos, mas não ateus... Pessoas que tinham não só conhecimento, mas sensibilidade afinada para reconhecer que Deus está agindo e há sinais de novidade nos céus:  “... vimos sua estrela no oriente e viemos para adorá-lo”!
A Epifania é exatamente isso: o reconhecimento da manifestação de Deus, da manifestação de Sua Presença, sem os alardes da publicidade, longe dos Palácios e Estádios, sem ufanismo orgulhoso, presunçoso, arrogante e pernóstico. Na simplicidade do cotidiano, na mesmice do dia-a-dia. O Kairós (tempo oportuno) que acontece no Cronos (o tempo medido), sem interferir no Cronos, mas Kairós perceptível para quem tem a mente e o coração abertos para perceber aquilo que, de tão evidente, se torna imperceptível: a Presença discreta na fragilidade de um recém-nascido; uma Estrela que pouco se destaca entre as milhares do céu noturno, só percebida pela vista acostumada a mirar e a contemplar o Mistério da Criação.
É este espírito de Epifania que queremos viver aqui na São Paulo Apóstolo como parte da Igreja de Cristo, exercendo o ministério de serviço, de comunhão, de anúncio e de testemunho; queremos ser pessoas capazes de conviver solidariamente com os diferentes, queremos desenvolver relações  maiores que a simples  formalidade denominacional, queremos viver o eclesial mais que o eclesiástico, promover intercâmbios e interações constantes, de solidariedade: diakonia (serviço), koinonia (comunhão) e martyria (testemunho).
Que o novo ano civil seja um ano feliz para todos e todas vocês, um ano em que a comunhão seja fortalecida, a partilha seja maior e a esperança seja uma certeza de horizonte factível. Que possamos reconhecer a estrela do Menino-Senhor entre tantas estrelas que povoam nosso céu tropical... para que adoremos e sirvamos fielmente ao Deus da Vida através do serviço e da solidariedade a todas as Suas criaturas, especialmente àquelas que foram criadas à Sua Imagem, segundo a Sua Semelhança (Gênesis 1. 26-27).
Que o Capital Insaciável, o Consumismo Diabólico, o Individualismo Globalizado, a Racionalidade Pervertida, não nos fechem esses horizontes em definitivo!
Rev. Luiz Caetano, ost+
Nota: Este texto foi publicado originalmente em meu blog pessoal, por ocasião da Epifania de 2010; aqui fiz algumas pequenas modificações de cunho pastoral.
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06 janeiro 2011

EPIFANIA: CRISTO REVELADO AO MUNDO!

O Evangelho de São Mateus não fala em Reis Magos, mas fala em Magos que vieram do Oriente. Homens de outras culturas, diferentes da cultura judaica, a cultura em que Jesus nasceu. Reconheceram o sinal da Presença do Cristo no mundo, e vieram colocar-se diante dele. Herodes, rei dos judeus, não havia percebido o sinal; tampouco se mostrou disposto a aceitá-Lo. Pagãos, estranhos ao Pacto da Lei de Moisés, estes não só reconheceram o sinal da Presença, como aceitaram essa Presença e vieram colocar-se diante d’Aquele que estava manifesto em um Menino.
A Igreja celebra, na Festa da Epifania, e no tempo litúrgico que segue até a Quaresma, a manifestação de Deus em Jesus Cristo ao mundo, ao mundo inteiro! O Cristo é presente de Deus para toda a humanidade, não só a uma cultura específica.
A narrativa sobre os Magos do Oriente coloca para cada um de nós, cristãos e cristãs, duas questões importantes:
a) De fato, você reconhece os sinais da Presença de Deus em sua vida, ou você é como Herodes?
b) Você compreende que o Cristo de Deus não é propriedade da Igreja, mas dom de Deus para toda a humanidade, ou você é daquelas pessoas que se julga o único abençoado, e rejeita totalmente os diferentes de você?
Somos chamados a reconhecer e discernir Deus, no Mistério do Cristo Revelado, agindo e atuando através de outras pessoas, diferentes de nós, com outras visões de mundo. Pense nisso!
                                                               Rev. Luiz Caetano, ost+  Vosso Pároco
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