Os artigos deste blogue expressam o pensamento de seus autores, e não refletem necessariamente o pensamento unânime absoluto da comunidade paroquial. Tal unanimidade seria resultado de um dogmatismo restrito e isso contraria o ethos episcopal anglicano. O objetivo deste blogue é fornecer subsídios para a reflexão e não doutrinação. Se você deseja enviar um artigo para publicação, entre em contato conosco e envie seu texto, para análise e decisão sobre a publicação. Artigos recebidos não serão necessariamente publicados.

Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Vocação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vocação. Mostrar todas as postagens

23 maio 2017

Ascensão: espiritualidade pé no chão!

ascensãoA narrativa da ascensão de Jesus aparece em três versões: em Marcos, em Lucas e nos Atos dos Apóstolos. Mateus e João não contém essa narrativa, a partir do contexto em que estes Evangelhos foram escritos.

O Evangelho segundo Marcos faz uma pequena referência à ascensão do Senhor e conclui afirmando estar Ele à direita de Deus (significando que Ele detém o poder de Deus).

Mas em Atos dos Apóstolos e no Evangelho de Lucas, a narrativa é bem detalhada, embora um pouco diferente nos dois livros.

Lucas conclui afirmando, como Marcos, que o Cristo foi se afastando e levado para o Céu (lugar de Deus) e os discípulos retornam a Jerusalém cheios de alegria. Mas o Livro de Atos apresenta um detalhe importantíssimo:

1.8 Porém, quando o Espírito Santo descer sobre vocês, vocês receberão poder e se-rão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até nos lugares mais distantes da terra. 9 Depois de ter dito isso, Jesus foi levado para o céu diante deles. Então uma nuvem o cobriu, e eles não puderam vê-lo mais. 10 Eles ainda estavam olhando firme para o céu enquanto Jesus subia, quando dois homens vestidos de branco apareceram perto deles 11 e disseram: — Homens da Galileia, por que vocês estão aí olhando para o céu? Esse Jesus que estava com vocês e que foi levado para o céu voltará do mesmo modo que vocês o viram subir. (Atos 1.8-11 - NTLH)

11 fevereiro 2016

Deus é muito chato!

Não estou blasfemando! Isso é dito, com muitas palavras indignadas, no Livro de Jonas.

O Livro de Jonas é uma fábula. Explico: seu texto é um tanto absurdo, mas traz uma lição importante: a lição sobre o que significa ser Profeta.  Trata-se de um texto singelo e até divertido; é um desabafo e, ao mesmo tempo, uma advertência para quem recebe o chamado para ser Profeta (e o aceita).

Vamos ver o que o Livro de Jonas nos ensina sobre o ser Profeta (as citações são da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil)

Certo dia, o SENHOR Deus disse a Jonas, filho de Amitai:  — “Apronte-se, vá à grande cidade de Nínive e grite contra ela, porque a maldade daquela gente chegou aos meus ouvidos”. Jonas se aprontou, mas fugiu do SENHOR, indo na direção contrária. Ele desceu a Jope e ali encontrou um navio que estava de saída para a Espanha. Pagou a passagem e embarcou a fim de viajar com os marinheiros para a Espanha, para longe do SENHOR.  (Jn 1.1-2)


Estava lá o Jonas, tranquilo e sossegado, cuidando de sua vida. Então Deus o chamou e o mandou ir a Nínive! Caramba! Nínive?! a capital da Assíria, um Império cruel (como todos os Impérios), que arrasou o Reino do Norte (Israel) e levou seu povo ao cativeiro?!?! Mas que coisa chata!

22 novembro 2015

Milagres Acontecem?!

Viuva de Naim 2
Várias vezes acontece de pessoas me pararem na rua e perguntarem: “Padre, sua Igreja faz milagre?”  ou então: “Estou interessado na sua Igreja; o que ela tem para oferecer?”
É muito complicado dar uma resposta a perguntas desse tipo. Obviamente,  militantes imprudentes do proselitismo dirão que a resposta é simples: responder “Sim” à primeira questão e responder mostrando as atividades da igreja no caso da segunda, e, óbvio, convidar para que venha conhecer a igreja, que será bem recebido, que Jesus tem um presente para a pessoa, etc.
Mas não é tão simples, porque, por trás dessas perguntas estão alguns equívocos, e até mesmo uma disfarçada idolatria consumista, além de, muitas vezes , uma mente desesperada, uma alma aflita.
Eu costumo manter o diálogo assim:
“Padre, sua Igreja faz milagre?”  Respondo: “Olhe, a Igreja não é minha, mas é de Cristo; e ela não faz milagre, Deus é quem faz, em qualquer lugar e até lá… mas nós não fazemos disso uma propaganda para atrair pessoas, porque o milagre não é um mérito da Igreja, mas uma graça que Deus concede às pessoas que têm fé. Quando isso acontece, nós louvamos a Deus, mas não ficamos divulgando por ai, porque Deus não precisa de publicidade, nem milagres são possíveis de serem comprados. Você quer que eu ore com você?”
“O que a sua Igreja tem para oferecer?”  Respondo: “Olhe, a Igreja não é minha, mas é de Cristo. Ela tem para oferecer algo muito pequeno, nada de espetacular que esteja disponível em um Shopping. O que ela oferece cabe na palma da mão, Jesus disse que é do tamanho de uma sementinha… mas não se compra isso, nem se ganha com dinheiro, bajulação e arrogância; é de graça, mas requer muita humildade. E tem uma coisa importante que você precisa saber: exige compromisso e comprometimento. Você está mesmo interessado? Se estiver, será bem vindo!”

26 junho 2015

Você é cristão?!?!?!

cruzCaminhar com Jesus Cristo não é fácil. Não é uma opção filosófica. Não é adotar um estilo de vida. Não é ser “bonzinho”. Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, aceitar um convite, um chamado, e todas as implicações que isso traz.

No tempo presente, o nome de Jesus Cristo é insultado diariamente. Espertalhões que exploram a fé do povo cometem, “em nome de Jesus”, falcatruas visando angariar dinheiro de maneira imediata, deturpam descaradamente a Bíblia, que para os Cristãos é a Palavra de Deus, anunciam falsas promessas ou, por outro lado, defendem uma moralidade hipócrita e irrelevante, como se o Deus da Igreja fosse um grande negociante ou um soberano mal humorado.  Transformam a Fé Cristã em consumismo religioso vazio de conteúdo, prometendo em nome de Deus o que Ele jamais prometeu! E buscam as instâncias de poder do Estado para, com tal poder, atingir seus mais torpes objetivos.

As comunidades de fé que ainda resistem a essa onda diabólica, se tornam cada vez menores, e passam por forte crise de identidade. Há uma pressão sobre elas para acompanharem a onda do consumo religioso e crescer a qualquer preço.

Ao mesmo tempo, diante das falcatruas e das propostas moralistas hipócritas e excludentes, pessoas inteligentes se afastam de qualquer coisa que tenha um significado religioso, especialmente um significado “cristão”.

Muita gente inteligente, hoje, afirma crer em Deus, mas não frequenta qualquer religião. A religião é vista como algo nocivo e enganador, movida por organizações (chamadas Igrejas) cujo interesse é acumular riquezas, e explorar a boa fé das pessoas mais simples.

Todavia, pouca gente compreende que caminhar com Jesus Cristo não é simplesmente adotar uma religião ou vincular-se a uma instituição.  Igrejas sempre estão cheias de gente, mas não significa que estão cheias de pessoas cristãs!

Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, uma experiência que surge a partir de um convite: “Vem, e segue-me!”  É uma experiência que só tem sentido quando vivida em uma comunidade de oração, serviço, anúncio e testemunho. Tal comunidade é, desde os tempos dos Apóstolos, chamada de Igreja. Não uma instituição, mas uma grande comunidade.  Sem essa percepção, tudo perde sentido!

É claro que as comunidades de fé se organizam institucionalmente. Não podem fugir disso. É da própria natureza dos agrupamentos humanos organizarem-se com normas de direitos e deveres, símbolos e ações simbólicas, definições de autoridade e exercício de poder dentro do agrupamento. Mas nada disso é absoluto por si mesmo, mas é antes de tudo, a maneira de compreender as limitações humanas e colocar-se na total dependência de Deus. Não há autoridade única e absoluta na Igreja de Deus, a não ser a de Jesus Cristo. Todo o resto se procura fazer em obediência e atendimento ao chamado: “Vem e segue-me!

Como tudo que é humano, a grande comunidade de fé se organiza, e se denomina tal organização de “Igreja” e, ainda que possa abranger muitas comunidades de fé espalhadas pelo mundo, traz em si mesma a imperfeição humana e a tentação do pecado. Em todo tempo e lugar sempre acontecem desvios e muitas vezes o absoluto de Deus é deixado de lado.  Na teologia, isso se chama pecado.

Por ser humana, a Igreja está cercada pelo pecado. Por isso,  a comunidade de fé está sempre se renovando e se reformando, procurando corrigir os desvios e tentando evitar a tentação de ser absoluta por si mesma. Por isso, a Igreja se reúne como comunidade para, acima de tudo, colocar-se diante do Senhor, reconhecer seus pecados, e receber a Graça Libertadora que anima toda a comunidade a permanecer fiel e caminhando com Jesus Cristo neste mundo!

Há muita safadeza no chamado “mercado religioso”. Há muita gente “esperta” que, tal como um vampiro, vive parasitando as pessoas com promessas vazias, falsos testemunhos e muitas vezes acompanhado de uma moralidade hipócrita, excludente e preconceituosa.

Mas há também muitas comunidades de fé que não se deixam levar pelos demônios da exploração e da falcatrua; acolhem com afeto e simpatia todas as pessoas que, tendo ouvido o Chamado, buscam vivenciar essa experiência em uma comunidade de irmãos e irmãs.

São essas pessoas que tornam o testemunho cristão relevante diante das mazelas do mundo. São tais pessoas que, nos momentos mais duros e difíceis da sociedade humana são capazes de empenhar a própria vida visando o bem estar de todos. É porque ainda existem os que atenderam ao Chamado que a solidariedade, embora rara hoje em dia, ainda acontece. 

Isso não é um privilégio das comunidades Cristãs. Afinal, o próprio Jesus informou, aos seus discípulos mais próximos, que Ele tem ovelhas em outros apriscos…  e eu entendo que lá Ele é reconhecido, mas chamado por outro nome…

Rev. Luiz Caetano, ost+

===/===

02 agosto 2014

Pastoral ou Poder?

jesus e os fariseus e saduceus
      Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos: Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.  Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.  Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o maior dentre vós será vosso servo. Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado. (Mateus 23 1-12)
Este capítulo do Evangelho segundo Mateus se encontra inúmeras vezes a frase: “Ai de vós, Escribas e Fariseus”; a frase é bem forte, um tom de condenação. Esta expressão vem dos livros dos proféticos e sempre tem um teor condenatório para quem o recebe, uma critica sobre a atitude de quem o recebe.
Jesus ataca os religiosos da sua época (sacerdote e escribas) por causa do clericalismo exagerado que havia em seu tempo. Qualquer ato religioso deveria passar pelo sacerdote e/ou os fariseus (os únicos interpretes da lei). Além disso, obrigavam pesadas penitências às pessoas para expurgar os pecados. Os escribas e os fariseus conseguiam assim hegemonia e controle sobre o sagrado e controlando, por isso mesmo, a vida do povo no campo social, religioso e político.
Como o ser humano consegue corromper as coisas boas quando se encantam pelo poder! Jesus, em Mateus, esta criticando a tendência dos religiosos em deter o monopólio da vida e do sagrado do povo da época, criando um clericalismo exagerado, como “deuses” na terra.
Infelizmente vemos religiosos manipulado o povo com o sagrado e a santidade. Usando de sua posição para manipular e vilipendiar pessoas que buscam simplesmente serem bons crentes e seguidores da fé. Por isso me lembrei desta frase: “O homem verdadeiramente santo é aquele que não se preocupa com a santidade, assim como o homem que se deixa dominar pelo amor não se importa mais com conceitos e classificações” que dizia o teólogo e educador Rubem Alves (1933-2014). Com isso, ser bom ou santo é algo que deve ser incorporado naturalmente no nosso dia a dia. E não uma qualidade a ser usada e explorada pelo homem.
Sabemos que em nossa Igreja, como na maioria das denominações cristãs, existe o clero (bispo, presbíteros e diáconos); os quais precisam, a todo o momento, lembrar que – como Igreja e como clero – não têm a última palavra, pois nós, anglicanos, herdamos, pela Reforma, o conceito de sacerdócio universal dos fiéis, de que fala a Epistola aos Hebreus. 
Todavia, às vezes, por causa das tentações que a posição lhes dá, membros do clero buscam apenas desfrutar das regalias do ministério, e desviam seu ministério (serviço) pastoral buscando controlar a vida das pessoas ao seu bel prazer, usando-as e explorando-as emocionalmente.
Jesus nos alerta, ainda hoje, que o crente (o povo) tem a possibilidade de tomar decisões sobre a sua vida, e que nós, do clero, somos simples orientadores espirituais. Cabe a nós,  clérigos, realizar nossa atividade pastoral (visitas e aconselhamento) com espírito de humildade e simplicidade para não cairmos na tentação do monopólio da vida dos fies.
Rev. Daniel Rangel, ost+
===/===

19 julho 2012

Separado para servir!

No domingo, 22 de agosto, a Paróquia São Paulo Apóstolo hospedará a cerimônia de Ordenação ao Diaconato do Frei Fabiano Nunes, osb. Fabiano atua em nossa comunidade paroquial há alguns anos como Ministro Leigo e administra um amplo projeto de ação social diocesana na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro.

O Diaconato é a primeira ordem que recebemos quando ingressamos no Sagrado Ministério da Igreja. O Diaconato é a Ordem do Serviço, e o ministério diaconal é exatamente o ministério de servo da comunidade em nome de Cristo. O Presbiterado (sacerdócio ordenado) é dado ao Diácono, assim como o Episcopado é dado ao Presbítero. Ou seja, todos os sacerdotes (presbíteros) são diáconos, assim como todos os bispos são presbíteros e diáconos. Portanto, todo o ministério ordenado da Igreja repousa sobre o Diaconato, ou seja, repousa sobre a ordem dada para servir à comunidade da Igreja e ao mundo em nome do Senhor Jesus Cristo, sob a inspiração do Espírito Santo.

O ministério do Diácono é fundamentado em Atos dos Apóstolos, quando é decidido separar entre membros da comunidade gentílica, sete homens para dedicarem-se ao cuidado dos órfãos e das viúvas, ou seja, das pessoas mais necessitadas da comunidade (cf. Atos 6.1-7).

Sabiamente a Igreja, desde algum tempo, e retomando antiga tradição, incluiu as mulheres nas Ordens Sagradas, e assim temos hoje na Igreja Episcopal Anglicana diáconas e diáconos, como temos também Presbíteras e Bispas. Evitamos a palavra diaconisa, pois no tradição protestante este termo não tem o mesmo significado de uma Ordem Sacramental.

Uma vez que todas as demais Ordens são dadas sobre o Diaconato,  tanto o Presbiterado quanto o Episcopado devem ser exercidos de maneira diaconal, ou seja, como serviço à comunidade em nome de Jesus Cristo, e em testemunho do Evangelho.

Na Igreja Episcopal  Anglicana acontece o renascimento da vocação diaconal e uma reflexão teológica e pastoral buscando fortalecer o papel do Diácono na vida das dioceses. Durante algum tempo o Diaconato foi visto como um “estágio” anterior ao Presbiterado, mas hoje há uma visão que recupera o significado desse ministério específico de acordo com a Tradição herdada pela Igreja.  Surgem vocações que se destinam ao Diaconato especificamente, pessoas que não buscam o Presbiterado, mas querem colocar-se em serviço diaconal de forma permanente. Fabiano, desde o início, afirma sentir-se chamado à esta vocação especial de servir como Diácono sem almejar as demais ordens. A exemplo de Fabiano, outras pessoas começam a manifestar-se sentindo o mesmo chamado, não só em nossa Diocese como também em outras.

É preciso salientar que na nossa visão doutrinária sobre as Sagradas Ordens, adotamos o princípio estabelecido na Carta aos Hebreus, de que o Sacerdócio é único e pertence ao Senhor Jesus Cristo, o qual é delegado a todas as pessoas pelo Batismo. Assim,  ao separar pessoas para o exercício das Sagradas Ordens, a Igreja como um todo delega a essas pessoas o exercício de seu sacerdócio (de todos) para exatamente exerce-lo como serviço à comunidade e ao mundo. Assim, devemos entender que Diáconos, Presbíteros e Bispos são pessoas da comunidade, separadas pela comunidade e ordenadas para o serviço à comunidade, cada ministério em seu múnus específico.  Tais pessoas têm a grave responsabilidade de serem sinais da presença de Cristo na Igreja, e por isso é necessário que haja realmente uma vocação (chamado) inspirado pelo Espírito Santo para que uma pessoa receba as Sagradas Ordens com dignidade e humildade. A Igreja, sabiamente, reserva um tempo relativamente longo para que tal vocação seja testada e avaliada até que se concretize o momento em que a pessoa é separada para exercer o ministério ordenado em nome da Comunidade em em perfeita comunhão com o Senhor Jesus Cristo.

Colocamos Fabiano, assim como todas as pessoas vocacionadas diante de Deus, intercedendo para que seu ministério seja realmente sinal da Presença do Cristo Vivo e da Bênção de Deus em nossa diocese e Igreja. Após sua ordenação, Fabiano será nomeado pelo Bispo Diocesano para servir às comunidades do Mediador e Bom Jesus, ambas na Zona Oeste da nossa cidade. Fabiano deixa a São Paulo Apóstolo com a mesma dignidade que sempre mostrou no seu longo período de ministério conosco e leva nossa gratidão e saudade.

Rev. Luiz Caetano, ost+

Rev. Daniel, ost diácono

===/===

23 março 2012

Vida de Pastor

(aos seminaristas de hoje que realmente querem servir o Povo de Deus e não faturar no negócio religioso)

Nota: este texto foi publicado em meu blog pessoal, mas por sugestão de vários colegas e paroquianos, estou partilhando no O Apóstolo, com as devidas adaptações.

Novo sentido espiritualidade 01Quando estudava no Seminário, em São Paulo, tirávamos algumas tardes de sábado e nos reuníamos, alunos e professores, para um bate papo informal, onde o que mais acontecia era a troca de experiências e um partilhar da vida.  Bons tempos em que a gente partilhava sentimentos, emoções, esperanças e fracassos com pessoas reais, olho no olho, e não nas redes sociais.  Eu costumava anotar algumas coisas em um caderno, as coisas que chamavam a atenção, que marcavam o coração… uma espécie de registro de momentos e palavras que impressionaram minha vivência aos 22 anos.

Esses caderninhos guardo até hoje, são minha memória afetiva e intelectual.

Lembro especialmente de uma tarde, o grupo não era grande, umas sete ou oito pessoas, e o papo com um velho professor, já falecido...

O assunto correu e chegou na “vida de pastor”… o nosso professor contou algumas de suas vivências, em alguns casos rimos muito, mas de repente nos saiu com essa: (tradução dos meus garranchos no caderno e devidamente editado para ser uma postagem)

Vários de vocês estão aqui estudando porque almejam seguir o ministério ordenado. Não sei se têm ideia da loucura que estão querendo. Isso não é profissão, mas é vocação.  Não é uma carreira, mas é um caminho que sempre nos leva para um lugar sombrio: a alma humana. A tua alma e a alma dos outros.

Você precisa estar prevenido, porque aqui no Seminário, tudo é sonho e projeto, mas lá, no exercício do ministério, na solidão que isso é, a coisa é muito diferente.

Logo de início aviso que felicidade no casamento vai ser algo difícil, a menos que você encontre a esposa certa (naquele tempo mal se falava em ordenação de mulheres), que não deve ser prioritariamente crente mas tem de ter um espírito de abnegação grande e não ser ambiciosa. Um pastor é quase como um médico: tem plantão 24 horas todos os dias, inclusive domingos! Depois do culto, pode acontecer que àquele almoço na casa da sogra, tua esposa e os filhos vão, e você não vá porque a Dona Maricota foi internada e está mal, a família pede sua presença para acompanhar a situação, só que o hospital é exatamente aquele que fica do outro lado da cidade, você não tem carro e provavelmente vai passar lá o resto do dia, quando não a noite também. E, pode ter certeza, sempre aparecerá uma Dona Maricota ou uma emergência pastoral no dia do aniversário da tua esposa, dos teus filhos, no do casamento, no seu mesmo, ou no dia da confraternização da escola das crianças.

Muitas vezes você vai ficar angustiado porque teu soldo é pequeno, e teus filhos querem coisas que você não pode comprar. Tirar férias será sempre um tormento, a preocupação com a igreja e com quem poderá substituir você nesse tempo. Acostumem-se a tirar férias curtas mas pelo menos duas vezes por ano, porque ninguém é de ferro.

As pessoas da Igreja e mesmo de fora da Igreja serão exigentes com você. Você não tem o direito de errar, de ficar triste, de ter dúvidas… ninguém pensa que um pastor também precisa de um pastor, e o Bispo, que deveria fazer isso no mínimo, geralmente não faz; até porque o Bispo também precisa de um pastor, e muito.

Você terá de ser sempre o amigo, o ouvinte, o solidário, o pau-pra-toda obra. Ninguém estará interessado nos problemas que você tem, mas todos querem que você se interesse pelos problemas deles. Poucas vezes você terá um amigo, um ouvinte, alguém solidário, alguém que se ofereça para ajudar você na obra.  Você será a latrina onde as pessoas jogarão suas merdas interiores… então ai, lembre que o Cristo é bom faxineiro e sempre virá para dar a descarga. Nunca compartilhe essas merdas, deixei que o Faxineiro cuida delas, e ele tem muitas maneiras de fazer isso… com o tempo vocês entenderão. Coloquem sempre essas coisas ao pé da Cruz de Cristo e jamais comentem com ninguém, nem mesmo com quem falou com você.

Vocês dirão que Cristo é o pastor de vocês, isso é bonito, mas no dia a dia orem para que Ele seja pastor de vocês através de alguém que possa te abraçar sem medo, te ouvir e compreender que você é humano, tem sentimentos, sonhos, desejos, frustrações e também é pecador. Cercado de muita gente, o pastor está imerso em uma solidão tremenda. Nem mesmo seus colegas estarão disponíveis, por isso cuide que a burocracia da igreja não destrua as amizades que você está construindo aqui no Seminário; não se deixe contaminar pela inveja e pelo espírito de concorrência; seja humilde e lembre-se que você e todos que são pastores, são apenas servos de UM OUTRO, o verdadeiro e único Pastor.

Pense bem antes de aceitar a ordenação. Mas saiba que, se Deus te escolheu, Ele estará contigo sempre, até mesmo na tua fraqueza e no teu pecado. Por isso, reserve sempre parte do teu tempo em solidão, escrevendo, meditando, lendo, e orando, para ouvir a voz do Senhor.

Após 26 anos de vida no ministério ordenado, mesmo tendo passado a maior parte desse tempo servindo à Igreja em funções mais específicas, eu entendo e muito bem, as palavras do velho professor. Sei o quanto ele estava certo. É uma pena que hoje em dia a maioria dos que se dizem pastores são empresários da religião; pena que virou profissão.

Que Deus nos ajude!

Luiz Caetano, ost+

===/===

08 março 2012

Cuidando da Casa da Comunidade, nosso templo!

(publicado originalmente em Pirilampos e Pintassilgos, em  25 de abril de 2011; adaptado)
celtas_thumb[8]Os celtas antigos não construíam templos; para eles, nenhuma construção humana pode conter o Divino, a não ser o próprio templo que a Divindade construiu para si mesma, ou seja, a Natureza. Assim, a religião da Antiga Tradição realizava todos os seus ritos a céu aberto. Em se tratando de uma religião da natureza, isso é bastante lógico e óbvio.
Mas os cristãos, desde muito cedo, celtas ou não celtas, constroem sua igrejas, templos onde a Divindade não habita exclusivamente, mas que se torna um espaço separado – sagrado – onde a comunidade se reúne para o louvor e a adoração. Para os cristãos, a Divindade caminha conosco na História; assim é o Deus que se revela na Bíblia. É a comunidade, não a Divindade, que necessita do templo para viver melhor sua experiência existencial com o Divino. Assim, no decorrer da História, a Igreja do Oriente e do Ocidente construiu templos das mais variadas formas, dos mais variados estilos, desde as muito simples capelas e ermidas até as grandes catedrais góticas. Todas elas como espaços de oração, vivência comunitária e descanso,  em testemunho do amor e da glória de Deus.
DSC00972O templo da São Paulo Apóstolo é uma obra de arte arquitetônica e um dos mais belos templos da Igreja Episcopal no Brasil, um templo construído entre os anos 20 e 30 do século passado, quando as técnicas de engenharia não contavam ainda com o concreto armado, tijolos refratários, tubulações seguras para a eletricidade, a água e os esgotos, cuja ventilação é totalmente dependente do desenho, ou seja, um prédio de manutenção complicadíssima e muito cara!
DSC00955E isso agravado pelo fato que, por mais de 30 anos, por diferentes razões, o edifício não recebeu manutenção adequada e ainda por cima sofreu, há alguns anos, a ação de um raio em forte temporal, estando com sérios problemas estéticos e funcionais, necessitando de restauração geral cujo orçamento está muito além dos recursos da comunidade ou mesmo da Diocese. Por isso, estamos cuidando de conseguir o tombamento do edifício, não só pelo seu valor histórico em Santa Teresa mas também como garantia de manutenção patrocinada permanente.
Uma questão se coloca na consciência de qualquer cristão: é realmente importante a preservação e a conservação deste templo? vale a pena buscar recursos de monta para isso diante de tantas urgências que se colocam para a Igreja?
Como comunidade paroquial afirmamos que a manutenção deste templo, sua restauração e conservação é – também – uma urgência para a Igreja. São vários os motivos que justificam tal postura ética.
Em primeiro lugar, a comunidade necessita do espaço sagrado para sua vida de adoração, estudo e convívio. Claro que para isso bastaria um espaço simples e barato, mas nós recebemos este templo como herança dos ancestrais da comunidade, as gerações que antes de nós e sob a mesma identidade (Igreja de São Paulo Apóstolo) construíram e partilharam esse templo em sua caminhada na história.  Honrar essa memória e essa história é uma responsabilidade que a comunidade de hoje tem e a de amanhã terá de assumir, bem como toda a comunidade maior da Igreja (Diocese e Igreja nacional).
INTERIOR DO TEMPLO PEQEm segundo lugar, o templo da São Paulo Apóstolo é parte da história de Santa Teresa, parte de sua herança arquitetônica, e um dos mais belos edifícios religiosos do Rio de Janeiro pela sua simplicidade e ao mesmo tempo grandiosidade! (características do estilo gótico: simplicidade decorativa, iluminação e grandiosidade estética). Além de ser uma referência turística, o templo e o complexo paroquial têm servido como espaço de serviço e acolhimento de muitas iniciativas da população do bairro. A comunidade, de formação ecumênica, abre o seu espaço sagrado para outras atividades, especialmente culturais e artísticas e até mesmo como local de repouso e acolhida, como testemunho do amor de Deus por todas as pessoas, o Deus que não exclui mas que busca ser presença e companheiro de cada ser humano.
Em terceiro lugar, é dever da comunidade preservar o seu patrimônio, patrimônio da Igreja Diocesana, construído com as ofertas generosas recebidas de seus membros e irmãos e irmãs de outras comunidades pelo mundo.
Com a graça de Deus temos conseguido, como comunidade paroquial e diocesana,  com a ajuda de muitos amigos e amigas, enfrentar o desafio e preservar com gratidão o legado que recebemos dos pioneiros que deram início à Missão de São Paulo Apóstolo no morro de Santa Teresa em 1917, e das seguidas gerações que mantiveram este templo aberto a serviço de Deus e acolhendo todas as pessoas.
Nosso sonho é ter nosso templo totalmente restaurado em 2017, ano do centenário da comunidade! Se você deseja contribuir com essa causa, entre em contato conosco!
Rev. Luiz Caetano, ost+
Note bem: Nossa administração é plenamente transparente! O relatório mensal da Tesouraria está sempre disponível no mural interno de templo, e em breve estaremos divulgando o mesmo na Rede Mundial, de forma a permitir o acesso publico às nossas informações financeiras. A Paróquia é administrada pela Junta Paroquial, composta por membros plenos da Igreja, eleitos em Assembleia Paroquial, de acordo com a ordenação canônica da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, que supervisiona a administração paroquial. Não cobramos serviços religiosos, e a Paróquia é mantida pela Contribuição Regular de seus membros, ofertas especiais recebidas de pessoas e instituições do Brasil e do mundo, além da importante subvenção da Diocese, para quem também damos modesta contribuição como Quota Diocesana, formando o recurso que é distribuído em bens e serviços para todas as comunidades. Parte significativa das coletas nos ofícios religiosos regulares é destinada a entidades de serviço social com quem temos parceria e outros projetos sociais comunitários. Os proventos do Pároco são garantidos pela Diocese (somos subvencionados); nosso Coadjutor presta seu serviço voluntariamente, recebendo apenas uma ajuda de custo para transporte. Todas as despesas da casa paroquial são patrocinadas pelo próprio pároco, por opção do mesmo. Tudo que temos e fazemos, é pela graça de Deus e a solidariedade que anima o povo cristão (Igreja) de todo o mundo.
===/===

18 janeiro 2012

Seguir a Cristo

                                             “ser livre é escolher o Bem, o Sumo Bem e o Sumo Bem é Deus”                                    John Duns Scotos Eurigina
vem_segue_meNão é de admirar que hoje os cristãos têm dificuldade de entender o que é seguir a Cristo.  Algumas passagens bíblicas falam que quem segue o Cristo fará maravilhas e proezas; outras passagens comentam que o maior é o que serve e será reconhecido por Ele. Hoje em dia isso fica confuso, principalmente quando ouvimos as mensagens dos tele-pregadores (tanto católicos romanos como evangélicos) falando de poder, riqueza, benção e fartura... sem nenhuma menção ao serviço.
Afinal, o que significa seguir a Cristo realmente?
Para entender o seguir, primeiro temos que entender o chamar. O cristão é chamado para se inserir no mundo em vida, atuação e “encarnação” (se tornar um igual). Ele é chamado pelo próprio Cristo para desenvolver sua vocação na história humana, na vida.
O cristão tem sua própria maneira de viver, agindo no mundo de acordo com sua inspiração, seus valores e sua espiritualidade. A identidade do cristão é um conjunto de características específicas, que qualificam sua vocação e o diferenciam de membros de outros grupos religiosos. No contexto atual, marcado pelo pluralismo religioso, o cristão é interpelado a assumir sua identidade . É desafiado a afirmar e cultivar sua fé, sua forma de celebrar, seu modo de agir e sua maneira de atuar.
Assim, para ser discípulo (aquele que atende ao chamado de Cristo) é necessário à pessoa viver pelo exemplo de como Cristo realizou o seu projeto. Então, a força do discípulo é entender isso e aplicar em sua vida , perceber que o anúncio do Cristo (kerygma) faz parte de sua ação de vida. A ação consciente, generosa, dócil e fiel à Deus deve impregnar o ser e o agir de quem segue o Cristo no mundo. Ele é chamado a seguir o Cristo em seu itinerário pessoal e social.
É importante que o discípulo entenda o contexto, a vida e a obra de Jesus, tornando sua realidade encarnada na dele. A única maneira de fazer isto é estudando as Sagradas Escrituras e participando dos Sacramentos da comunidade de fé.
O seguimento a Cristo implica a comunhão vital e constante com Jesus e compromisso irredutível com o próximo. Por isso, ele deve se identificar, paulatinamente, com Jesus e se conformar ao seu estilo de vida, de maneira que fique parecido com o Mestre.
O seguimento a Jesus engaja o cristão na missão de Deus. O discípulo  dá continuidade à missão de Jesus aqui e agora. Para nós, episcopais anglicanos, a perspectiva de encarnar no mundo faz com que esta missão seja sempre memória e afirmação da ação do Cristo na História.
Rev. Daniel, ost diac.
===/===