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05 fevereiro 2016

Reflexão para a Quaresma: A Verdade que Liberta!

  [As citações bíblicas neste artigo são da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH -SBB)]
           Romanos 14 apresenta, no meu entender, algo contundente: o Senhor não toma nenhuma posição sobre as nossas querelas doutrinárias, religiosas, de costumes e de moral. De certa forma o Apóstolo São Paulo apresenta um critério ético para que possamos conviver com as nossas diferenças.
 “Aceitem entre vocês quem é fraco na fé sem criticar as opiniões dessa pessoa.  Por exemplo, algumas pessoas creem que podem comer de tudo, mas quem é fraco na fé come somente verduras e legumes.  Quem come de tudo não deve desprezar quem não faz isso, e quem só come verduras e legumes não deve condenar quem come de tudo, pois Deus o aceitou.
 Quem é você para julgar o escravo de alguém? Se ele vai vencer ou fracassar, isso é da conta do dono dele. E ele vai vencer porque o Senhor pode fazê-lo vencer.
 Algumas pessoas pensam que certos dias são mais importantes do que outros, enquanto que outras pessoas pensam que todos os dias são iguais. Cada um deve estar bem firme nas suas opiniões.  Quem dá mais valor a certo dia faz isso para honrar o Senhor. E também quem come de tudo faz isso para honrar o Senhor, pois agradece a Deus o alimento. E quem evita comer certas coisas faz isso para honrar o Senhor e dá graças a Deus.”   (Rom 14. 1-6)
O acolhimento de quem está “fraco na fé” não deve ser para contendas.  Para muitos cristãos, os que não creem como eles creem, são “fracos na fé”, “heréticos”, possessos do demônio...  Surgem então as discussões infindáveis, que aumentam o preconceito de uns com os outros e de outros com os uns (preconceito gera preconceito)!  As discussões progridem para a ira, porque se tornam prisioneiras da “verdade absoluta”;  a ira gera intolerância e a intolerância gera a perseguição.  Nada melhor que “verdades absolutas” para gerar a histeria do fanatismo e da violência!

25 agosto 2015

Um pouco de História para deixar claro algumas coisas…

Boa Nova
Hoje em dia o adjetivo “evangélico” está substantivado, como identidade de grupos religiosos dos mais diversos, todos se afirmando “cristãos”, embora grande parte deles não professa exatamente a Fé Evangélica Cristã.
Entretanto, o desgaste sofrido pelo adjetivo “evangélico” leva as pessoas a pensarem que “ser evangélico” é exatamente ter a prática religiosa desses grupos, especialmente aqueles grupos em que a Graça e a Bênção são substituídas pela prosperidade material, pela compra de bênçãos e pela idolatria de seus líderes.
Em poucas palavras, de forma bem resumida, é bom lembrar que o adjetivo “Evangélica” foi atribuído por Martilho Lutero quando – excomungado pela Igreja de Roma – definiu seu grupo como Igreja Evangélica, não em oposição à Igreja Católica, mas afirmando a identidade de uma Reforma que deveria fazer a Igreja retornar sua confessionalidade à afirmação dos valores do Evangelho: a salvação pela Graça e pela Fé, e total obediência ao senhorio de Cristo, sempre com base nas Escrituras.
Aliás, “católico” e “apostólico” são outros adjetivos que foram substantivados como nome de Igreja ao invés de serem entendidos como qualidade universal da Igreja que vem dos Apóstolos; nesse sentido, todas as Igrejas que mantém seu vínculo histórico com o cristianismo primitivo, são católicas e apostólicas! Inclusive a Igreja Evangélica que surge a partir do pensamento de Martinho Lutero! e a maioria das Igrejas vindas do movimento da Reforma do Século XVI e, obviamente, as Igrejas Orientais, também conhecidas como Ortodoxas.

26 junho 2015

Você é cristão?!?!?!

cruzCaminhar com Jesus Cristo não é fácil. Não é uma opção filosófica. Não é adotar um estilo de vida. Não é ser “bonzinho”. Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, aceitar um convite, um chamado, e todas as implicações que isso traz.

No tempo presente, o nome de Jesus Cristo é insultado diariamente. Espertalhões que exploram a fé do povo cometem, “em nome de Jesus”, falcatruas visando angariar dinheiro de maneira imediata, deturpam descaradamente a Bíblia, que para os Cristãos é a Palavra de Deus, anunciam falsas promessas ou, por outro lado, defendem uma moralidade hipócrita e irrelevante, como se o Deus da Igreja fosse um grande negociante ou um soberano mal humorado.  Transformam a Fé Cristã em consumismo religioso vazio de conteúdo, prometendo em nome de Deus o que Ele jamais prometeu! E buscam as instâncias de poder do Estado para, com tal poder, atingir seus mais torpes objetivos.

As comunidades de fé que ainda resistem a essa onda diabólica, se tornam cada vez menores, e passam por forte crise de identidade. Há uma pressão sobre elas para acompanharem a onda do consumo religioso e crescer a qualquer preço.

Ao mesmo tempo, diante das falcatruas e das propostas moralistas hipócritas e excludentes, pessoas inteligentes se afastam de qualquer coisa que tenha um significado religioso, especialmente um significado “cristão”.

Muita gente inteligente, hoje, afirma crer em Deus, mas não frequenta qualquer religião. A religião é vista como algo nocivo e enganador, movida por organizações (chamadas Igrejas) cujo interesse é acumular riquezas, e explorar a boa fé das pessoas mais simples.

Todavia, pouca gente compreende que caminhar com Jesus Cristo não é simplesmente adotar uma religião ou vincular-se a uma instituição.  Igrejas sempre estão cheias de gente, mas não significa que estão cheias de pessoas cristãs!

Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, uma experiência que surge a partir de um convite: “Vem, e segue-me!”  É uma experiência que só tem sentido quando vivida em uma comunidade de oração, serviço, anúncio e testemunho. Tal comunidade é, desde os tempos dos Apóstolos, chamada de Igreja. Não uma instituição, mas uma grande comunidade.  Sem essa percepção, tudo perde sentido!

É claro que as comunidades de fé se organizam institucionalmente. Não podem fugir disso. É da própria natureza dos agrupamentos humanos organizarem-se com normas de direitos e deveres, símbolos e ações simbólicas, definições de autoridade e exercício de poder dentro do agrupamento. Mas nada disso é absoluto por si mesmo, mas é antes de tudo, a maneira de compreender as limitações humanas e colocar-se na total dependência de Deus. Não há autoridade única e absoluta na Igreja de Deus, a não ser a de Jesus Cristo. Todo o resto se procura fazer em obediência e atendimento ao chamado: “Vem e segue-me!

Como tudo que é humano, a grande comunidade de fé se organiza, e se denomina tal organização de “Igreja” e, ainda que possa abranger muitas comunidades de fé espalhadas pelo mundo, traz em si mesma a imperfeição humana e a tentação do pecado. Em todo tempo e lugar sempre acontecem desvios e muitas vezes o absoluto de Deus é deixado de lado.  Na teologia, isso se chama pecado.

Por ser humana, a Igreja está cercada pelo pecado. Por isso,  a comunidade de fé está sempre se renovando e se reformando, procurando corrigir os desvios e tentando evitar a tentação de ser absoluta por si mesma. Por isso, a Igreja se reúne como comunidade para, acima de tudo, colocar-se diante do Senhor, reconhecer seus pecados, e receber a Graça Libertadora que anima toda a comunidade a permanecer fiel e caminhando com Jesus Cristo neste mundo!

Há muita safadeza no chamado “mercado religioso”. Há muita gente “esperta” que, tal como um vampiro, vive parasitando as pessoas com promessas vazias, falsos testemunhos e muitas vezes acompanhado de uma moralidade hipócrita, excludente e preconceituosa.

Mas há também muitas comunidades de fé que não se deixam levar pelos demônios da exploração e da falcatrua; acolhem com afeto e simpatia todas as pessoas que, tendo ouvido o Chamado, buscam vivenciar essa experiência em uma comunidade de irmãos e irmãs.

São essas pessoas que tornam o testemunho cristão relevante diante das mazelas do mundo. São tais pessoas que, nos momentos mais duros e difíceis da sociedade humana são capazes de empenhar a própria vida visando o bem estar de todos. É porque ainda existem os que atenderam ao Chamado que a solidariedade, embora rara hoje em dia, ainda acontece. 

Isso não é um privilégio das comunidades Cristãs. Afinal, o próprio Jesus informou, aos seus discípulos mais próximos, que Ele tem ovelhas em outros apriscos…  e eu entendo que lá Ele é reconhecido, mas chamado por outro nome…

Rev. Luiz Caetano, ost+

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05 setembro 2013

A Beatíssima Virgem Maria

Teotokos 1A Virgem Maria, Mãe de Jesus, é uma criatura privilegiada. Deus queria fazer-se homem e escolheu uma menina para isso, ser Sua Mãe, cumulando-a de todas as virtudes, a fim de preparar Sua morada em seu seio virginal.

O privilégio fundamental, que está no centro de todos os outros e dá a razão deles, é a maternidade divina. Maria Santíssima é verdadeiramente Mãe de Deus, porque gerou e deu à luz Cristo Jesus, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Quando Nestório negou a Maternidade Divina de Maria, o Concílio de Éfeso proclamou este ensinamento: "Se alguém não confessa que o Emanuel é verdadeiro Deus e por isso a Santíssima Virgem é Mãe de Deus, posto que gerou carnalmente o Verbo de Deus feito carne, seja anátema". (Anatem, de S. Cirilo, 1, em Dz.113). Jesus é seu Filho.

Embora esse privilégio se refira a ela, há de se entender, ao mesmo tempo, que Deus a santificou com tal abundância de graças que, como anglicanos devemos, sim, respeitar, admirar. Ela é a primeira de todos os Santos, porque a medida da sua santidade é o privilégio maior que Deus concedeu a uma criatura: ser Sua Mãe: "Todas as gerações me chamarão bem aventurada" (Lc 1.48)

A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a Bem-Aventurada Virgem é venerada sob o título de "Mãe de Deus" (Theothokos). Este culto encontra a sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como nas celebrações nos ofícios diários e celebrações dominicais, pois a Virgem é legitimamente honrada com datas próprias no calendário litúrgico da nossa Igreja; várias igrejas e catedrais de nossa tradição, pelo mundo, são dedicadas à Virgem Maria e levam seu nome.

Para saber mais sobre a Virgem Maria na nossa tradição, veja o artigo do Rev. Luiz Caetano:(https://docs.google.com/file/d/0B25fLSpH7iZsY05ubm1XSEFBcU0/edit?usp=sharing).

Rev. Daniel, ost+

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20 agosto 2013

Os muitos rebanhos do Bom Pastor

JesusCristo Pastor

Jesus se identifica como Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas, aquele que é reconhecido por elas:

“Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. [...] Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim,  assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.   Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor.”  (Evangelho de João 10.1-5;11-16 – Almeida, R.A.)

O Bom Pastor tem rebanhos em todo o mundo. Os rebanhos não são todos iguais, porque as ovelhas também não são todas iguais. A diversidade da Igreja de Cristo é uma bênção para que se cumpra o pedido do Senhor, que todas as pessoas possam ter acesso ao Evangelho de Cristo e à Vida em Plenitude que Ele concede.

Essa Vida em Plenitude é dada por Cristo, não por uma denominação religiosa. As diferentes igrejas (instituições e denominações religiosas) são parte da IGREJA DE JESUS CRISTO (que é simplesmente a Comunidade Universal de Comunhão, Serviço e Testemunho à Luz do Evangelho).

Se você se sente uma ovelha fora do rebanho, como que perdida ou desgarrada, dê uma chance ao Bom Pastor, que está à sua procura!

Talvez possamos ser o redil que você está buscando!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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15 outubro 2012

Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana

ide sem nadaO Apostolo Paulo, quando preso, escreveu em sua Carta à Igreja de Éfeso: 
   “Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.”                        (Efésios 4:1-6 N.V.I.)
O verbo suportar como aparece no texto acima, segundo a nossa linguagem cotidiana, inspira uma ideia de tolerância, “tolerar o outro”, como se não tivéssemos outra opção se não “aguentar os outros”!  Nos dias de hoje, quando o individualismo é exaltado e tem se tornado regra de vida, o outro se torna sempre alguém que a gente tem de “suportar”, “aguentar com paciência”, e “haja paciência”!
Na verdade, não é isso que o Apóstolo Paulo está dizendo. Pelo contrário, não se trata de tolerância, mas de solidariedade! No texto de Paulo, o verbo suportar significa dar suporte, sustentar, apoiar. E deve ser fruto da humildade e da mansidão, de coração aberto, porque tal é a vocação daqueles que são de Cristo!
É exatamente o suporte de uns para com os outros que dá sentido a vida em comunidade de fé, que caracteriza a catolicidade (universalidade) da Igreja de Cristo. Se não somos solidários entre nós, em nossa comunidade, e para com as demais comunidades de Cristo, não se justifica nosso louvor, nossa oração: tudo isso se torna hipocrisia!
A Tradição herdada pela Igreja Episcopal Anglicana afirma a catolicidade da Igreja, sua universalidade e sua unicidade, apesar das diferentes maneiras da Igreja ser, das diferentes denominações cristãs. Por isso, somos uma Igreja ecumênica, que partilha com as outras denominações muitas ações de testemunho e solidariedade cristã, não apenas um diálogo entre teólogos, mas ações envolvendo as pessoas. Afinal ecumenismo se faz com pessoas essencialmente!
Mas há também um aspecto interno de vivência católica entre nós. Somos uma Igreja Episcopal, assim, nossa menor unidade é a Diocese, e não cada comunidade específica. A Diocese é, para nós a Igreja Local, a Igreja Particular, não importa sua extensão geográfica. Assim, cada comunidade, seja uma Paróquia ou mesmo um Ponto de Pregação, é parte de uma única Igreja Local, de uma única Igreja Particular: a Diocese!
Isso nos difere da maioria das Igrejas de Tradição Reformada: nós não somos congregacionais. Para nós, uma determinada congregação é parte de um coletivo que denominamos Diocese. Assim, o nosso pastor é o Bispo; os Presbíteros e Presbíteras são pastores e pastoras com ele. Tecnicamente chamamos isso de incardinação (estar no coração). O Bispo, como pastor da Igreja, exerce esse pastorado de forma colegiada com seus Presbíteros e Presbíteras que, em muitos lugares, são chamados pelo povo da Igreja de “padres”, “madres”, “reverendo” ou “reverenda”. Os Diáconos, que são ministros do Bispo, cooperam nesse pastorado exercendo o serviço de acolhimento e cuidado com os mais necessitados e na administração da Igreja e sua obra social, servindo em alguma´comunidade sob a orientação de seu pároco, ou diretamente sob a supervisão do Bispo.
Assim, a unidade colegiada do Bispo com seu Presbitério e seus Diáconos, se traduz também na unidade das diferentes comunidades que compõem a Diocese, que devem apoiar-se umas às outras, dando suporte a toda ação missionária e diaconal da Igreja Diocesana. O povo da Igreja, chamado laicato, participa em todas as instâncias da administração e do poder institucional através dos Concílios da Diocese, de representações específicas e ocupando cargos oficiais, através de eleição ou nomeação, na Diocese e nas comunidades.
A Comunhão e Colegialidade dos Bispos, e por conseguinte, das respectivas Dioceses, dão unidade à Igreja Provincial, que geralmente ocupa um território nacional (como no caso do Brasil), ou parte de um território nacional (como é o caso da Igreja da Inglaterra, que tem duas Províncias), ou vários países, como é o caso da Província do Cone Sul da América, que agrega dioceses anglicanas de vários países da América do Sul. Também em nível provincial e mundial, o laicato é representado e participa ativamente das decisões, de forma paritária com o clero.
É exatamente essa colegialidade de comunhão entre os Bispos de todo o mundo e, assim, das diferentes Dioceses (com seu clero e povo) e Províncias que constitui o que chamamos de Comunhão Anglicana, uma comunhão de Igrejas particulares em comunhão entre si, unidas por vínculos de história, tradição e liturgia. O Arcebispo de Cantuária é o símbolo dessa unidade  (e não “autoridade suprema”), assim como os Primazes de cada província são o símbolo de unidade provincial. Não há uma cúria mundial, mas diferentes níveis consultivos que encaminham os pontos de concordância e discordância entre as Igrejas Particulares: tudo se resolve em nível de consenso mínimo e liberdade. Isso nos diferencia dos Católicos Romanos.
A Paróquia São Paulo Apóstolo em Santa Teresa, cidade do Rio de Janeiro é, assim, uma comunidade na Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, que por sua vez é parte da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Província) e esta é parte da Comunhão Anglicana.
Nesse encadeamento de comunhão, há muitas formas de cooperação e de suporte entre as Igrejas Particulares e as comunidades (paróquias, missões, pontos de pregação). Apesar de dificuldades devido o caráter humano de toda institucionalização, nossa Igreja procura se fiel à Palavra de Deus e ao Senhor Jesus Cristo.
A Catolicidade da Igreja é um chamado e um testemunho diante do individualismo que separa as pessoas!
Rev. Luiz Caetano, ost
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08 fevereiro 2012

Os donos da verdade e a Verdade.

ele_morreu_folheto_frente-682x1024Todos nós conhecemos pessoas que se acham “donas da verdade”. Elas estão por ai: na escola, no ambiente de trabalho, aparecem aos montes pela mídia, e – o que é pior – até na Igreja tem gente assim! São aquelas pessoas para as quais quem pensa diferente delas, está errado. Só elas estão certas, só suas ideias são as corretas, só sua maneira de agir é que serve. Isso fica pior quando se trata do assunto “religião”.
Porque a experiência religiosa é algo muito pessoal, algo muito íntimo.
Imagine que eu te dê algo para comer, e te diga: “tem gosto de laranja”. Se você conhece o gosto da laranja, tudo bem, vai entender e até já imagina o sabor. Mas tente explicar para alguém que nunca viu ou provou uma laranja qual é o gosto da laranja.
Tente dizer: é meio azedo! O outro pergunta “meio azedo como o limão?” Você vai dizer, “depende, tem umas que são, mas outras são doces”... Ou seja, você só poderá explicar o sabor da laranja por semelhanças, por aproximações. O melhor mesmo é dar uma laranja ao outro, para que ele prove. E, para que ele possa realmente conhecer o sabor de laranja, terá de provar várias, de várias qualidades: as mais doces, as mais azedas... até que ele tenha em sua mente o conceito claro do sabor da laranja. Assim é a experiência da fé e a opção por uma Igreja.
Quem teve sua experiência com Deus sabe que jamais poderá contar como ela foi, apenas pode falar sobre ela, pode usar aproximações : “uma experiência maravilhosa”, “uma sensação enorme de felicidade”, e assim por diante. A experiência com Deus é algo muito pessoal, muito íntimo... quem a teve, compreende quando outra pessoa fala sobre isso. A Fé é um dom, não uma conclusão!
Mas jamais alguém poderá dizer que “minha experiência com Deus foi melhor que a tua”, assim como dizer que “quem não viveu exatamente a mesma coisa que eu, não encontrou a Deus ainda”. Quem disser isso apenas está comprovando que jamais teve uma experiência com Deus. Viveu lá uma emoção qualquer, mas um encontro com o Senhor, isso com certeza não! Sabe por que?
Porque o Senhor sabe que somos diferentes – afinal, Ele nos criou como indivíduos particulares; e conhece cada um de nós melhor que nós mesmos. Só Ele sabe como atingir a cada pessoa no coração e na mente. Aquilo que para mim foi um grande sinal do amor de Deus, talvez para você seja desapercebido ou mesmo algo meio “bobo”.
Conheço alguém que converteu-se quando, caminhando pelo centro de São Paulo, em meio ao concreto e o asfalto, viu uma flor brotando de uma fresta num muro. Essa pessoa me contou que naquele momento sentiu uma paz profunda e conseguiu entender o amor de Deus: “é como essa flor, no meio de tanta pedra e concreto, ela desponta ... Deus sempre encontra uma brecha para mostrar seu amor...” Muita gente passou por aquela flor, mas nem a percebeu... Eu mesmo me surpreendi quando essa pessoa me procurou para dizer-me “Pastor, uma florzinha me convenceu do amor de Deus... quero agora estudar mais a Bíblia e me tornar um verdadeiro cristão...” e me contou essa história. Hoje, essa pessoa é ministro ordenado de uma Igreja! E têm um belo ministério.
Por isso, é muito triste quando a gente vê, na Igreja, pessoas dizendo que uma outra não tem Deus no coração porque ora de olhos abertos, ou não inclina a cabeça... ou porque usa roupa de certa cor, ou porque não gosta de certos corinhos do grupo de louvor... Pior ainda é quando as pessoas dizem que tal Igreja não é verdadeira porque é diferente da sua... criticam negativamente outras Igrejas sem conhecerem sua História, sua Tradição... detestam a diferença!
Leia Marcos 9.38-41 e também João 10,14-16. E reflita: é correto pensar que o diferente de mim não é amado por Deus? é correto pensar que Igrejas diferentes da minha não conhecem a salvação? será que para ovelhas estarem no mesmo rebanho têm de ser todas iguais, como se uma fosse clone da outra?
Tem gente por ai querendo que a Igreja seja uma enorme comunidade de clones... por isso é tão intolerante. São “donos da verdade”, mas será que conhecem a Verdade?
Rev. Luiz Caetano, ost+
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19 setembro 2011

Ecumenismo e Missão

Rosto de Cristo 2Nossa Paróquia sempre esteve envolvida em ações ecumênicas, seja pela participação de nossa liderança em eventos e organizações ecumênicas, seja também hospedando eventos ecumênicos.
Mas afinal o que vem a ser Ecumenismo?
A palavra Ecumenismo tem raiz no grego “Oikomene” – o mundo habitado, a Casa Comum, a Casa de Todos… e tem muito a ver com as relações humanas de solidariedade e cooperação.
A origem do Movimento Ecumênico se dá no século XIX. Na Conferência de Lambeth de 1868 os Bispos da Comunhão Anglicana fazem um apelo para que a atividade missionária cristã seja pautada pela união de esforços e cooperação ao invés de concorrência entre as Igrejas. A partir desse apelo, surge um movimento que vai culminar com a Conferência sobre a Missão, em Edimburgo, em 1910, que marca o início da caminhada que levou à fundação do Conselho Mundial de Igrejas em 1948, reunindo as Igrejas Protestantes, Orientais e de Tradição Anglicana. Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja de Roma se aproxima do Movimento Ecumênico (até então ele era considerado anátema pelos Papas), mas tal aproximação se dá apenas em nível do Ecumenismo Institucional.
No meu tempo de jovem, e ainda hoje, o ecumenismo se traduz em ações concretas de cooperação e solidariedade entre as comunidades cristãs e também com comunidades não cristãs. Na verdade, ação ecumênica é ação entre pessoas e não entre instituições!
Há quem faça distinção entre Diálogo Ecumênico (que seria entre cristãos) e Diálogo Inter-religioso (com outras religiões). Na verdade, esse é o entendimento Católico Romano, mas para nós – e isso é histórico – o Ecumenismo envolve mais que simplesmente as religiões, mas as culturas!
O paradigma do Movimento Ecumênico é que solidariedade, cooperação e convívio são possíveis entre culturas diferentes. Ecumenismo significa, portanto, inclusão e solidariedade entre diferentes, entre os diferentes habitantes da Casa Comum. Não se trata de simples tolerância, mas de reconhecimento do direito de existir do diferente, pois o paradigma maior é a Vida em Plenitude.
Isso não significa que os cristãos deixem de fazer Missão e o Evangelho não deva ser anunciado! Na verdade, o anúncio do Evangelho se faz não por apologia de sermos melhores que os outros ou os únicos detentores da verdade, mas se dá pelo testemunho concreto de atitudes e ações em respeito à Vida e à Identidade dos outros.
Deus tem sua própria maneira de revelar-Se às culturas humanas. Não precisa que nós levemos a nossa cultura para outros a adotarem. Deus não depende da nossa cultura, nem da nossa crença; Ele é maior que isso.
Como na figura acima, o Cristo está sempre presente, como Mistério, transfigurado nos elementos da realidade! Esse é o significado da palavra Mistério: aquilo que sendo oculto, é revelado! Fazer Missão é, acima de tudo, perceber o Mistério de Deus em Sua Presença na humanidade, e anunciar isso através de atitudes e testemunho.
Assim, a primeira e mais importante ação de um missionário cristão é tentar compreender como Deus se manifesta aos diferentes e – mais do que o falar abusadamente – dar seu próprio testemunho de vida diante dos diferentes, não por ser melhor que eles, mas para ser sinal do Amor de Deus por todas as pessoas – afinal essa é a Boa Nova Cristã (Evangelho): Deus nos ama primeiro!
Não é dever do missionário converter! isso, segundo a boa teologia dos Pais da Igreja, é obra do Espírito Santo. É dever do missionário testemunhar o Evangelho de Cristo através de sua presença solidária e de serviço às necessidades dos outros.
Assim, o ser ecumênico impede a ação proselitista, mas não impede a ação missionária. Antes, o ser ecumênico nos faz missionários da boa vontade e da cooperação solidária, sinais da ação do Espírito de Cristo em nossas vidas. Anunciar o Evangelho não é anunciar um deus, mas um modo de vida, anunciar um Reinado que já está entre nós e sopra Ventos de boas novas em todas as culturas humanas que estejam abertas à promoção da Vida em todos os sentidos.
É nesse espírito que nossa Paróquia desenvolve sua ação missionária, em Santa Teresa e arredores, procurando obedecer a Cristo, ver os Sinais dos Tempos e colher os Frutos do Espírito. Que a Igreja cresça pela ação do Espírito Santo e não pela nossa capacidade de convencer os outros!
Rev. Luiz Caetano, ost+
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