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19 novembro 2016

Que Rei é este?

Jesus na Cruz 2As Igrejas de tradição Anglicana, bem como a Igreja Romana e, em alguns lugares, várias outras denominações cristãs protestantes, incluindo os luteranos, alguns presbiterianos e metodistas, celebram, em honra de Cristo, a Festa de Cristo Rei, ou como diz no nosso Livro de Oração Comum, a Festa de Jesus Cristo, Rei do universo, no último domingo do ano litúrgico, antes que o novo ano comece com o primeiro domingo do Advento.
O belo poema de Paulo, na carta aos Filipenses, descreve muito bem a maneira de como o Senhor manifesta o Seu Poder e nos dá pistas para entender o Seu Reinado:
   “Ele tinha a natureza de Deus, mas não se impôs como igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte — morte de cruz.Por isso Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é o mais importante de todos os nomes, para que, em homenagem ao nome de Jesus, todas as criaturas no céu,na terra e no mundo dos mortos, caiam de joelhos e declarem abertamente que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus, o Pai”. (Filipenses 2. 6-11)

26 outubro 2016

Uma questão de Justiça!

Viuva Chata 2a ovalA conhecida parábola “O Juiz Iníquo” é geralmente interpretada como uma orientação sobre a necessidade de se insistir na oração diante de Deus. Ou seja, Deus é como o juiz iníquo! Arrogante, e cheio de si, tipo aqueles que sempre perguntam ao interlocutor: “sabe com quem está falando?”. Seria Deus tão arrogante assim?  Jesus estava dizendo isso sobre o Papai?
Com certeza, não! Tal identidade contradiz tudo que Jesus nos ensina sobre Papai. Então, o objetivo da parábola é outro.  Vamos ao texto:
1 Jesus contou a seguinte parábola, mostrando aos discípulos que deviam orar sempre e  nun-ca desanimar: 2  — Em certa cidade havia um juiz que não temia a Deus e não respeitava ninguém. 3 Nessa cidade morava uma viúva que sempre o procurava para pedir justiça, dizendo: “Ajude-me e julgue o meu caso contra o meu adversário!” 4  — Durante muito tempo o juiz não quis julgar o caso da viúva, mas afinal pensou assim: “É verdade que eu não temo a Deus e também não respeito ninguém. 5 Porém, como esta viúva continua me aborrecendo, vou dar a sentença a favor dela. Se eu não fizer isso, ela não vai parar de vir me amolar até acabar comigo.” 6 E o Senhor continuou: — Prestem atenção naquilo que aquele juiz desonesto disse. 7 Será, então, que Deus não vai fazer justiça a favor do seu próprio povo, que grita por socorro dia e noite? Será que ele vai demorar para ajudá-lo? 8 Eu afirmo a vocês que ele julgará a favor do seu povo e fará isso bem depressa. Mas, quando o Filho do Homem vier, será que vai encontrar fé na terra? (Lucas 18.1-8 / NTLH)

23 fevereiro 2016

Justiça, Misericórdia e Perdão


Na Bíblia, a palavra “misericórdia” aparece centenas de vezes.  Eu afirmo, até, que “misericórdia” é um dos grandes temas bíblicos. Acima de tudo, a Bíblia revela a Misericórdia de Deus, o Deus Misericordioso e Justo. Sim, porque Misericórdia e Justiça são lados de uma mesma figura, no conceito bíblico! É Deus quem julga a humanidade e Sua Justiça se baseia na Misericórdia
Em Mateus 5:7 Jesus diz: “ Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia”. Deus é misericordioso com quem exerce a misericórdia: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.” (Tiago 2:13), ou seja a misericórdia está acima do juízo!  Assim, a misericórdia é algo a ser exercida como obediência a Deus! O julgamento de Deus se baseia no critério de cada pessoa.  Jesus afirmou “Porque, com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” (Mateus 7:2).
Todavia, quando pensamos em julgamento por Deus, muitas vezes imaginamos o Senhor como um juiz severo e mal encarado, feliz em condenar sem apelações (na verdade, em nossa cultura ocidental fomos ensinados assim!). Mas não é assim! Porque o juízo misericordioso de Deus tem, como prioridade, o Perdão!  O Perdão é o terceiro lado que compõe, com a Misericórdia e a Justiça , a figura imaginária do Deus Amoroso que se revela em Jesus, o Cristo.

11 fevereiro 2016

Deus é muito chato!

Não estou blasfemando! Isso é dito, com muitas palavras indignadas, no Livro de Jonas.

O Livro de Jonas é uma fábula. Explico: seu texto é um tanto absurdo, mas traz uma lição importante: a lição sobre o que significa ser Profeta.  Trata-se de um texto singelo e até divertido; é um desabafo e, ao mesmo tempo, uma advertência para quem recebe o chamado para ser Profeta (e o aceita).

Vamos ver o que o Livro de Jonas nos ensina sobre o ser Profeta (as citações são da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil)

Certo dia, o SENHOR Deus disse a Jonas, filho de Amitai:  — “Apronte-se, vá à grande cidade de Nínive e grite contra ela, porque a maldade daquela gente chegou aos meus ouvidos”. Jonas se aprontou, mas fugiu do SENHOR, indo na direção contrária. Ele desceu a Jope e ali encontrou um navio que estava de saída para a Espanha. Pagou a passagem e embarcou a fim de viajar com os marinheiros para a Espanha, para longe do SENHOR.  (Jn 1.1-2)


Estava lá o Jonas, tranquilo e sossegado, cuidando de sua vida. Então Deus o chamou e o mandou ir a Nínive! Caramba! Nínive?! a capital da Assíria, um Império cruel (como todos os Impérios), que arrasou o Reino do Norte (Israel) e levou seu povo ao cativeiro?!?! Mas que coisa chata!

05 fevereiro 2016

Reflexão para a Quaresma: A Verdade que Liberta!

  [As citações bíblicas neste artigo são da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH -SBB)]
           Romanos 14 apresenta, no meu entender, algo contundente: o Senhor não toma nenhuma posição sobre as nossas querelas doutrinárias, religiosas, de costumes e de moral. De certa forma o Apóstolo São Paulo apresenta um critério ético para que possamos conviver com as nossas diferenças.
 “Aceitem entre vocês quem é fraco na fé sem criticar as opiniões dessa pessoa.  Por exemplo, algumas pessoas creem que podem comer de tudo, mas quem é fraco na fé come somente verduras e legumes.  Quem come de tudo não deve desprezar quem não faz isso, e quem só come verduras e legumes não deve condenar quem come de tudo, pois Deus o aceitou.
 Quem é você para julgar o escravo de alguém? Se ele vai vencer ou fracassar, isso é da conta do dono dele. E ele vai vencer porque o Senhor pode fazê-lo vencer.
 Algumas pessoas pensam que certos dias são mais importantes do que outros, enquanto que outras pessoas pensam que todos os dias são iguais. Cada um deve estar bem firme nas suas opiniões.  Quem dá mais valor a certo dia faz isso para honrar o Senhor. E também quem come de tudo faz isso para honrar o Senhor, pois agradece a Deus o alimento. E quem evita comer certas coisas faz isso para honrar o Senhor e dá graças a Deus.”   (Rom 14. 1-6)
O acolhimento de quem está “fraco na fé” não deve ser para contendas.  Para muitos cristãos, os que não creem como eles creem, são “fracos na fé”, “heréticos”, possessos do demônio...  Surgem então as discussões infindáveis, que aumentam o preconceito de uns com os outros e de outros com os uns (preconceito gera preconceito)!  As discussões progridem para a ira, porque se tornam prisioneiras da “verdade absoluta”;  a ira gera intolerância e a intolerância gera a perseguição.  Nada melhor que “verdades absolutas” para gerar a histeria do fanatismo e da violência!

24 dezembro 2015

Um menino nos nasceu!


Um Menino nasceu para nós... pobre; na periferia de uma grande cidade situada na periferia de um grande Império (opressor como todos os impérios); visitado pelos pastores, aqueles que vivem fora dos muros; deitado em uma manjedoura, um curral, porque não havia quem o hospedasse... 
Alguém ainda lembra o que realmente se festeja?

25 agosto 2015

Um pouco de História para deixar claro algumas coisas…

Boa Nova
Hoje em dia o adjetivo “evangélico” está substantivado, como identidade de grupos religiosos dos mais diversos, todos se afirmando “cristãos”, embora grande parte deles não professa exatamente a Fé Evangélica Cristã.
Entretanto, o desgaste sofrido pelo adjetivo “evangélico” leva as pessoas a pensarem que “ser evangélico” é exatamente ter a prática religiosa desses grupos, especialmente aqueles grupos em que a Graça e a Bênção são substituídas pela prosperidade material, pela compra de bênçãos e pela idolatria de seus líderes.
Em poucas palavras, de forma bem resumida, é bom lembrar que o adjetivo “Evangélica” foi atribuído por Martilho Lutero quando – excomungado pela Igreja de Roma – definiu seu grupo como Igreja Evangélica, não em oposição à Igreja Católica, mas afirmando a identidade de uma Reforma que deveria fazer a Igreja retornar sua confessionalidade à afirmação dos valores do Evangelho: a salvação pela Graça e pela Fé, e total obediência ao senhorio de Cristo, sempre com base nas Escrituras.
Aliás, “católico” e “apostólico” são outros adjetivos que foram substantivados como nome de Igreja ao invés de serem entendidos como qualidade universal da Igreja que vem dos Apóstolos; nesse sentido, todas as Igrejas que mantém seu vínculo histórico com o cristianismo primitivo, são católicas e apostólicas! Inclusive a Igreja Evangélica que surge a partir do pensamento de Martinho Lutero! e a maioria das Igrejas vindas do movimento da Reforma do Século XVI e, obviamente, as Igrejas Orientais, também conhecidas como Ortodoxas.

26 junho 2015

Você é cristão?!?!?!

cruzCaminhar com Jesus Cristo não é fácil. Não é uma opção filosófica. Não é adotar um estilo de vida. Não é ser “bonzinho”. Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, aceitar um convite, um chamado, e todas as implicações que isso traz.

No tempo presente, o nome de Jesus Cristo é insultado diariamente. Espertalhões que exploram a fé do povo cometem, “em nome de Jesus”, falcatruas visando angariar dinheiro de maneira imediata, deturpam descaradamente a Bíblia, que para os Cristãos é a Palavra de Deus, anunciam falsas promessas ou, por outro lado, defendem uma moralidade hipócrita e irrelevante, como se o Deus da Igreja fosse um grande negociante ou um soberano mal humorado.  Transformam a Fé Cristã em consumismo religioso vazio de conteúdo, prometendo em nome de Deus o que Ele jamais prometeu! E buscam as instâncias de poder do Estado para, com tal poder, atingir seus mais torpes objetivos.

As comunidades de fé que ainda resistem a essa onda diabólica, se tornam cada vez menores, e passam por forte crise de identidade. Há uma pressão sobre elas para acompanharem a onda do consumo religioso e crescer a qualquer preço.

Ao mesmo tempo, diante das falcatruas e das propostas moralistas hipócritas e excludentes, pessoas inteligentes se afastam de qualquer coisa que tenha um significado religioso, especialmente um significado “cristão”.

Muita gente inteligente, hoje, afirma crer em Deus, mas não frequenta qualquer religião. A religião é vista como algo nocivo e enganador, movida por organizações (chamadas Igrejas) cujo interesse é acumular riquezas, e explorar a boa fé das pessoas mais simples.

Todavia, pouca gente compreende que caminhar com Jesus Cristo não é simplesmente adotar uma religião ou vincular-se a uma instituição.  Igrejas sempre estão cheias de gente, mas não significa que estão cheias de pessoas cristãs!

Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, uma experiência que surge a partir de um convite: “Vem, e segue-me!”  É uma experiência que só tem sentido quando vivida em uma comunidade de oração, serviço, anúncio e testemunho. Tal comunidade é, desde os tempos dos Apóstolos, chamada de Igreja. Não uma instituição, mas uma grande comunidade.  Sem essa percepção, tudo perde sentido!

É claro que as comunidades de fé se organizam institucionalmente. Não podem fugir disso. É da própria natureza dos agrupamentos humanos organizarem-se com normas de direitos e deveres, símbolos e ações simbólicas, definições de autoridade e exercício de poder dentro do agrupamento. Mas nada disso é absoluto por si mesmo, mas é antes de tudo, a maneira de compreender as limitações humanas e colocar-se na total dependência de Deus. Não há autoridade única e absoluta na Igreja de Deus, a não ser a de Jesus Cristo. Todo o resto se procura fazer em obediência e atendimento ao chamado: “Vem e segue-me!

Como tudo que é humano, a grande comunidade de fé se organiza, e se denomina tal organização de “Igreja” e, ainda que possa abranger muitas comunidades de fé espalhadas pelo mundo, traz em si mesma a imperfeição humana e a tentação do pecado. Em todo tempo e lugar sempre acontecem desvios e muitas vezes o absoluto de Deus é deixado de lado.  Na teologia, isso se chama pecado.

Por ser humana, a Igreja está cercada pelo pecado. Por isso,  a comunidade de fé está sempre se renovando e se reformando, procurando corrigir os desvios e tentando evitar a tentação de ser absoluta por si mesma. Por isso, a Igreja se reúne como comunidade para, acima de tudo, colocar-se diante do Senhor, reconhecer seus pecados, e receber a Graça Libertadora que anima toda a comunidade a permanecer fiel e caminhando com Jesus Cristo neste mundo!

Há muita safadeza no chamado “mercado religioso”. Há muita gente “esperta” que, tal como um vampiro, vive parasitando as pessoas com promessas vazias, falsos testemunhos e muitas vezes acompanhado de uma moralidade hipócrita, excludente e preconceituosa.

Mas há também muitas comunidades de fé que não se deixam levar pelos demônios da exploração e da falcatrua; acolhem com afeto e simpatia todas as pessoas que, tendo ouvido o Chamado, buscam vivenciar essa experiência em uma comunidade de irmãos e irmãs.

São essas pessoas que tornam o testemunho cristão relevante diante das mazelas do mundo. São tais pessoas que, nos momentos mais duros e difíceis da sociedade humana são capazes de empenhar a própria vida visando o bem estar de todos. É porque ainda existem os que atenderam ao Chamado que a solidariedade, embora rara hoje em dia, ainda acontece. 

Isso não é um privilégio das comunidades Cristãs. Afinal, o próprio Jesus informou, aos seus discípulos mais próximos, que Ele tem ovelhas em outros apriscos…  e eu entendo que lá Ele é reconhecido, mas chamado por outro nome…

Rev. Luiz Caetano, ost+

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03 junho 2015

SS. Trindade: Justiça, Misericórdia e Graça!

Síntese do Sermão proferido no Domingo da SS. Trindade

ss_trindade08Conta uma tradição que certa vez estava Santo Agostinho de Hipona refletindo sobre o “Mistério da SS. Trindade”. Ele queria entender a partir da lógica helenista de seu tempo. Agostinho, olhando para a praia enquanto meditava, viu um menino brincando na areia, de forma curiosa: o menino havia cavado um buraco na areia e, com um vasilhame, corria até o mar e trazia água que jogava no buraco, e ficava olhando. Em seguida, ele voltava ao mar, e trazia água e jogava no buraco. E fez isso muitas vezes. Agostinho ficou encafifado com aquilo e resolveu descer até a praia para ver aquilo de perto. Ele precisava espairecer um pouco porque sua cabeça estava doendo de tanto pensar sobre a SS. Trindade e, talvez brincando um pouco com o menino, poderia distrair-se.

Chegando à praia, viu que o menino continuava fazendo a mesma coisa, parecia até um ritual: ia até o mar, enchia o vasilhame com água e jogava no buraco cavado na areia. Agostinho se aproximou e perguntou ao menino: “_ O que você está fazendo, com essa brincadeira de buscar água e jogar dentro do buraco?”. Olhando para Agostinho, o menino disse: “_Estou colocando o mar todinho dentro desse buraco!”

Agostinho riu e fazendo um carinho na cabeça do menino, disse: “_ Meu filho, isso é uma coisa impossível! Você não vê que a areia absorve a água que você joga? essa água volta para o mar… você não vai conseguir colocar o mar todo no buraco que você cavou, nem que faça o buraco crescer dez vezes!” O menino, olhando bem nos olhos de Agostinho disse: “_ Pois saiba que é mais fácil eu colocar o mar todo neste buraco que você explicar a SS. Trindade!”; em seguida, o menino desapareceu.

Agostinho entendeu que um Anjo, enviado por Deus, veio até ele para, simplesmente, ensinar que o Mistério da SS. Trindade é realmente um mistério, trata-se de uma percepção e não de uma racionalização.

A lenda, que aparentemente é uma apelação autoritária sobre a doutrinária, não nos serve para compreendermos o mistério.  A tradição bíblica do Antigo Testamento nos fala do Deus de Justiça!  Já, o Novo testamento nos apresenta o Deus da Misericórdia, e o Deus que derrama a Graça sobre seu povo.

O que significam Justiça, Misericórdia e Graça no contexto bíblico? Sem estender muito o assunto, podemos entender assim: JUSTIÇA é dar a cada um o que merece: o castigo ou a absolvição! MISERICÓRDIA é não dar a cada um a punição que merece! GRAÇA é dar a cada um o que não merece! (1) 

Mistério é algo que, estando oculto, é revelado! ou seja, quem sabe olhar, o vê! Mistério é algo que está ai, na cara da gente, mas só quem sabe olhar pode ver! E esse seria o olhar da fé!

Não explicamos racionalmente a SS. Trindade; nem estamos dando uma interpretação racional, pois, afinal, não queremos colocar todo o mar em um buraco na praia, mas esta é uma proposta de reflexão que pode ajudar você, leitor e leitora, a refletir no significado desse Mistério e o quê esse Mistério aponta para a sua vida e a vida da Comunidade de Fé:

O Deus Justo se revela em Seu Filho como Deus Misericordioso e se manifesta como o Deus da Graça, movendo seu povo a proclamar que um novo mundo é possível, a Boa Nova de Jesus o Cristo! 

A aventura utópica* da fé nos mantem na esperança desse novo mundo: como diz Aquele que está no Trono, conforme o Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5b).

* Utopia (gr.: u topos) = não lugar ainda, pode vir a ser lugar; é diferente de Atopia (gr.: a topos) = nunca lugar! Utopia é um horizonte, Atopia é coisa nenhuma!

(1) Devo esta conceituação ao Prof. Dr. Márcio Redondo, em palestra apresentada  durante um evento preparatório para a Assembleia Geral do CLAI, em 2005, na Faculdade Teológica Sul-Americana, na cidade de Londrina (PR).

Rev. Luiz Caetano, ost+

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03 janeiro 2015

O Santo Nome – o Nome acima de todo nome!

Cristo Sacerdote ícone

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele,  subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2.5-11)

O Calendário Litúrgico da Igreja Episcopal determina para o dia 1º de janeiro, primeiro dia do ano civil, a celebração do Santo Nome de Jesus. Pela proximidade com o Natal, imagina-se que a Festa se enquadra no contexto do Menino de Belém que, tendo sido levado ao Templo para a circuncisão, recebe o nome de Jesus. Entretanto, não se trata disso, uma vez que, nos domingos depois do Natal, a apresentação de Jesus no templo e sua circuncisão têm seu lugar próprio.

A Festa do Santo Nome tem um caráter mais profundo e mais importante que um mero detalhe na vida de Jesus. A Festa se qualifica na Confissão da Fé Cristã, a afirmação do Senhorio de Jesus Cristo, Filho de Deus, Deus-conosco, Redentor e Salvador do Mundo, Rei do Universo!  Ele, o Logos que existia desde antes do Princípio, a Palavra Criadora, que se tornou carne humana em Maria e nessa condição humana, despiu-se de toda dignidade divina para que o ser humano e toda a criação retornasse à presença permanente do Criador! O Deus-conosco para sempre!

Iniciar o ano civil celebrando o Santo Nome significa assim, afirmar que a Igreja, a Comunidade de Fé, segue caminhando em Nome de seu Senhor, na Presença Companheira de seu Senhor através do Espírito Santo, anunciando a Boa Nova, denunciado o Mal e testemunhando a ação redentora de Jesus, o Cristo. Não há outro nome que justifique a ação da Igreja e sua presença no mundo, a não ser o Nome do Senhor! No horizonte do caminhar da Igreja está o Reinado de Deus através de Jesus Cristo, o Deus-conosco, Emanuel.

Infelizmente, o nome de Jesus, hoje, é vulgarizado, vilipendiado pelas práticas nada cristãs de grupos que se identificam como “Igreja”; o nome de Jesus se tornou um fetiche e um talismã, um produto de fácil consumo no mercado religioso, invocado como “palavra mágica” cujo efeito é produzir a “graça” comprada a preço barato dos mercadores de esperança que confiam na desesperança das pessoas para vender a ilusão do “milagre” e da “prosperidade”. O Santo Nome colocado a serviço da charlatanice e da exploração da boa fé das pessoas que andam sem rumo em seu desespero pós-moderno!

Por causa dessas coisas abomináveis, o Santo Nome de Jesus hoje é motivo de chacota e se torna algo  vazio de significado. Se torna uma vacina contra a pregação de forma que pessoas inteligentes não abrem o coração e mente para a Boa Nova! À simples menção do Nome, rejeitam a pregação por identificar o nome com a charlatanice e a exploração da boa fé humana. O Santo Nome, dito como blasfêmia,  transformado em instrumento de Satanás, “pai da Mentira”, de Lúcifer, a luz que cega mas não ilumina o caminho!

É bem verdade que Jesus diz, conforme o Evangelho de João:  “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, Ele vo-la concederá em meu nome. Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” (Jo 16.23b-24)

É preciso cuidado com essas palavras. Jesus diz isso ao seu círculo íntimo de discípulos. Não é uma afirmação genérica, mas uma garantia àquelas pessoas comprometidas com Ele. Jesus se coloca como mediador daqueles que a Ele pertencem! Esse é o contexto dos capítulos 13 a 17 do Evangelho de João: palavras ditas por Jesus na intimidade com os seus discípulos e discípulas – algo restrito à Comunidade Confessante da Fé!

Porque não é apenas “pedir em nome de Jesus”, mas também acolher em Seu Nome: “Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande.” (cf. Lucas 9.48); o servir em Nome do Senhor e a humildade diante da Majestade de Deus.

Assim, a oração feita em nome de Jesus não é uma formalidade ou uma fórmula mágica, mas uma declaração do Senhorio e da Mediação de Jesus Cristo, e da vivência dessa mesma fé nas relações entre as pessoas.

Porque o “pedir” não é superior à vontade de Deus, de Quem, no dizer dos charlatões, devemos “exigir o cumprimento da promessa”. A única oração que Jesus ensinou diz, logo no início “ Pai, … seja feita a Tua Vontade…”, ou seja o pedido é subordinado à vontade e à soberania de Deus. Não é “um direito a ser exigido”, mas Graça concedida pela mediação de Jesus o Cristo! Não é prêmio, mas presente pelos méritos de Cristo.

Assim, o Santo Nome de Jesus não pode ser usado como talismã, ou como produto consumível diante da necessidade. O Evangelho de Mateus coloca na boca de Jesus as seguintes palavras:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.21-23)

Portanto, amigos e amigas, cuidado ao pronunciar o nome de Jesus.  Não é a palavra “Jesus” por si mesma, mas esse é o Nome acima de todo o nome, que ao ser dito é a confissão do Senhorio e a Majestade de Cristo, para a glória de Deus, o Pai (e Mãe).

Quando em sua oração você terminar dizendo “… em o nome de Jesus. Amém!” lembre-se que esse “amém” é – acima de tudo – subordinação à vontade de Deus e abertura para receber a Graça concedida também em nome de Jesus!

Rev. Luiz Caetano, ost+

05 setembro 2014

Renovar a vida

(Leia em tua bíblia: Evangelho de João 11.1-45)

Forte é a morte, que tem o poder para privar-nos do dom da vida.  Forte é o amor, que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor. (Balduíno, Tratado 10 )

ressureição de LázaroNo tempo de sua caminhada conosco, Jesus manifestou, muitas vezes, por ações e palavras, a grande esperança da vida que ele vinha oferecer a todas as pessoas. Ele aparece nos Evangelhos como a única luz capaz de esclarecer as nossas dúvidas em torno da morte. Algo que é uma certeza de cada um de nós.

A ressurreição de Lázaro é o sinal mais concreto para afirmar que Ele veio para que tenhamos vida, mas vida em plenitude. Nesta passagem, encontramos Jesus indo ao encontro do amigo morto, para exatamente dizer que a morte não é um fim em sim mesma, mas que pode ser vencida pelo gesto de esperança e amor Nele. É isso que Ele faz com Maria e Marta. Tristes com a morte do irmão e com medo do futuro. Por isso Cristo vai consola-las, mais dizer: “Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais”!

Através de Sua vida, morte e ressurreição, Ele revela-nos que não somos feitos para “morrer eternamente” e sim “viver eternamente” ou “viver em plenitude”; e não podemos ficar indiferentes diante dos atentados contra a vida, seja qual for, tão frequentes em nossos dias. Entendendo isso, o teólogo Harvey Cox – no seu livro “A Festa dos Foliões”, mostra como a explosão de vida e alegria se relaciona com a fé, a esperança e o amor...

Em certo sentido, nossas indignações contra morte são justas: manifestam-se nas profundezas de nosso ser, de onde brota a convicção de que a vida é algo muito precioso que não pode ser destruída sob qualquer pretexto.

Nossa esperança cristã não deve e não pode ser a de quem aguarda como simples espectador, que espera de braços cruzados algo acontecer, mas de mangas arregaçadas, para agir em Cristo na reconstrução de uma vida de esperança, mais digna e justa para todos.

Por isso o compositor Gonzaguinha numa inspiração, que só pode ser cristã, fala em sua canção:

Viver e não ter a vergonha de ser feliz, /Cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. / Eu sei que a vida podia ser melhor – e será! / Mais isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita, é bonita!

Rev. Daniel Rangel, ost+

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02 agosto 2014

Pastoral ou Poder?

jesus e os fariseus e saduceus
      Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos: Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.  Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.  Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o maior dentre vós será vosso servo. Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado. (Mateus 23 1-12)
Este capítulo do Evangelho segundo Mateus se encontra inúmeras vezes a frase: “Ai de vós, Escribas e Fariseus”; a frase é bem forte, um tom de condenação. Esta expressão vem dos livros dos proféticos e sempre tem um teor condenatório para quem o recebe, uma critica sobre a atitude de quem o recebe.
Jesus ataca os religiosos da sua época (sacerdote e escribas) por causa do clericalismo exagerado que havia em seu tempo. Qualquer ato religioso deveria passar pelo sacerdote e/ou os fariseus (os únicos interpretes da lei). Além disso, obrigavam pesadas penitências às pessoas para expurgar os pecados. Os escribas e os fariseus conseguiam assim hegemonia e controle sobre o sagrado e controlando, por isso mesmo, a vida do povo no campo social, religioso e político.
Como o ser humano consegue corromper as coisas boas quando se encantam pelo poder! Jesus, em Mateus, esta criticando a tendência dos religiosos em deter o monopólio da vida e do sagrado do povo da época, criando um clericalismo exagerado, como “deuses” na terra.
Infelizmente vemos religiosos manipulado o povo com o sagrado e a santidade. Usando de sua posição para manipular e vilipendiar pessoas que buscam simplesmente serem bons crentes e seguidores da fé. Por isso me lembrei desta frase: “O homem verdadeiramente santo é aquele que não se preocupa com a santidade, assim como o homem que se deixa dominar pelo amor não se importa mais com conceitos e classificações” que dizia o teólogo e educador Rubem Alves (1933-2014). Com isso, ser bom ou santo é algo que deve ser incorporado naturalmente no nosso dia a dia. E não uma qualidade a ser usada e explorada pelo homem.
Sabemos que em nossa Igreja, como na maioria das denominações cristãs, existe o clero (bispo, presbíteros e diáconos); os quais precisam, a todo o momento, lembrar que – como Igreja e como clero – não têm a última palavra, pois nós, anglicanos, herdamos, pela Reforma, o conceito de sacerdócio universal dos fiéis, de que fala a Epistola aos Hebreus. 
Todavia, às vezes, por causa das tentações que a posição lhes dá, membros do clero buscam apenas desfrutar das regalias do ministério, e desviam seu ministério (serviço) pastoral buscando controlar a vida das pessoas ao seu bel prazer, usando-as e explorando-as emocionalmente.
Jesus nos alerta, ainda hoje, que o crente (o povo) tem a possibilidade de tomar decisões sobre a sua vida, e que nós, do clero, somos simples orientadores espirituais. Cabe a nós,  clérigos, realizar nossa atividade pastoral (visitas e aconselhamento) com espírito de humildade e simplicidade para não cairmos na tentação do monopólio da vida dos fies.
Rev. Daniel Rangel, ost+
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24 dezembro 2013

Onde está o Menino?

Ache o bebe“Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer. E foram apressadamente e acharam Maria e José, e a criança deitada na manjedoura.” (os pastores, cf. Lucas 2.15b-16)

“Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adora-lo.” (os Magos, em Jerusalém, cf. Mateus 2.2)

“...então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer.” (atitude de Herodes, cf. Mateus 2.4)

“...Herodes, tendo chamado secretamente os Magos, inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera. E enviando-os a Belém, disse-lhes: ‘Ide informar-vos cuidadosamente a respeito; do menino; e quando o tiverdes encontrado, avisai-me para eu também ir adora-lo.” (Herodes, aos Magos, cf. Mateus 2.7-8)

“Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram...” (os Magos, em Belém, cf. Mateus 2.11)

“Sendo por divina advertência prevenidos em sonho para não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra” (os Magos, cf. Mateus 2.12)

Onde está o Menino?

Cada um, por sua própria motivação, faz essa pergunta, e recebe a resposta que merece:

    • a) Os pastores, gente simples, excluída e que vivia fora da cidade, não perguntaram; a eles foi revelado gratuitamente pelos anjos; a eles foi anunciada a chegada do Salvador!
    • b) Os Magos do Oriente, que provavelmente seriam exorcizados na maioria das mega-igrejas pós-modernas, não eram judeus, não eram do povo eleito, a eles foi reveladosegundo a sua própria maneira de conhecer o Sagrado – a chegada do Rei. E eles partiram para vê-lo e adora-lo e indagaram... os mesmos Magos que recebem do Divino a advertência de não mais procurarem Herodes e regressarem por outro caminho: vieram de um jeito, retornaram de outro, desta vez guiados não mais pela estrela, mas pelo Divino!
    • c) Herodes, o rei, o poderoso, judeu mestiço, parte do povo eleito, mas lacaio do Império Romano que a tudo e todos dominava, em seu coração temeu perder o poder e as regalias, para ele a resposta não foi dada, e em seu desespero, tornou-se assassino pelo medo de perder o poder.

Neste início do século XXI, já desde o final do século XX, celebramos o Natal em meio ao consumismo, ao Papai Noel, aos banquetes e às vazias mensagens de paz e boa-vontade (no dia 26 os bancos e a agiotagem geral, impiedosamente, estarão liquidando vidas – como Herodes - em nome de dívidas e amparados pela lei – talvez até mesmo de alguns que receberam sua mensagem natalina); mas a pergunta ainda está presente: Onde está o Menino?

Talvez o Menino esteja entre os moradores de rua, que no dia 26 estarão buscando no lixo, as sobras dos banquetes do desperdício, recolhendo caixas de papelão dos brinquedos e TV’s digitais, para vender a fim de poder comprar pão e um pouco de dignidade...

Talvez o Menino esteja em algum assentamento de pobres migrantes no terceiro mundo – como aliás, estava em Belém....

Talvez o Menino esteja em algum lar muçulmano na Palestina, sem esperança futura de uma cidadania com dignidade, pois isso lhes é negada por um Estado de opressão...

Talvez o Menino esteja em algum cidade iraquiana ou afegã, entre as ruínas do assassinato... que motiva mais assassinatos... talvez o Menino acabe se tornando um terrorista, porque de Salvação só lhe restará a vingança...

Talvez o Menino esteja em algum acampamento de assolados pela seca, pela fome e pela opressão em algum canto da África, sem futuro, sem esperança, sem nada…

Talvez o Menino esteja na pequena e pobre comunidade cristã em alguma periferia ou favela controlada pelo tráfico de drogas, esquecida dos serviços públicos e à mercê da boa-vontade dos traficantes e dos milicianos…

Talvez hoje o Menino seja também uma Menina, qualquer criança ameaçada de viver, no futuro, em um mundo onde a água será privilégio e a natureza estará, em sua loucura, vingando tudo aquilo que a humanidade destruiu em nome da riqueza e do progresso.

Mas com certeza – e assim nos mostram Lucas e Mateus – o Menino não está nos grandes palácios dos poderosos (fosse em Roma, ou Jerusalém naquele tempo, seja em Washington, Bruxelas, Moscou, Brasília e tantos lugares onde o poder se instala em palácios cercados de barracos...).

Com certeza não estará entre os donos da verdade que, em sua arrogância, negam a diversidade e demonizam todos que diferem ou discordam deles...

Com certeza não estará nos mega-templos dos shows mirabolantes e da venda do sagrado...

Com certeza não estará como membro de qualquer instituição religiosa que segue a própria lógica da manutenção de seu “status quo”...

O Menino quer estar no teu coração... mas para isso é preciso que faças a pergunta certa, com o motivo certo, e não tenhas medo se a resposta não for aquela que imaginas.

O Menino nasce no estábulo, na periferia, é revelado entre pastores que vivem fora da cidade e é visto pelos Magos, que vieram de longe seguindo uma estrela. Não seja um Herodes!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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12 novembro 2013

Seguir a Cristo hoje!

Jesus com discípulos 3Lemos na 2ª Carta de Paulo a Timóteo:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. […] São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante; porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles. Tu, porém, tens seguido, de perto, o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (II Timóteo 3.1-17 – Almeida, R.A.)

No tempo de Timóteo, como no nosso tempo, seguir Jesus Cristo traz problemas: o autor da epístola diz claramente: Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”. Complicado isso, não é? Afinal, religião devia trazer paz e bem estar pra gente! A gente vai à Igreja em busca disso, não é?

De fato, quem pretende consumir religião, pensa assim mesmo! Quer viver em paz, ter certeza de que Deus o abençoa, resolver sua vida, enfim, se dar bem!

Porém, o real seguimento a Jesus Cristo implica, muitas vezes em estar na contramão, em seguir caminhando com Fé, geradora da Esperança!

Não se trata de eliminar o prazer, a alegria, o bem viver… mas de tomar atitudes que contrariam a lógica do consumismo, do egocentrismo e da satisfação momentânea de todos os desejos. Significa sair da mediocridade imediatista, da superficialidade do moralismo, da vazia auto-satisfação que gera cada vez mais a necessidade de autoestima, numa busca sem fim do sentido da vida!

O texto acima de II Timóteo parece ter sido escrito para uma pessoa cristã de nosso tempo, não do primeiro século cristão!

De fato, seguir a Jesus Cristo é um caminho estreito e, muitas vezes, complicado, porque  nos faz parecer estranhos para os outros, e pode trazer perseguição – há muitas formas de perseguição hoje em dia… Afinal, uma pessoa cristã, que busca seguir Jesus Cristo, norteia sua vida e suas atitudes por outros valores! Olha o mundo de forma crítica e busca criar relações de solidariedade e comunhão…

Leia novamente o texto acima de II Timóteo. E reflita sobre sua vida e sobre os caminhos que você vem seguindo…

E decida: queres ouvir a Jesus Cristo e seguir com Ele? ou prefere a mesmice do cotidiano ansioso em busca de um sentido concreto para a sua vida?

Rev. Luiz Caetano, ost+

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05 setembro 2013

A Beatíssima Virgem Maria

Teotokos 1A Virgem Maria, Mãe de Jesus, é uma criatura privilegiada. Deus queria fazer-se homem e escolheu uma menina para isso, ser Sua Mãe, cumulando-a de todas as virtudes, a fim de preparar Sua morada em seu seio virginal.

O privilégio fundamental, que está no centro de todos os outros e dá a razão deles, é a maternidade divina. Maria Santíssima é verdadeiramente Mãe de Deus, porque gerou e deu à luz Cristo Jesus, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Quando Nestório negou a Maternidade Divina de Maria, o Concílio de Éfeso proclamou este ensinamento: "Se alguém não confessa que o Emanuel é verdadeiro Deus e por isso a Santíssima Virgem é Mãe de Deus, posto que gerou carnalmente o Verbo de Deus feito carne, seja anátema". (Anatem, de S. Cirilo, 1, em Dz.113). Jesus é seu Filho.

Embora esse privilégio se refira a ela, há de se entender, ao mesmo tempo, que Deus a santificou com tal abundância de graças que, como anglicanos devemos, sim, respeitar, admirar. Ela é a primeira de todos os Santos, porque a medida da sua santidade é o privilégio maior que Deus concedeu a uma criatura: ser Sua Mãe: "Todas as gerações me chamarão bem aventurada" (Lc 1.48)

A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a Bem-Aventurada Virgem é venerada sob o título de "Mãe de Deus" (Theothokos). Este culto encontra a sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como nas celebrações nos ofícios diários e celebrações dominicais, pois a Virgem é legitimamente honrada com datas próprias no calendário litúrgico da nossa Igreja; várias igrejas e catedrais de nossa tradição, pelo mundo, são dedicadas à Virgem Maria e levam seu nome.

Para saber mais sobre a Virgem Maria na nossa tradição, veja o artigo do Rev. Luiz Caetano:(https://docs.google.com/file/d/0B25fLSpH7iZsY05ubm1XSEFBcU0/edit?usp=sharing).

Rev. Daniel, ost+

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20 agosto 2013

Os muitos rebanhos do Bom Pastor

JesusCristo Pastor

Jesus se identifica como Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas, aquele que é reconhecido por elas:

“Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. [...] Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim,  assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.   Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor.”  (Evangelho de João 10.1-5;11-16 – Almeida, R.A.)

O Bom Pastor tem rebanhos em todo o mundo. Os rebanhos não são todos iguais, porque as ovelhas também não são todas iguais. A diversidade da Igreja de Cristo é uma bênção para que se cumpra o pedido do Senhor, que todas as pessoas possam ter acesso ao Evangelho de Cristo e à Vida em Plenitude que Ele concede.

Essa Vida em Plenitude é dada por Cristo, não por uma denominação religiosa. As diferentes igrejas (instituições e denominações religiosas) são parte da IGREJA DE JESUS CRISTO (que é simplesmente a Comunidade Universal de Comunhão, Serviço e Testemunho à Luz do Evangelho).

Se você se sente uma ovelha fora do rebanho, como que perdida ou desgarrada, dê uma chance ao Bom Pastor, que está à sua procura!

Talvez possamos ser o redil que você está buscando!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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22 março 2013

Oração Consciente e Coerente

Jesus_orando- de dia Jesus fazia da oração o recurso para aquietar sua humanidade a fim de ouvir e falar com o Pai. Assim, contam os Evangelhos, ele recebeu orientação para, por exemplo, escolher seus discípulos, e também receber o conforto no Horto antes de ser preso. Na oração, o homem Jesus experimenta profunda comunhão com Seu Pai.

Certa vez um dos discípulos pediu a Jesus que os ensinasse a orar, e Jesus ensinou a oração que conhecemos como Oração Dominical ou Pai-Nosso, a oração que recitamos em comunidade e também individualmente.

Todavia a oração não se resume em uma fórmula definida que se repete, nem em ritos. A oração é mais que isso, é um estado consciente em que o coração humano pode entrar em comunhão com Deus mediante o Cristo, pois toda oração cristã é feita em nome do Senhor Jesus Cristo; ou seja, Jesus ora conosco quando oramos, e assim entramos na intimidade de Deus – o Pai – em  comunhão com Seu Filho. A oração nos dá acesso Àquele que nos criou e que nos conhece profundamente e, em amor misericordioso, supre nossas necessidades. 

Refletindo a partir da oração que Jesus nos ensinou, podemos tirar algumas lições sobre a oração cristã, orientando-nos para nosso momento pessoal de oração e também quando oramos com outras pessoas cristãs. Vamos fazer uma breve reflexão com base no texto que se encontra em nosso Livro de Oração Comum (LOC), ou seja, a fórmula que utilizamos em nossa oração comunitária.

“Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome; venha o teu Reino; seja feita a Tua Vontade assim na terra como no céu”.

A oração é sempre dirigida ao Pai, é com o Pai que entramos em comunhão quando oramos. Assim, toda oração é louvor e reconhecimento do Nome Santo de Deus e de Sua Glória. A oração é também testemunho de submissão e confiança à vontade soberana de Deus, e manifestação de adesão ao Seu Reino como horizonte de nossa vida.

Talvez algumas pessoas considerem desrespeitosa a forma de tratamento para com Deus (segunda pessoal do singular), diante da majestade de Deus. Todavia, mesmo sendo Soberano, Ele deseja uma intimidade conosco, intimidade de companheiro, intimidade de quem se sabe Senhor mas, acima de tudo, se apresenta como Pai Amoroso. Não se trata de irreverência, mas de reconhecimento de intimidade que o próprio Deus concede. Assim, a ousadia de chamar Deus de Tu é, na verdade, reconhecimento de Sua Majestade Misericordiosa.

“O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje”.

A oração inclui o reconhecimento de nossas necessidades colocando-as diante do Pai Amoroso em plena confiança que Ele nos supre. Importante notar que a petição é  para hoje, não para amanhã ou para os próximos anos! Não há necessidade de cronogramas em nossa relação com Deus, pois Deus não tem relógio, nem calendário; o tempo de Deus é sempre o hoje, porque para Deus não há passado, nem presente, nem futuro. A confiança em Deus deve ser tal que nos liberta da ansiedade pelo futuro, e nos permite gozar as dádivas de Deus em cada momento de nossa vida. Jesus afirmou que devemos buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e tudo que necessitarmos nos será acrescentado (cf. Mateus 6.25-34).

“Perdoa as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos os nossos devedores”.

Não se trata apenas de reconhecimento e confissão de pecados! Naturalmente, cada vez que oramos, devemos reconhecer diante de Deus nosso pecado, nossa incapacidade de viver de forma absolutamente solidária e em obediência à Vontade Soberana de Deus. Mas é principalmente reconhecer que somos devedores de Deus, pois Ele nos ama incondicionalmente, atua em nossa vida com misericórdia e nos concede a Graça (de graça) porque o próprio Jesus, Seu Filho, já expiou para sempre os nossos pecados. Assim, invocar o perdão de Deus estamos afirmando também nossa disposição de sermos misericordiosos uns com os outros. O “assim como”  da oração não é uma condição, mas uma disposição solidária de sermos misericordiosos, uma abertura à graça de Deus que nos torna misericordiosos. Novamente o texto de Mateus 6.25-34 nos lembra: buscar o Reino de Deus e sua justiça, a justiça de Deus é misericórdia.

“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal”

Como seres históricos, vivemos cercados pela tentação. A tentação da auto-suficiência e de ocuparmos o lugar de Deus. Ao pedirmos livramento da tentação, estamos sendo coerentes com nosso desejo de submissão ao amor e à vontade de Deus, confiando plenamente em Deus.  Evitar ou não ceder à tentação é exercício de subordinar nossa vontade e nosso desejo à bondade de Deus. Deus não nos permite uma tentação maior que a Graça que nos concede para vencê-la!

Como não temos poder absoluto sobre nossas vidas, estamos à mercê do Mal. O Mal nos atinge sempre de forma imprevista e, por mais que cuidemos e ajamos com prevenção, não podemos evitá-lo de forma absoluta. Assim, precisamos contar om o livramento que vem de Deus. 

“Pois Teu é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”.

Terminamos a oração louvando e afirmando o senhorio de Deus, uma forma de manifestar a gratidão pelo Seu Amor.

Uma coisa sempre me chamou a atenção no “Pai Nosso”: é uma oração feita no plural. Quando oramos sozinhos não dizemos “Pai Meu”, nem pedimos “o meu pão de cada dia”, ou “me livre do Mal”! Sempre a recitamos no plural,ou seja, quando estou orando não estou orando apenas por mim, mas estou incluindo outras pessoas! A oração por si mesma é inclusiva e intercessora! Ao orar o Pai Nosso, estou me colocando como parte de Seu Povo, de Sua Igreja, e incluindo todos os irmãos e irmãs nessa oração. Não basta buscar o Reino de Deus, mas também a sua justiça! A justiça do Reino é inclusiva!

Nossa oração pessoal deve ser sempre consciente e coerente; para isso deve ser inspirada no “Pai Nosso”, a oração por excelência, legada a nós pelos discípulos de Jesus que a aprenderam com ele. Não há lugar para petições egoístas, nem há lugar para determinar o que Deus deve fazer. A oração consciente e coerente sempre vai afirmar nossa gratidão pelo Amor de Deus que fala mais alto que nossos desejos e sonhos, é inclusiva e intercessora, e dá testemunho de nossa dependência da vontade soberana de Deus!

Rev. Luiz Caetano, ost + , em Recife.

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04 março 2013

Uma nova chance!

figueira_esteril
O Evangelho de Lucas é conhecido como o Evangelho das Parábolas. De fato, escrevendo para cristãos helenistas, não necessariamente de origem judaica, Lucas transmite o Evangelho através das pequenas estórias que Jesus contava para ilustrar o ensino sobre do Reinado de Deus e a Boa Nova que estava anunciando. Essas pequenas estórias são chamadas de parábolas. Vamos conversar sobre uma delas, a Parábola da Figueira Estéril:
“Então, Jesus proferiu a seguinte parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e, vindo procurar fruto nela, não achou. Pelo que disse ao viticultor: Há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não acho; podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra? Ele, porém, respondeu: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu escave ao redor dela e lhe ponha estrume. Se vier a dar fruto, bem está; se não, mandarás cortá-la.”  (Lucas 13.6-9; Almeida, R.A.)
Chama atenção que se trata de uma vinha, plantação de uvas, onde havia uma figueira. Porque uma figueira entre as parreiras? talvez estivesse de lado, e sua função seria oferecer os figos! Talvez  por causa dos figos, o dono da vinha concordou em deixar ali a figueira. O fato é que estava ali a figueira, provavelmente há muitos anos, pois sabemos que figueiras vivem por mais de século. Porém, há três anos não oferecia seus frutos. Estava estéril, talvez já bem idosa.

08 fevereiro 2013

Sobre milagres: não basta ler, é preciso compreender!

Os 4 Evangelhos 2Muita gente lê os Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) como se fossem um registro histórico sobre Jesus, isto é, uma “biografia” de Jesus. Se realmente os Evangelhos fossem uma biografia ou um simples relato histórico sobre Jesus, a Igreja Primitiva, quando estes textos foram escritos, os chamaria de Crônicas e não de Evangelhos. Desde cedo os textos que relatam situações da vida de Jesus foram escritos não visando um registro factual, mas para anunciar uma boa notícia, dai serem chamados Evangelhos, palavra grega que significa Boa Notícia, Boas Novas… Ler os Evangelhos com a preocupação de quem lê uma biografia é perder a perspectiva dos autores, é não perceber as boas novas anunciadas.

E mais, a pessoa fica confusa porque os textos não são coerentes entre si, embora Mateus, Marcos e Lucas sejam bem semelhantes, pois foram escritos praticamente no mesmo contexto histórico e geográfico e na mesma época, 30 a 40 anos após o surgimento das comunidades cristãs (evento de Pentecostes). Porém o Evangelho de João surge após o ano 90, em um contexto muito específico e destinado a uma população bem específica: as comunidades judaico-cristãs dispersas em uma região da Ásia que hoje conhecemos como Turquia, as chamadas comunidades joaninas, que viviam a experiência da perseguição pelo Império Romano e pelas sinagogas judaicas, pois em 90 d.C. o Concílio Rabínico reunido em Jamria (Palestina) decidiu que os cristãos eram anátema e os cristãos não poderiam mais participarem da sinagoga.

As narrativas dos milagres de cura que Jesus realizou , por exemplo, querem dizer muito mais do que um simples fato miraculoso. Hoje em dia, as filosofias de prosperidade e auto-ajuda reduzem as narrativas das curas a um simples ato de magia e curandeirismo; porém Jesus não era um curandeiro, (haviam muitos em seu tempo, e prestavam um serviço relevante às populações pobres – como ainda hoje), nem era um mago; Jesus era chamado de Mestre, era conhecido como um rabino, alguém que explica e interpreta a Lei e os Profetas, bases da fé judaica.

Essa forma barata de compreender os milagres reduzem a Fé em Jesus Cristo a uma simples relação de troca com Deus! e um Deus injusto e cruel, porque não faz milagres para todo mundo! As pessoas, iludidas por uma interpretação simplória e geralmente forçada do texto bíblico, vivem no desespero da busca pelo milagre, fazendo mil sacrifícios e práticas insensatas de religiosidade para “merecer a atenção de Deus”; e se o “milagre” não acontece, sentem culpa porque “não tiveram fé suficiente” ou não ofereceram aquilo que Deus desejava delas (geralmente dízimos, trízimos, promessas, etc.). Assim, a narrativa de um “milagre” de Jesus não traz nenhuma Boa Notícia, apenas falsas esperanças… como quando a gente lê a notícia de que alguém ganhou sozinho a Mega-Sena.

Se a intenção da Igreja Primitiva fosse apenas dizer que Jesus fazia milagres, não precisava narrar os fatos com certos detalhes, bastaria uma lista de curas e milagres, sem dar muita explicação sobre como e onde aconteceram. Exatamente por serem narrativas que querem dizer mais que as palavras escritas – apresentar uma Boa Nova! – é que esses textos devem ser lidos e apreendidos com mais profundidade, conhecendo-se seu contexto, pessoas envolvidas, lugares… tudo isso traz uma mensagem que os cristãos àquela época entendiam muito bem e percebiam realmente a Presença de Deus agindo no Mundo – e não apenas na vida de algumas poucas pessoas merecedoras desse carinho divino; todos podiam perceber e experimentar essa ação carinhosa e poderosa de Deus no mundo e em suas vidas, sem esperar por coisas absolutamente mágicas!

Milagres realmente acontecem! mas não acontecem por si mesmos, nem por exibicionismo de Deus! milagres são sinais e significam muito mais do que o fato em si mesmo. É preciso ver além do fato, é preciso compreender a ação de Deus, permitir que Deus Se revele hoje, como Se revelou aos nossos ancestrais na fé.

Por isso, é muito importante que a comunidade da Igreja se reúna, sempre sob a inspiração do Espírito Santo, também para o Estudo da Palavra de Deus, da Bíblia, além da vivência sacramental comunitária e das reuniões de louvor e de oração. É muito importante a leitura pessoal e devocional da Escritura Sagrada, mas também é importante que a comunidade estude e compreenda em profundidade o texto bíblico, para realmente compreender o que Deus está fazendo e nos dizendo hoje!

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Em nossa comunidade paroquial buscamos estudar a Palavra de Deus através dos Sermões de nossos pastores, nos ofícios comunitários. Mas precisamos de mais! Por isso, em breve estaremos divulgando encontros para estudos da Palavra de Deus, além dos nossos ofícios litúrgicos.

Aguarde!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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19 janeiro 2013

Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana (2)

seja igrejaEm artigo anterior com este mesmo título  (veja Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana), expliquei um pouco sobre como a tradição Episcopal Anglicana entende o conceito de Igreja e o que caracteriza nossa identidade, diferenciando-nos de outras tradições cristãs, não menos importantes e reconhecidas. Afirmamos que nossa identidade como parte da Igreja de Cristo se expressa como unidade na diversidade. Isso tem um significado muito importante e fundamental para que se compreenda o ser (ethos) de nossa Igreja.

Unidade na diversidade significa que não somos uma Igreja Confessional! Explicando: a maioria das Igrejas Cristãs são Confessionais, isto é, adotam uma Confissão de Fé comum que as identifica e define sua forma de ser. Tais Igrejas têm um Corpo Doutrinário, algo como um Catecismo, bem definido, que é aceito por todas as pessoas que congregam nessas Igrejas. A maioria das Igrejas Protestantes Históricas, herdeiras da Reforma do século XVI são Igrejas Confessionais. Quando se constituíram cada uma dessas Igrejas adotou uma Confissão de Fé, uma Declaração de Fé que lhe dá unidade e identidade.  Essas Confissões foram definidas em Concílios e Sínodos, e são frutos de consenso que determina o modo de ser da Igreja, o seu “ethos”. Desde a Reforma no século XVI, várias Confissões foram definidas e adotadas por grupos cristãos, e delas derivam muitas das Igrejas Protestantes: a Confissão de Augsburg (1530), a Confissão de Westminster (1634), por exemplo, são as duas mais conhecidas.

Por outro lado, a Igreja Católica Romana também tem seu corpo doutrinário, estabelecido de forma canônica e entendida como Magistério da Igreja, fiel interprete das Escrituras, que se expressa pelos Documentos Papais e da Cúria Vaticana, havendo um Catecismo Oficial para toda a Igreja.

As Igrejas Orientais seguem caminhos diferentes, não foram influenciadas pelas correntes filosóficas que marcaram o Ocidente, mas podemos ver uma certa organização doutrinária na maioria delas; todavia as Igrejas Orientais têm outras características, são profundamente enraizadas nas culturas dos povos onde se estabeleceram e são diferencias por tradições litúrgicas e doutrinárias. De certa forma são Igrejas de Comunhão.

A Igreja da Inglaterra, que é a Igreja de origem da Comunhão Anglicana, teve uma definição confessional a princípio, conhecida como os “39 Artigos de Religião”, que delineiam, digamos assim, sua base doutrinária, tendo adotado a tradição católica do ocidente e do oriente, princípios da Reforma, e incorporou boa parte da tradição da antiga Igreja Celta, que foi quase eliminada com a chegada dos missionários enviados por Roma nos séculos V e VI, finalmente dobrando-se à latinização no século VII (Concilio de Whitby, em 664).

Essa mesma Igreja da Inglaterra acompanhou a expansão do Império Britânico e instalou-se nas colônias e territórios imperiais. Todavia, a Igreja da Inglaterra não se transplantou para as colônias. Fiel ao seu princípio de catolicismo marcado pela Reforma, e o conceito de Igreja Nacional (Igreja de um povo), a Igreja foi se encarnando nas culturas das colônias e assim foram surgindo, a partir dos missionários ingleses, os embriões de Igrejas Nacionais inspiradas no modelo da Igreja da Inglaterra.  Os 39 Artigos foram sendo reinterpretados e na maioria das Igrejas derivadas da Igreja da Inglaterra, foram caindo em desuso, uma vez que a reflexão teológica começa a dialogar com as culturas. Nesse sentido o cristianismo da América Latina seguiu caminho completamente oposto…

A formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, por exemplo, não foi apenas uma mudança de nome da Igreja Colonial, mas a união e incorporação de várias correntes cristãs que estavam presente no território norte-americano, que se uniram para formar uma Igreja Nacional que adotou o modelo episcopal de governo e acolheu diferentes tradições e confissões dentro de si mesma – unidade na diversidade! É essa Igreja dos Estados Unidos que vem fazer missão no Brasil ao final do século XIX e dá origem à hoje Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que também é fruto da Missão entre os Japoneses (imigrantes, a partir da Igreja do Japão, especialmente nos Estados de São Paulo e Paraná) e das Capelanias Britânicas nos principais portos brasileiros.

Em meados do século XIX a Igreja da Inglaterra, começa a tomar consciência que seu ethos e sua atividade missionária – aliada ou não ao imperialismo britânico – criou uma rede de Igrejas Nacionais com semelhanças entre si, embora diferenciadas pelas culturas: haviam adotado o governo episcopal (e seus bispos estavam na linha sucessória de bispos ingleses), adotavam uma Liturgia fundamentada no livro de Oração Comum e cooperavam entre si. Por seu lado, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos já fazia missão em vários países da América Latina e da Ásia, mantendo o mesmo princípio de encarnação cultural. Assim surgiu lentamente o conceito de Comunhão Anglicana.  A base doutrinária dessa Comunhão é mínima, e conhecida como Quadrilátero de Lambeth-Chicago (1886/1888):

a) As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento como base da Fé confessada pela Igreja, pois contêm tudo que é necessário para a Salvação;

b) A confessionalidade da Comunhão se expressa nos Credos da Igreja Antiga: o Credo Apostólico, o Credo Niceno-Constantinopolitano e também o Credo Atanasiano (quase nunca usado no Brasil);

c) A Comunhão adota os dois sacramentos biblicamente instituídos, a saber, o Batismo e a Eucaristia – os demais são reconhecidos de forma diferenciada nas Igrejas ou mesmo em uma mesma Igreja;

d) O Episcopado Histórico como forma de governo, como garantia da sucessão apostólica e sinal da unidade da Igreja.

Formulada em tal simplicidade, essa base doutrinária permite uma diversidade de interpretações e formas de vivenciar a fé cristã. Não somos uma Igreja monolítica do ponto de vista doutrinário, mas aberta à reflexão permanente e, por isso, muitas vezes os episcopalianos são vistos como vanguarda teológica ou demasiadamente liberais…

Pode-se resumir isso de forma simplista assim: nenhuma devoção, uso ou costume, norma moral (ética sim: fundamenta-se nas Escrituras), padrão litúrgico, modelo de espiritualidade, é obrigatório ou imposto, respeitando-se a prática devocional individual. Por exemplo se você gosta de uma espiritualidade mariana, inspirada na Beatíssima Virgem Maria, viva isso, mas não obrigue os outros a ter a mesma prática.

Por isso, caro leitor, se você visitar várias igrejas de nossa Comunhão, em várias partes do mundo, verá que não há uma uniformidade, mas uma grande diversidade. Essa diversidade ocorre inclusive dentro de uma mesma diocese. Algumas comunidades terão a aparência de uma Igreja Romana anterior ao Vaticano II, ou uma Igreja Oriental: você verá imagens, quadros, muitas velas acesas, a liturgia é realizada com sofisticado cerimonial e o clero paramentado de forma solene; outras comunidades parecerão uma Igreja Evangélica: um discreto altar, sem velas, a decoração do templo no máximo admite um cruz, o cerimonial é bem simples (embora usa-se o mesmo Livro de Oração Comum), há uma ênfase maior na pregação e na piedade pessoal; você ainda encontrará comunidades onde a liturgia é dançada (na África especialmente), os cânticos são modernos e em ritmo popular; outras ainda misturam tudo isso em sua prática comunitária… enfim, ouso dizer que não há duas comunidades anglicanas idênticas em todo o mundo! Todavia, estão em comunhão no Senhorio de Jesus Cristo,  em unidade na diversidade, sendo o símbolo dessa unidade o Quadrilátero de Lambeth Chicago. 

Pode ser atrevimento de minha parte, uma certa euforia, mas eu sinto que somos muito parecidos com a Igreja Primitiva, antes da cristandade ser estabelecida quando o cristianismo se torna religião oficial e estatal do Império Romano do Ocidente  no século IV.

Ser uma Igreja de Comunhão não é simples: não somos unidos porque aceitamos essa ou aquela doutrina, esse ou aquele princípio de usos e costumes, porque rezamos de uma forma ou de outra… somos unidos porque reconhecemos que fazemos parte de uma mesma comunidade de fé, diversa em sua forma de ser, mas centrada em Jesus Cristo, nosso Senhor.

Assim, ninguém se torna verdadeiramente anglicano ou episcopaliano porque adotou uma forma específica de confessar a fé; tornar-se episcopaliano é um exercício contínuo e um desafio, porque você terá de conviver com os diferentes em Comunhão, e terá de aprender a reconhecer a sua Igreja nas suas diversas maneiras de ser, conforme a prática e a história de cada comunidade. 

No 1º Centenário da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (1989) adotou-se o lema “Igreja a gente vive!”; isso se opõe ao “Igreja a gente segue!”, e também ao “Igreja do Pastor Fulano!”.

Meu irmão de Ordem, companheiro de ministério e um dos meus confessores, Rev. Onofre Machado Ramos ost+, falecido ano passado, dizia: “Igreja a gente vive com paixão!”. Isso é ser parte de uma Igreja de Comunhão: uma relação sempre de desafio na aceitação do outro, em nome de Jesus Cristo, e de companheirismo solidário.

Rev. Luiz Caetano, ost+

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