Os artigos deste blogue expressam o pensamento de seus autores, e não refletem necessariamente o pensamento unânime absoluto da comunidade paroquial. Tal unanimidade seria resultado de um dogmatismo restrito e isso contraria o ethos episcopal anglicano. O objetivo deste blogue é fornecer subsídios para a reflexão e não doutrinação. Se você deseja enviar um artigo para publicação, entre em contato conosco e envie seu texto, para análise e decisão sobre a publicação. Artigos recebidos não serão necessariamente publicados.

Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador NATAL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NATAL. Mostrar todas as postagens

20 dezembro 2016

O Tempo Litúrgico do Natal

Natal 2O tempo Litúrgico do Natal começa com a Vigília de Natal (a noite de 24 de dezembro) e termina na Véspera do Dia da Epifania do Senhor (6 de janeiro).
Tempo de festa e alegria, a Igreja relembra a chegada de nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus que se tornou carne humana, e vive conosco para sempre!
Na Celebração da Natividade do Senhor ascende-se a quinta vela da Coroa do Advento, de cor branca, símbolo do Cristo, a Luz do Mundo!
Para as pessoas que vivem acima do Equador, portanto no hemisfério norte, é Inverno, o clima é muito frio e as noites são longas. Mas para nós, que vivemos no hemisfério sul, é Verão; portanto, faz calor e as noites são curtas. Por isso, nós não percebemos bem o simbolismo do Natal, uma festa de luz e de alegria, de esperança renovada.

24 dezembro 2015

Um menino nos nasceu!


Um Menino nasceu para nós... pobre; na periferia de uma grande cidade situada na periferia de um grande Império (opressor como todos os impérios); visitado pelos pastores, aqueles que vivem fora dos muros; deitado em uma manjedoura, um curral, porque não havia quem o hospedasse... 
Alguém ainda lembra o que realmente se festeja?

03 janeiro 2015

O Santo Nome – o Nome acima de todo nome!

Cristo Sacerdote ícone

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele,  subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2.5-11)

O Calendário Litúrgico da Igreja Episcopal determina para o dia 1º de janeiro, primeiro dia do ano civil, a celebração do Santo Nome de Jesus. Pela proximidade com o Natal, imagina-se que a Festa se enquadra no contexto do Menino de Belém que, tendo sido levado ao Templo para a circuncisão, recebe o nome de Jesus. Entretanto, não se trata disso, uma vez que, nos domingos depois do Natal, a apresentação de Jesus no templo e sua circuncisão têm seu lugar próprio.

A Festa do Santo Nome tem um caráter mais profundo e mais importante que um mero detalhe na vida de Jesus. A Festa se qualifica na Confissão da Fé Cristã, a afirmação do Senhorio de Jesus Cristo, Filho de Deus, Deus-conosco, Redentor e Salvador do Mundo, Rei do Universo!  Ele, o Logos que existia desde antes do Princípio, a Palavra Criadora, que se tornou carne humana em Maria e nessa condição humana, despiu-se de toda dignidade divina para que o ser humano e toda a criação retornasse à presença permanente do Criador! O Deus-conosco para sempre!

Iniciar o ano civil celebrando o Santo Nome significa assim, afirmar que a Igreja, a Comunidade de Fé, segue caminhando em Nome de seu Senhor, na Presença Companheira de seu Senhor através do Espírito Santo, anunciando a Boa Nova, denunciado o Mal e testemunhando a ação redentora de Jesus, o Cristo. Não há outro nome que justifique a ação da Igreja e sua presença no mundo, a não ser o Nome do Senhor! No horizonte do caminhar da Igreja está o Reinado de Deus através de Jesus Cristo, o Deus-conosco, Emanuel.

Infelizmente, o nome de Jesus, hoje, é vulgarizado, vilipendiado pelas práticas nada cristãs de grupos que se identificam como “Igreja”; o nome de Jesus se tornou um fetiche e um talismã, um produto de fácil consumo no mercado religioso, invocado como “palavra mágica” cujo efeito é produzir a “graça” comprada a preço barato dos mercadores de esperança que confiam na desesperança das pessoas para vender a ilusão do “milagre” e da “prosperidade”. O Santo Nome colocado a serviço da charlatanice e da exploração da boa fé das pessoas que andam sem rumo em seu desespero pós-moderno!

Por causa dessas coisas abomináveis, o Santo Nome de Jesus hoje é motivo de chacota e se torna algo  vazio de significado. Se torna uma vacina contra a pregação de forma que pessoas inteligentes não abrem o coração e mente para a Boa Nova! À simples menção do Nome, rejeitam a pregação por identificar o nome com a charlatanice e a exploração da boa fé humana. O Santo Nome, dito como blasfêmia,  transformado em instrumento de Satanás, “pai da Mentira”, de Lúcifer, a luz que cega mas não ilumina o caminho!

É bem verdade que Jesus diz, conforme o Evangelho de João:  “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, Ele vo-la concederá em meu nome. Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” (Jo 16.23b-24)

É preciso cuidado com essas palavras. Jesus diz isso ao seu círculo íntimo de discípulos. Não é uma afirmação genérica, mas uma garantia àquelas pessoas comprometidas com Ele. Jesus se coloca como mediador daqueles que a Ele pertencem! Esse é o contexto dos capítulos 13 a 17 do Evangelho de João: palavras ditas por Jesus na intimidade com os seus discípulos e discípulas – algo restrito à Comunidade Confessante da Fé!

Porque não é apenas “pedir em nome de Jesus”, mas também acolher em Seu Nome: “Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande.” (cf. Lucas 9.48); o servir em Nome do Senhor e a humildade diante da Majestade de Deus.

Assim, a oração feita em nome de Jesus não é uma formalidade ou uma fórmula mágica, mas uma declaração do Senhorio e da Mediação de Jesus Cristo, e da vivência dessa mesma fé nas relações entre as pessoas.

Porque o “pedir” não é superior à vontade de Deus, de Quem, no dizer dos charlatões, devemos “exigir o cumprimento da promessa”. A única oração que Jesus ensinou diz, logo no início “ Pai, … seja feita a Tua Vontade…”, ou seja o pedido é subordinado à vontade e à soberania de Deus. Não é “um direito a ser exigido”, mas Graça concedida pela mediação de Jesus o Cristo! Não é prêmio, mas presente pelos méritos de Cristo.

Assim, o Santo Nome de Jesus não pode ser usado como talismã, ou como produto consumível diante da necessidade. O Evangelho de Mateus coloca na boca de Jesus as seguintes palavras:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.21-23)

Portanto, amigos e amigas, cuidado ao pronunciar o nome de Jesus.  Não é a palavra “Jesus” por si mesma, mas esse é o Nome acima de todo o nome, que ao ser dito é a confissão do Senhorio e a Majestade de Cristo, para a glória de Deus, o Pai (e Mãe).

Quando em sua oração você terminar dizendo “… em o nome de Jesus. Amém!” lembre-se que esse “amém” é – acima de tudo – subordinação à vontade de Deus e abertura para receber a Graça concedida também em nome de Jesus!

Rev. Luiz Caetano, ost+

24 dezembro 2013

Onde está o Menino?

Ache o bebe“Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer. E foram apressadamente e acharam Maria e José, e a criança deitada na manjedoura.” (os pastores, cf. Lucas 2.15b-16)

“Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adora-lo.” (os Magos, em Jerusalém, cf. Mateus 2.2)

“...então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer.” (atitude de Herodes, cf. Mateus 2.4)

“...Herodes, tendo chamado secretamente os Magos, inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera. E enviando-os a Belém, disse-lhes: ‘Ide informar-vos cuidadosamente a respeito; do menino; e quando o tiverdes encontrado, avisai-me para eu também ir adora-lo.” (Herodes, aos Magos, cf. Mateus 2.7-8)

“Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram...” (os Magos, em Belém, cf. Mateus 2.11)

“Sendo por divina advertência prevenidos em sonho para não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra” (os Magos, cf. Mateus 2.12)

Onde está o Menino?

Cada um, por sua própria motivação, faz essa pergunta, e recebe a resposta que merece:

    • a) Os pastores, gente simples, excluída e que vivia fora da cidade, não perguntaram; a eles foi revelado gratuitamente pelos anjos; a eles foi anunciada a chegada do Salvador!
    • b) Os Magos do Oriente, que provavelmente seriam exorcizados na maioria das mega-igrejas pós-modernas, não eram judeus, não eram do povo eleito, a eles foi reveladosegundo a sua própria maneira de conhecer o Sagrado – a chegada do Rei. E eles partiram para vê-lo e adora-lo e indagaram... os mesmos Magos que recebem do Divino a advertência de não mais procurarem Herodes e regressarem por outro caminho: vieram de um jeito, retornaram de outro, desta vez guiados não mais pela estrela, mas pelo Divino!
    • c) Herodes, o rei, o poderoso, judeu mestiço, parte do povo eleito, mas lacaio do Império Romano que a tudo e todos dominava, em seu coração temeu perder o poder e as regalias, para ele a resposta não foi dada, e em seu desespero, tornou-se assassino pelo medo de perder o poder.

Neste início do século XXI, já desde o final do século XX, celebramos o Natal em meio ao consumismo, ao Papai Noel, aos banquetes e às vazias mensagens de paz e boa-vontade (no dia 26 os bancos e a agiotagem geral, impiedosamente, estarão liquidando vidas – como Herodes - em nome de dívidas e amparados pela lei – talvez até mesmo de alguns que receberam sua mensagem natalina); mas a pergunta ainda está presente: Onde está o Menino?

Talvez o Menino esteja entre os moradores de rua, que no dia 26 estarão buscando no lixo, as sobras dos banquetes do desperdício, recolhendo caixas de papelão dos brinquedos e TV’s digitais, para vender a fim de poder comprar pão e um pouco de dignidade...

Talvez o Menino esteja em algum assentamento de pobres migrantes no terceiro mundo – como aliás, estava em Belém....

Talvez o Menino esteja em algum lar muçulmano na Palestina, sem esperança futura de uma cidadania com dignidade, pois isso lhes é negada por um Estado de opressão...

Talvez o Menino esteja em algum cidade iraquiana ou afegã, entre as ruínas do assassinato... que motiva mais assassinatos... talvez o Menino acabe se tornando um terrorista, porque de Salvação só lhe restará a vingança...

Talvez o Menino esteja em algum acampamento de assolados pela seca, pela fome e pela opressão em algum canto da África, sem futuro, sem esperança, sem nada…

Talvez o Menino esteja na pequena e pobre comunidade cristã em alguma periferia ou favela controlada pelo tráfico de drogas, esquecida dos serviços públicos e à mercê da boa-vontade dos traficantes e dos milicianos…

Talvez hoje o Menino seja também uma Menina, qualquer criança ameaçada de viver, no futuro, em um mundo onde a água será privilégio e a natureza estará, em sua loucura, vingando tudo aquilo que a humanidade destruiu em nome da riqueza e do progresso.

Mas com certeza – e assim nos mostram Lucas e Mateus – o Menino não está nos grandes palácios dos poderosos (fosse em Roma, ou Jerusalém naquele tempo, seja em Washington, Bruxelas, Moscou, Brasília e tantos lugares onde o poder se instala em palácios cercados de barracos...).

Com certeza não estará entre os donos da verdade que, em sua arrogância, negam a diversidade e demonizam todos que diferem ou discordam deles...

Com certeza não estará nos mega-templos dos shows mirabolantes e da venda do sagrado...

Com certeza não estará como membro de qualquer instituição religiosa que segue a própria lógica da manutenção de seu “status quo”...

O Menino quer estar no teu coração... mas para isso é preciso que faças a pergunta certa, com o motivo certo, e não tenhas medo se a resposta não for aquela que imaginas.

O Menino nasce no estábulo, na periferia, é revelado entre pastores que vivem fora da cidade e é visto pelos Magos, que vieram de longe seguindo uma estrela. Não seja um Herodes!

Rev. Luiz Caetano, ost+

---/---

31 dezembro 2012

O Natal e a Plenitude dos Tempos

natividade_sexto_sentido_14_0001_500_x_396São Paulo escreveu ao Gálatas:

                    Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai". Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro. (Gálatas 3.23-29; 4.4-7 – N.V.I.)

É uma pena que para muitas pessoas o nascimento de Jesus signifique apenas um momento do ano para se ganhar presentes. Nada contra os bonitos presentes que ganhamos neste momento especial do ano, mas não podemos reduzir o Natal a isso.

Quando lemos as escrituras, e em especial a perícope acima, nos damos conta que o primeiro Natal não significou exatamente aquilo que as pessoas hoje leem e acreditam. O primeiro Natal é descrito neste texto como sendo um momento especial. Ele é descrito como a “plenitude dos tempos”.

Por causa desta visão tão especial que Paulo tinha acerca do Natal, nos animamos a refletir hoje sobre o seguinte tema: “Quando a plenitude dos tempos chega…”

Quando a plenitude dos tempos chega, em primeiro lugar, somos livres da escravidão (v. 4, 5):O apóstolo Paulo descreve nossa relação com a Lei ( O Pentateuco), que regia os relacionamentos entre Deus e os homens, como uma relação de submissão. Ele nos diz, por exemplo, que todos estávamos “encerrados” (3:23) ou  seja “aprisiona-dos”, “tutelados” (3.23) e “submetidos” (3:25) a ela.

Quando Paulo nos diz que a Lei nos servia de “tutor”, ele estava dizendo que a Lei era uma espécie de guia que deveria nos levar até a escola para que aprendêssemos algo. E, de fato, a Lei nos ensinou o quão pecadores somos. O grande mérito da Lei, segundo Paulo, foi nos ensinar que somos pecadores. Foi nos revelar quem, de fato, somos, e quão necessitados estamos de um médico. A Lei, contudo, era incapaz de apresentar um remédio para a realidade que ela, tão eloquentemente, descrevia. A chegada da plenitude dos tempos, identificado por Paulo como o envio do Filho (v. 4), contudo a realidade muda: O período de escravidão está no fim e a libertação se aproxima.

Quando a plenitude dos tempos chega, em segundo lugar, somos transformam em filhos (V.6). Que mudança radical Paulo descreve aqui! Paulo se serve de uma figura para explicar esta mudança: a figura de uma família. Nas famílias da época além dos pais e dos filhos, havia também os escravos.

Estes não gozavam, obviamente, das mesmas condições e privilégios que eram próprios aos filhos. Contudo, com a chegada da plenitude dos tempos, os escravos são agora transformados em filhos. Eles são, segundo o texto, resgatados (v.5) do poder da Lei e adotados como filhos. A marca mais forte de que agora somos “filhos de Deus” é nosso direito de dizer aquilo que só os filhos legítimos podiam dizer: “Aba, Pai” (v.6), que significa “paizinho”.

Finalmente, quando a plenitude dos tempos chega, em terceiro lugar, somos contados entre os herdeiros (v.7). Uma vez que Deus nos resgatou dos grilhões da Lei, uma vez que ele nos adotou como filhos e nos deu o direito de chamá-Lo como os filhos legítimos o chamam; Ele, na plenitude dos tempos, também nos fez seus herdeiros. Como membros da família de Deus somos também beneficiários e herdeiros de todos os bens de nosso Pai. Esta figura nos assegura que a “fazenda” do Pai pertence a seus filhos e filhas, assim como o “Reino” de Deus também nos espera. E o que nos garante a posse e a entrada nesta nova realidade em que mora a paz, é a plenitude dos tempos, que já chegou.

Esse o grande significado do Natal!

Rev. Daniel, ost

===/===

23 dezembro 2011

A Natividade do Senhor

ImanênciaMuitas tradições antigas, especialmente no Oriente, apresentam várias narrativas sobre o nascimento de heróis, semideuses ou deuses, de uma virgem. Assim, a narrativa de São Lucas sobre o nascimento de Jesus é algo muito semelhante. Escrevendo no universo helenista, Lucas, que era um grego, seguiu a mesma linha de pensamento ao compor o mito sobre o nascimento de Jesus (Lucas 1.26-38; 2.1-20).
Mito não é uma mentira! Também não significa uma verdade histórica positiva.  Mito é a maneira de interpretar uma situação histórica dentro de um referencial de mistério, uma tentativa de dizer o indizível. Mito não significa falsidade, mas é alguma coisa como a poesia: diz mais que as palavras… fala mais ao coração que à razão. Ao contrário das lendas, os mitos se referem à uma realidade histórica interpretada à partir de uma visão de mundo que se desenvolve no cotidiano. Todas as culturas humanas, de todas as épocas, se fundamentam em mitos. 
O mito, ao contrário da lenda, fundamenta um sentimento de esperança que não se limita no tempo, mas aponta para a transcendência e tem um horizonte aberto para o futuro, uma esperança que pode ser experimentada e construída!
Lucas não pretendia contar o nascimento de Jesus; afinal esse era um fato conhecido pela Igreja onde surge o texto do Evangelho. O evangelista quis mostrar aos gregos, e à diversidade do mundo helenista do Império Romano, quem é Jesus, o Cristo. E usou uma linguagem que eles compreendiam: o mito do nascimento de um deus. Assim, a narrativa de Lucas não pretende ser uma narrativa histórica positiva; é uma narrativa mítica que pretende afirmar o mistério da presença de Deus na vida humana.
Todavia, a narrativa do nascimento de Jesus, apresentado por Lucas, enquanto mito, é exatamente o oposto dos mitos heroicos antigos, conhecidos pelos gregos, egípcios, persas, hindus. O menino nascido da Virgem não se manifesta como um deus, não opera maravilhas, não surge em um lugar de honra. Pelo contrário, nasce na periferia da periferia, longe dos palácios e das glórias humanas, e precisa ser reconhecido, como o foi pelos pastores e pelos magos do oriente, mas não pelo Rei Herodes…  O Cristo não se manifesta em glória, mas na humildade e na fragilidade de um bebê humano, totalmente dependente e incógnito. Nem todos O reconhecem!
Assim, o nascimento de Jesus surge como uma nova maneira de falar do Sagrado, apresenta um Deus diferente, afirma a Presença de Deus entre as pessoas e não acima delas no inatingível da transcendência. Ele se manifesta como Deus Conosco, não como Rei, mas como Servo, e é nessa perspectiva que Seu ministério se desenrola. Seu Reinado é aos poucos percebido por aqueles que O acolhem e caminham com Ele. Na convivência com Jesus, os discípulos e discípulas vão descobrindo o Cristo, o Ungido de Deus, o Filho de Deus, o Deus Encarnado (em carne!). Essa aventura da descoberta atinge seu auge após a Paixão, quando O percebem ressuscitado e vivo entre eles.
O Evangelho é, assim, a afirmação do mergulho da transcendência de Deus na imanência da vida humana; por isso o Cristo é chamado Deus Conosco! “O Senhor está aqui!”, dizemos na liturgia da missa. Não somos nós que vamos em direção a Deus, mas é Deus quem vem caminhar conosco! Este é o cerne do Evangelho! E isso é sempre uma grande novidade: a gratuidade do amor de Deus move nossa esperança de felicidade e de vida em plenitude, apesar de todos os desamores desta vida.
Tenha certeza disso: Deus ama você primeiro, aceita você como você é e transforma sua vida não a custa de sacrifícios, ameaças ou castigos, mas pela Sua ação amorosa radical, que na linguagem da Igreja se chama Graça! Assim ensinamos na Igreja Episcopal Anglicana.
O Natal é um convite para que você acolha um menino frágil, e caminhe com ele no decorrer da vida. Você perceberá que está caminhando com o Filho de Deus, o Senhor da Vida!
Acolha o Menino e deixe que Ele cresça em seu coração, permita que Ele se revele nos fatos simples da vida cotidiana. Isso sim é um Natal Feliz!
Rev. Luiz Caetano, ost+
===/===

09 dezembro 2011

São Nicolau e Papai Noel

natalvintage-s25c325a3onicolau06
Filho de nobres, Nicolau nasceu na cidade de Patara, na Ásia Menor, na metade do século III, por volta do ano 250. Foi consagrado bispo de Mira, atual Turquia, quando ainda era muito jovem e desenvolveu seu apostolado também na Palestina e no Egito.
Mais tarde, durante as perseguições do imperador Diocleciano, foi aprisionado até a época em que foi decretado o Edito de Constantino, sendo finalmente libertado. Segundo alguns historiadores, o bispo Nicolau esteve presente no primeiro Concílio de Nicéia, em 325.
Foi venerado como santo ainda em vida, tal era a fama que gozava entre o povo cristão da Ásia Menor. Morreu no dia 6 de dezembro de 326, em Mira. Imediatamente, o local da sepultura se tornou meta de intensa peregrinação.
São Nicolau é conhecido principalmente pelo seu carinho e cuidado para com os pobres e as crianças, já que ao receber por herança uma grande quantia de dinheiro, livremente partilhou com os necessitados. Certa vez, Nicolau sabendo que três pobres moças não tinham os dotes para o casamento e por isso o próprio pai, na loucura, aconselhou a prostituição, jogou pela janela da casa das moças três bolsas com o dinheiro suficiente para os dotes das jovens. Daí que nos países do Norte da Europa, usando da fantasia, viram em Nicolau o velho de barbas brancas que levava presentes às crianças no mês de dezembro. No hemisfério norte, dezembro é inverno.
O nome Nicolau vem de duas palavras gregas: nikos, que significa vitória, e de laos, “povo”; Nicolau significa, então, “vitória do povo”.
A origem do Papai Noel
Pela sua compaixão com os pobres e especialmente com as crianças, São Nicolau inspirou a lenda do Papai Noel; sendo confundido com ele. Chamado Nikolaus na Alemanha, passou a ser Santa Claus entre os anglo-saxões, Père Noël na França e Pai Natal em Portugal. No Brasil, é Papai Noel.
Havia em alguns lugares da Europa a tradição de, pelo Natal, presentear-se as crianças das aldeias com doces e brinquedos, como símbolo de homenagear o Menino Jesus, o Deus-Criança; era o próprio Menino Jesus quem trazia os presentes. Em algumas regiões, esses presentes eram dados na festa da Epifania, 6 de janeiro, quando era celebrada a visita dos Magos (que não eram reis) do oriente ao Menino Deus. Aos poucos essa tradição se firmou com a história de São Nicolau e a ele passou-se a atribuição de trazer os presentes…
Uma das pessoas que ajudaram a dar força à lenda do Papai Noel foi Clemente Clark Moore, um professor de literatura grega de Nova Iorque, que lançou o poema Uma Visita de São Nicolau, em 1822, escrito para seus seis filhos. Nesse poema, Moore divulgava a versão de que ele viajava num trenó puxado por renas. Ele também ajudou a popularizar outras características do bom velhinho, como o fato dele entrar pela chaminé.
Enquanto São Nicolau era originalmente retratado com trajes de bispo, atualmente Papai Noel é geralmente retratado como um homem rechonchudo, alegre e de barba branca trajando um casaco vermelho com gola e punho de manga brancos, calças vermelhas de bainha branca, e cinto e botas de couro preto.
Nicoçau Noel
Antigamente, ele usava cores que tendiam mais para o marrom e costumava usar uma coroa de azevinhos na cabeça, mas não havia um padrão. Seu atual visual foi obra do cartunista Thomas Nast, na revista Harper's Weeklys, em 1886, na edição especial de Natal. Em alguns lugares na Europa, contudo, algumas vezes ele também é representado com os paramentos eclesiásticos de bispo, tendo, em vez do gorro vermelho, uma mitra episcopal.
Em 1931 a Coca-Cola realizou uma grande campanha publicitária vestindo Papai Noel ou Pai Natal ao mesmo modo de Nast, com as cores vermelha e branca, o que foi bastante conveniente, já que estas são as cores de seu rótulo. Tal campanha, destinada a promover o consumo de Coca-Cola no inverno (período em que as vendas da bebida eram baixas na época), fez um enorme sucesso e a nova imagem de Papai Noel ou Pai Natal espalhou-se rapidamente pelo mundo.  Essa imagem tem se mantido e reforçado por meio da música, rádio, televisão e filmes.
Recuperando o significado do Papai Noel
Hoje a figura do Papai Noel está intimamente relacionada ao consumismo desenfreado das festas de fim de ano. Lamentavelmente, se perdeu o significado original, inspirado na solidariedade e na compaixão. Papai Noel hoje é personagem da propaganda indutora do consumo disfarçado de gesto carinhoso na troca de presentes, sem nenhuma relação direta com a celebração cristã do nascimento de Cristo. 
Nesse sentido, não vale a pena combater Papai Noel, mas tentar trazer de volta seu significado maior de solidariedade e partilha, inspirado na figura de São Nicolau; uma atenção carinhosa às crianças sem necessariamente associar a ideia de consumo e trocas interesseiras. Por exemplo, reunir as crianças com o Papai Noel e conversar com elas, ouvi-las e contar estórias que provoque nelas uma reflexão simples sobre relações humanas, comportamento solidário, ecologia, etc.
Nessa esperança, o Papai Noel estará na Igreja de São Paulo Apóstolo aos domingos à tarde, para acolher as crianças que passarem por perto do templo, mostrar-lhes o presépio e contar estorinhas. E durante a semana, o Papai Noel tentará estar em vários espaços do Bairro de Santa Teresa visitando as crianças do lugar.
É uma modesta (e talvez ingênua) tentativa de apresentar uma alternativa mais adequada à celebração do Natal de Jesus, o Cristo, um serviço às crianças, em nome do Senhor.
Rev. Luiz Caetano, ost+
===/===