Os artigos deste blogue expressam o pensamento de seus autores, e não refletem necessariamente o pensamento unânime absoluto da comunidade paroquial. Tal unanimidade seria resultado de um dogmatismo restrito e isso contraria o ethos episcopal anglicano. O objetivo deste blogue é fornecer subsídios para a reflexão e não doutrinação. Se você deseja enviar um artigo para publicação, entre em contato conosco e envie seu texto, para análise e decisão sobre a publicação. Artigos recebidos não serão necessariamente publicados.

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15 julho 2013

Mordomia Cristã (2): Ação Diaconal

(veja também o primeiro artigo da série “Mordomia Cristã”: clique aqui)

ConsoladorNesta segunda reflexão sobre a Mordomia Cristã, vamos conversar sobre Ação Diaconal.

O termo Diaconia foi desde os primórdios do Cristianismo ligado ao serviço que se presta aos mais necessitados. Assim, em Atos dos Apóstolos 6.1-7 vemos o núcleo da Igreja Primitiva designando sete homens para exercerem o cuidado para com os órfãos e as viúvas, gente que – pela sua condição – sofria privações enormes. A criação dos Diáconos para cumprir essa tarefa em nome dos Apóstolos mostra que desde o início o cuidado com os necessitados era parte do ministério da Igreja, totalmente vinculado ao ministério apostólico.

O significado de Diaconia, com o passar dos séculos, desenvolveu-se para o conceito de serviço aos mais necessitados e, por extensão, à comunidade como um todo. Hoje podemos dizer, como uma simplificação, que Diaconia se aplica à ação social da Igreja, algo inerente à própria existência da Igreja e do seu testemunho do Evangelho de Cristo, uma vez que nosso Senhor está entre nós como “aquele que serve” (cf. Marcos 10.45: Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.)

Muitas organizações de inspiração cristã (e não cristã também), vinculadas ou não à uma determinada Igreja, fazem excelente trabalho de ação social. A maioria delas conta com quadros profissionais especializados e exercem importante papel no âmbito da cooperação e ação social. Ao contrário das instituições estatais ou exclusivamente patrocinadas pelo estado, a grande maioria delas adotam modelos de organização e gestão bastante sofisticados e eficazes, otimizando os recursos para suas atividades fins.

Nossa comunidade paroquial atua de diferentes maneiras em termos de ação diaconal:

SPAPOST 2012 09 09 1   1) Nós apoiamos duas organizações sociais que atuam servindo aos mais necessitados; dedicamos a elas mensalmente, pelo menos, duas coletas dos ofícios dominicais matutinos (conheça essas entidades, clique aqui);

    2) Periodicamente definimos um determinado domingo como Domingo Diaconal da Comunidade, quando a congregação deposita sob o Altar gêneros alimentícios, produtos de higiene pessoal, produtos de limpeza, e outros produtos que são encaminhados para famílias carentes e outras instituições de ação social;

    3) Contribuindo mensalmente com a nossa Diocese através de determinado valor monetário, denominado Quota Diocesana, como parte de nossa contribuição para com o rateio de despesas da Diocese e da manutenção do clero diocesano; a comunidade começa a preparar-se para atender à solicitação da Diocese de, a médio prazo, ser capaz de contribuir com metade dos proventos do clero paroquial.  Nossa paróquia mesmo é uma Paróquia Subvencionada, ou seja, nosso clero paroquial é mantido com recursos diocesanos, advindos basicamente das contribuições em quotas de todas as comunidades. Entendemos que contribuir com a manutenção da Diocese é uma ação diaconal, uma vez que a Diocese é uma organização a serviço de suas comunidades.

   4) Nossa comunidade entende ainda como parte de sua Ação Diaconal a inserção nas campanhas e mobilizações populares do bairro de Santa Teresa e arredores. É comum nossas instalações servirem para reuniões das diferentes associações de moradores da região, especialmente o Conselho  de Ruas da AMAST (Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa), especialmente as Assembleias Gerais e Audiências Públicas promovidas pela Associação. Mesmo sendo uma comunidade dispersa pela cidade do Rio de Janeiro (temos membros que residem na Zona Oeste, na Zona Norte e até mesmo na Baixada) a Comunidade é bastante sensível aos problemas do bairro e totalmente solidária na defesa dos interesses do povo de Santa Teresa.

  5) O Atelier Paroquial , sob coordenação da eclesiana,  Sra. Lídia Crespo Correia, com apoio do Atelier Mãos que Fazem, promoveu, por muitos anos o curso de Patchwork em nosso salão paroquial. Hoje o Atelier continua funcionando como espaço onde mulheres oriundas dos cursos se reúnem para compartilhar experiências e confeccionar juntas seus trabalhos.

  6) Várias iniciativas sociais hoje existentes em Santa Teresa, germinaram a partir do apoio decisivo e total da Paróquia São Paulo Apóstolo, nos últimos 15 anos. Por exemplo, o Cine Santa (cinema de qualidade a preços módicos especialmente para os moradores no bairro), começou há 10 anos exibindo filmes em nosso templo paroquial nos sábados à tarde. Hoje o Cine Santa tem seu próprio ambiente, no Largo do Guimarães, uma sala confortável onde são exibidos o que há de melhor na produção cinematográfica brasileira e internacional.  Durante vários anos a Feira Ecológica em Santa Teresa funcionou semanalmente em nossas instalações; A Horta Comunitária do Morro da Coroa nasceu há quase 5 anos graças ao apoio total da Paróquia como responsável por um projeto submetido e apoiado pela Cooperação Ecumênica nacional e internacional. 

Arte-terapia no Morro dos Prazeres   7) Mais recentemente, a Paróquia promoveu um programa de Arte-terapia para mulheres vítimas de violência na Comunidade do Morro dos Prazeres, com parte dos recursos fornecidos pela Oferta Unida de Gratidão da nossa Igreja no Brasil. Esse projeto, coordenado pela Assistente Social,  Sra. Sandra Mônica da Silva Schwarzstein,  paroquiana e secretária da Junta Paroquial. O programa agora está em fase de avaliação e planejamento para ampliar sua abrangência, visando a criação de outro grupo que se reunirá no salão paroquial. Em breve publicaremos mais informações a respeito.

   8) O programa Música e Café na Igreja é também entendido como parte de nossa Ação Diaconal, pois é um serviço ao bairro e uma oportunidade para jovens artistas se apresentarem sem custos de produção. Pelo menos uma vez por bimestre a Paróquia promove em seu templo a apresentação de artistas e grupos musicais (inclusive dança) com entrada franca, sendo servido um cafezinho ao final, facilitando o convívio e a boa conversa.

   9) Nossa comunidade conta em sua congregação com quatro pessoas  profissionais na área do Serviço Social, que estão sendo desafiadas pela comunidade e pelos pastores a organizarem de forma efetiva a Ação Diaconal da Paróquia.

As Contribuições Regulares e as Ofertas que recebemos são direcionadas não só para a manutenção do serviço religioso, mas também para a Ação Social. Apesar dos poucos recursos que temos, nossa Comunidade compartilha-os em nome do Senhor Jesus  Cristo como testemunho do Seu amor e Sua misericórdia para com todas as pessoas. Nós entendemos que a Ação Diaconal é parte de nossa Missão e uma das nossas mais efetivas formas de evangelização.

Quando você contribui ou oferta para a Paróquia São Paulo Apóstolo sabe que o dinheiro oferecido é utilizado em nome do Senhor para o benefício da comunidade e da ação evangelizadora de presença e solidariedade. Muito obrigado a todos que, generosamente, partilham seus dons materiais, vocacionais e profissionais em nossa comunidade paroquial.

Rev. Luiz Caetano, ost+

Rev. Daniel Rangel, ost+

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10 maio 2013

Mordomia Cristã: nossa responsabilidade

Mordomia Cristã 2Mordomia é “cuidar da casa”! Mordomo é alguém a quem entregamos o cuidado da nossa casa. Após a Criação, Deus entregou tudo ao ser humano que, assim, se tornou Mordomo da Criação! Por isso, como cristãos, nos sentimos responsáveis pelo cuidado da Natureza e pela preservação da Vida em todas as suas manifestações.

Em certo sentido, enquanto comunidade, somos chamados a ser mordomos uns aos outros, ou seja, o bem estar de cada um de nós é responsabilidade de todos nós! Por isso, somos chamados a exercer a solidariedade, a partilhar nossos dons (dádivas de Deus), servindo uns aos outros da mesma forma como Deus foi solidário conosco enviando seu próprio Filho para servir como nosso Redentor!

Como cristãos somos chamados a exercer também a mordomia para com a Igreja. A Igreja, comunidade dos filhos e filhas de Deus em Cristo pelo Batismo, enviada por Cristo para anunciar o Evangelho, existe e atua no mundo, organizada como uma instituição e, portanto, precisa ser mantida e sustentada.

Como podemos fazer isso? De várias maneiras; hoje vamos ver uma delas:

A Manutenção e o Sustento da Igreja

Todos os membros da Igreja, especialmente aqueles que reafirmaram sua fé na Confirmação (Crisma) ou que foram recebidos à Comunhão da Igreja, são responsáveis pela manutenção e sustento da Igreja. Há várias maneiras de colaborar e todos nós somos chamados para isso.

a) Contribuição Regular: Veja bem: Deus não necessita de um Templo, nem de um salão paroquial, nem de pastores; Deus não precisa de nada disso. Mas nós necessitamos de um espaço sagrado, de um espaço para o convívio fraterno, de pastores e pastoras que nos sirvam como ministros e orientadores espirituais; gostamos de boa música nas celebrações, gostamos de ver o templo limpo, arrumado e decorado conforme nosso costume. Isso faz parte de nossa identidade denominacional, e nos localiza no tempo e no espaço enquanto comunidade confessante! Para manter tudo isso, cada membro da Igreja dá sua Contribuição Regular, um valor mensal que se destina exclusivamente para a manutenção da Igreja e o sustento do ministério e da Missão. Cada família, ou cada pessoa decide qual o valor que dará como Contribuição Regular, mensalmente ou conforme a sazonalidade que julgar conveniente à sua realidade. Esse valor será colocado em um envelope especial para o registro da contribuição, que será posto na salva por ocasião da Coleta nos ofícios, ou entregue diretamente ao Tesoureiro Paroquial. Você pode obter o envelope diretamente com o Tesoureiro ou qualquer membro da nossa Junta Paroquial (membros eleitos pela congregação para administrarem a Paróquia com o Pároco, com mandatos determinados). A Contribuição Regular informada é base para a gestão orçamentária da Paróquia. Converse com o Tesoureiro!

b) Ofertas durante os Ofícios: É importante que você saiba que as ofertas dadas por ocasião dos ofícios (coleta) não se destinam à manutenção da Paróquia exclusivamente. As coletas dos ofícios destinam-se às ações específicas da Comunidade: Diaconia (serviço e ação social), apoio a algum projeto diocesano ou nacional, instituições de caridade da Igreja ou de outras denominações, campanhas especiais, etc. A cada ofício anunciaremos a finalidade da coleta e o destino das ofertas recebidas. Oferta não substitui a Contribuição Regular!

c) Ofertas Especiais: É costume entre os episcopais anglicanos, em ocasiões especiais, dar-se uma oferta em ação de graças. Por exemplo, no Natal e na Páscoa, aniversário, formatura, matrimônio, etc. Nossa Paróquia não cobra pelos serviços religiosos prestados aos membros da comunidade (batizado, casamento, sepultamento, etc.); no caso de casamentos de pessoas não membros da comunidade,  a Junta Paroquial estabeleceu um valor que é destinado para o fundo de manutenção e conservação do templo. Quando recebido, esse valor é registrado como Oferta Especial em nossa Tesouraria e na Contabilidade.

d) Exerça seu ministério de serviço à Comunidade: Além da contribuição financeira, o membro da Igreja deve oferecer algum dom e um pouco do seu tempo para servir à comunidade. Por exemplo, você pode auxiliar na Liturgia, ser membro da Junta Paroquial, cuidar dos objetos do culto e da decoração do Altar, ajudar o Pároco na Educação Cristã da comunidade, prestar algum serviço na sua área profissional ou de conhecimento (por exemplo, música, saúde, contabilidade, manutenção de equipamentos ou do prédio, decoração do templo, do jardim, etc.). Há muitas oportunidades! Fale com os Pastores da Comunidade!

Este não é um artigo para pedir dinheiro para a Igreja. Nossa Paróquia, e a nossa Tradição não negocia com a Graça, nem faz barganhas com serviços religiosos. Ninguém deixa de receber os sacramentos, nem de participar das atividades da Igreja porque não é contribuinte.  Nossa Tesouraria publica, mensalmente,  no mural da Igreja todo o movimento financeiro da Paróquia.

Intencionalmente, não coloquei referências bíblicas sobre o assunto, embora a Sagrada Escritura, em diferentes textos, trate do tema; preferi abordar a Mordomia Cristã enquanto conceito ético e não obrigação religiosa.  A contribuição financeira para a Igreja é um sinal de compromisso e pertença real, movida pela vontade solidária de cada um. Cabe a você decidir se você é realmente parte da Igreja ou apenas se considera alguém consumidor de religião que dá uma esmolinha ou uma ajuda vez em quando…

Rev. Luiz Caetano, ost+

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28 novembro 2012

Fé, Justiça e Amor

Jesus caminhandoAinda pensando na festa “Jesus Cristo, Rei do Universo”, volto ao texto que relata Jesus entrando em Jerusalém, num jumento, com as multidões gritando e aclamando-o como rei:

         Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé e Betânia, perto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: "Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo que entrarem, encontrarão um jumentinho amarrado, no qual ninguém jamais montou. Desamarrem-no e tragam-no aqui. Se alguém lhes perguntar: ‘Por que vocês estão fazendo isso? ’ digam-lhe: ‘O Senhor precisa dele e logo o devolverá’". Eles foram e encontraram um jumentinho, na rua, amarrado a um portão. Enquanto o desamarravam, alguns dos que ali estavam lhes perguntaram: "O que vocês estão fazendo, desamarrando esse jumentinho?" Os discípulos responderam como Jesus lhes tinha dito, e eles os deixaram ir. Trouxeram o jumentinho a Jesus, puseram sobre ele os seus mantos; e Jesus montou. Muitos estenderam seus mantos pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam cortado nos campos. Os que iam adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana! "Bendito é o que vem em nome do Senhor!" "Bendito é o Reino vindouro de nosso pai Davi! " "Hosana nas alturas!" Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-se ao templo. Observou tudo à sua volta e, como já era tarde, foi para Betânia com os Doze.      (Marcos 11:1-11 – N.V.I)

O Sinédrio, vendo isso, conspirou para mata-lo porque, analisando mal a cena, achou que Jesus lidera uma revolta contra os poderes estabelecidos.

Assim, quando Jesus entra em Jerusalém, ele sabe que será visto como ameaça e haveriam reações fortes. Pois tem percepção que sua vida e ministério contrariavam os interesses dos poderosos. Seu ministério se tornou ação política porque questiona as prioridades, os valores e a legitimidade das autoridades políticas e religiosas, incapazes de servir o bem comum. No entanto, ele não entra em Jerusalém para tomar o poder, nem fazer parte da maquina política: ele não anseia por poder. Pois o Poder dele é outro: Disse Jesus: "O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui". (João 18.36)

Essa fina linha de coerência entre seu discurso e a sua prática nos mostra como devemos viver. Jesus nos desafia, tanto como indivíduos, como sociedade, a vivermos de acordo com os padrões de sua Mensagem, a Boa Nova, Boa Noticia que transforma a vida cotidiana em vida em abundância. Vida que, ao mesmo tempo, dá autonomia, liberdade e livre pensar. Jesus ensina que devemos ser altruístas: o serviço ao próximo sem ansiar retornos ou vantagens pessoais. Assim, ser discípulo de Cristo é andar um caminho que, incomodamos e sofremos reações decorrentes das nossas atitudes concretas.

Duas grandes tentações nos tiram deste caminho: primeiro, somos tentados a resolver os nossos problemas ou/e dos outros “espiritualmente”: o problema se torna subjetivo, isentando-me da agir por minha livre decisão, não permitindo uma atitude concreta, me tornado infantil e dependente emocional da “vida espiritual”. Em segundo lugar, somos tentados a idolatrar o poder e a desejá-lo, acreditando que, se o “nosso padrão” seja aceito – ou imposto aos outros – tudo será lindo e perfeito: assim poderemos controlar as pessoas mais facilmente. Esta cobiça pelo poder, afasta-nos da vivência do Evangelho e lança-nos em disputas mesquinhas pelo poder, esquecendo que o Poder é de Cristo.

Com isso a boa noticia fica diluída e desfigurada quando se permite que uma destas tentações triunfe em nossas vidas ou Igreja.

Nosso chamado é para sermos corajosos e fiéis, ao Evangelho e confiarmos sempre no amor de Deus orientando nossa vida, em testemunho que outra realidade é possível: a vida social sem corrupção, desmando e injustiça. O poder para livremente servir, como o Filho do Homem serve!

Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". (Marcos 10.45)

Rev. Daniel, ost+

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04 outubro 2012

Eleições! isso não é assunto da fé?

Cdigo Florestal 2 (julho 2011)Neste domingo teremos eleições municipais em nosso país. Somos convocados a exercer nosso direito e nosso poder como cidadãos. A Igreja, enquanto comunidade, não deve ficar alheia a isso, como se fosse algo “que nada tem a ver com a fé”! Pelo contrário, exercer a cidadania é dever ético de todas as pessoas cristãs, e é um imperativo da fé madura e vivida em comunhão profunda com Deus.
Evidentemente que a Igreja é um espaço político, uma vez que cada comunidade é formada por pessoas, e pessoas  reunidas – gostando ou não –  constituem por si só um fato político. Assim, a reflexão sobre os deveres e direitos cidadãos é parte da reflexão que a Igreja deve realizar, à luz da Palavra de Deus.  Entretanto, isso não significa que a Igreja (comunidade) deve determinar o voto individual de cada pessoa, e muito menos devem os clérigos induzirem suas comunidades a apoiar este ou aquele candidato, seja a que cargo eletivo for.
Exatamente por sermos um Estado Laico, os clérigos são primeiro Cidadãos (porque não nascem clérigos) e precisam exercer sua cidadania com transparência e devem SIM, por serem formadores de opinião, ajudar o povo de suas comunidades a exercer sua cidadania, como princípio ético. Não se trata de "obrigar" o voto, mas levar à uma análise crítica da realidade à luz da Palavra de Deus, o que é, de fato, o seu papel pastoral  na qualidade de teólogo com a comunidade. O que não se deve fazer, por ser antiético, é atrelar seu ministério a um projeto eleitoral que implique em "benefícios para a igreja", ou para o próprio pastor (como acaba acontecendo).
Esta tem sido a nossa postura pastoral – minha e do Rev. Daniel – aqui na São Paulo Apóstolo. Nossa comunidade sabe das opções políticas de seus pastores, mas não se sente pressionada por elas; a congregação tem em si mesma diferentes posicionamentos políticos, e isso é incentivado em respeito ao direito de livre pensamento e decisão de cada pessoa. Todavia, também incentivamos a reflexão sobre a situação do país e da cidade onde estamos. Nossa comunidade tem sido, historicamente. muito solidária e engajada nas lutas do povo que vive em Santa Teresa, e isso é entendido por nós como parte essencial de nosso testemunho cristão; tal postura não é de hoje, mas parte dos 95 anos de história da comunidade. A comunidade de São Paulo Apóstolo assume seu papel político no bairro, como parte de seu testemunho, sem medo mas em obediência e no temor a Deus.
Entendemos que o Poder Público não está isento de críticas, ou imune à análise crítica por parte dos cidadãos, uma vez  que as pessoas investidas de autoridade recebem um mandato, ou seja, uma permissão para exercerem o poder. Assim, precisam ser permanentemente avaliadas no exercício de sua autoridade de forma a manterem-se fiéis ao principio de zelarem e promoverem o bem comum da população, razão única porque foram eleitas. Todavia, estar exercendo o poder é uma situação de muita tentação! Por isso, cabe aos cidadãos vigiarem as autoridades, e – assim – cumprirem seu direito e dever de avaliar permanentemente essas autoridades. Eleições são um momento especial para isso.
Os princípios éticos que orientam os cristãos e cristãs são aqueles decorrentes do ensino do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo: mansidão, justiça, solidariedade, compaixão, misericórdia, honestidade, lisura, correção… Tais princípios devem servir como pano-de-fundo para a avaliação das autoridades e escolha dos candidatos que venham merecer o voto de uma pessoa que professa a fé cristã com maturidade e comunhão com Deus.
Lamentavelmente, nosso país é, historicamente, uma república muito jovem e nosso povo mal formado politicamente. Muitas pessoas, graças às campanhas massivas dos grupos que defendem Direitos Humanos, sabem seus direitos, mas poucos conhecem seus deveres! Também não temos uma organização político-partidária digna de confiança e transparência: votamos em pessoas sem nos preocupar com sua linha ideológica e opções políticas exatamente porque nada sabemos sobre os partidos políticos (que aliás primam em manter o povo desinformado sobre sua base ideológica e suas propostas – se é que alguns realmente as tenham!). Por isso, em nosso país, as coligações entre partidos são, algumas, absurdas, feitas visando interesses de grupos e não somar forças por ideais sociais reais e gerais.
Domingo, você, cristão ou cristã, deverá comparecer diante da urna para depositar seu voto. Seja coerente com a sua fé! Gaste um dia, ou algumas horas pelo menos, para refletir sobre os candidatos, procure conhecer as funções e deveres dos cargos eletivos, e acima de tudo ore buscando em Deus a inspiração para sua escolha. Não pense nas vantagens pessoais que possa vir a ter com a vitória de alguém nas urnas, mas pense o que seria melhor para a sua cidade. Afinal, você não é um ser isolado, mas vive em meio a outros.
Vote com ética!
Rev. Luiz Caetano, ost+

PS. - Sugiro que você leia o artigo imediatamente abaixo deste, uma reflexão sobre o Poder à luz do Evangelho. Talvez ajude sua reflexão.
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24 setembro 2012

O maior é o menor!

cristo_rey_2[1]“E chegaram a Cafarnaum. Quando ele estava em casa, perguntou-lhes: "O que vocês estavam discutindo no caminho?" Mas eles [os discípulos] guardaram silêncio, porque no caminho haviam discutido sobre quem era o maior. Assentando-se, Jesus chamou os Doze e disse: "Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos". (Marcos 9:33-35 – Nova Versão Internacional).

A afirmação de Jesus veio na contra-mão das expectativas de seu tempo, e também do nosso tempo. Que contradição: o maior deve ser o menor! o primeiro deve ser o último! Uma nova maneira de conceituar o poder: o poder é dado para que se possa servir! Autoridade como serviço, e portanto, subalterna ao bem comum!

Talvez seja por isso que a Igreja Cristã, a partir de determinado momento, organiza seu clero em três Ordens: diaconato, presbiterado e episcopado, uma ordem dada sobre a outra, sendo o diaconato a primeira a ser dada. Nós, episcopais anglicanos mantemos essa tradição, o que significa que todo nosso clero é formado por diáconos (servos), onde alguns diáconos são também presbíteros e outros diáconos são, além de presbíteros, bispos. Outras identidades eclesiais separam o diaconato do presbiterado, mas nós seguimos a Tradição que vem dos primeiros séculos da Igreja.

Entretanto, a afirmação de Jesus vai além da Igreja, é um alerta ao mundo. Somos (mal) educados, como cidadãos, a entender que a Autoridade é soberana (e o é), mas de forma absoluta. Confundimos, por exemplo, Governo (quem exerce a autoridade) com Estado (a organização social onde exercício da autoridade é delegado às pessoas que compõem o Governo); e assim nos acostumamos com a corrupção e com as trocas de favores: “vou votar em fulano de tal porque se eleito vai me dar um emprego!”; “não vou votar no sicrano porque quando foi prefeito não dava passagem de ônibus de graça para eu ir à cidade vizinha!”  como se o prefeito ou qualquer autoridade pudesse dar aquilo que não lhe pertence (é do Estado), mas está sob seu cuidado (administração, isto é, governo). 

Assim, entendemos a autoridade como sendo o maior e mais importante, e lhe atribuímos, por ignorância devida à nossa má educação, o poder absoluto de fazer o que quiser com o bem comum; então surgem as badalações, as trocas de favores, a corrupção. Achamos tudo isso normal, como se fosse natural que o mundo seja assim: alguns tomam o poder e favorecem os seus amigos e aliados e desprezam todo o resto da população.  Até mesmo para fazer uma obra em benefício da população, favorecem seus comparsas através da burla em licitações, permissão de superfaturamento, vista grossa quando a lei é ferida, etc. Vemos isso todos os dias denunciado pela imprensa e achamos tudo muito natural.

A Palavra de Jesus é muito clara e objetiva: a autoridade é para o serviço! Não é algo dado a uma pessoa para ela mesma, mas para capacitá-la ao serviço em benefício de todas as demais pessoas sob sua autoridade, em benefício do bem estar de todos!

Os cristãos, realmente comprometidos com a Palavra de Deus, têm o dever de exercer sua cidadania em plenitude e não se conformarem com o senso comum (o mundo).  É dever ético cristão, implícito nas palavras de Jesus que a comunidade de fé anuncie essa visão de poder, denuncie os que abusam do poder e testemunhe, através de sua atitude cidadã, a Palavra de Deus.

Isso começa no nosso universo pessoal: como exerço a autoridade em minha casa, na qualidade de pai ou de mãe? como exerço minha autoridade sobre aqueles que são meus empregados, ou subordinados no trabalho? Se me foi delegado um cargo de autoridade, por exemplo, síndico do prédio, diretor da associação do bairro, professor, diretor de escola, etc., como eu a compreendo? como eu exerço esse poder que me foi delegado?

Assim, começando em nossas relações familiares, passando pelas relações profissionais, vamos exercendo a cidadania não só neste mundo, mas sinalizando sermos cidadãos de um outro Reino, o Reino de Deus, o Reino daquele “… que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:6-8 – Nova Versão internacional).

Rev. Luiz Caetano, ost+

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19 julho 2012

Separado para servir!

No domingo, 22 de agosto, a Paróquia São Paulo Apóstolo hospedará a cerimônia de Ordenação ao Diaconato do Frei Fabiano Nunes, osb. Fabiano atua em nossa comunidade paroquial há alguns anos como Ministro Leigo e administra um amplo projeto de ação social diocesana na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro.

O Diaconato é a primeira ordem que recebemos quando ingressamos no Sagrado Ministério da Igreja. O Diaconato é a Ordem do Serviço, e o ministério diaconal é exatamente o ministério de servo da comunidade em nome de Cristo. O Presbiterado (sacerdócio ordenado) é dado ao Diácono, assim como o Episcopado é dado ao Presbítero. Ou seja, todos os sacerdotes (presbíteros) são diáconos, assim como todos os bispos são presbíteros e diáconos. Portanto, todo o ministério ordenado da Igreja repousa sobre o Diaconato, ou seja, repousa sobre a ordem dada para servir à comunidade da Igreja e ao mundo em nome do Senhor Jesus Cristo, sob a inspiração do Espírito Santo.

O ministério do Diácono é fundamentado em Atos dos Apóstolos, quando é decidido separar entre membros da comunidade gentílica, sete homens para dedicarem-se ao cuidado dos órfãos e das viúvas, ou seja, das pessoas mais necessitadas da comunidade (cf. Atos 6.1-7).

Sabiamente a Igreja, desde algum tempo, e retomando antiga tradição, incluiu as mulheres nas Ordens Sagradas, e assim temos hoje na Igreja Episcopal Anglicana diáconas e diáconos, como temos também Presbíteras e Bispas. Evitamos a palavra diaconisa, pois no tradição protestante este termo não tem o mesmo significado de uma Ordem Sacramental.

Uma vez que todas as demais Ordens são dadas sobre o Diaconato,  tanto o Presbiterado quanto o Episcopado devem ser exercidos de maneira diaconal, ou seja, como serviço à comunidade em nome de Jesus Cristo, e em testemunho do Evangelho.

Na Igreja Episcopal  Anglicana acontece o renascimento da vocação diaconal e uma reflexão teológica e pastoral buscando fortalecer o papel do Diácono na vida das dioceses. Durante algum tempo o Diaconato foi visto como um “estágio” anterior ao Presbiterado, mas hoje há uma visão que recupera o significado desse ministério específico de acordo com a Tradição herdada pela Igreja.  Surgem vocações que se destinam ao Diaconato especificamente, pessoas que não buscam o Presbiterado, mas querem colocar-se em serviço diaconal de forma permanente. Fabiano, desde o início, afirma sentir-se chamado à esta vocação especial de servir como Diácono sem almejar as demais ordens. A exemplo de Fabiano, outras pessoas começam a manifestar-se sentindo o mesmo chamado, não só em nossa Diocese como também em outras.

É preciso salientar que na nossa visão doutrinária sobre as Sagradas Ordens, adotamos o princípio estabelecido na Carta aos Hebreus, de que o Sacerdócio é único e pertence ao Senhor Jesus Cristo, o qual é delegado a todas as pessoas pelo Batismo. Assim,  ao separar pessoas para o exercício das Sagradas Ordens, a Igreja como um todo delega a essas pessoas o exercício de seu sacerdócio (de todos) para exatamente exerce-lo como serviço à comunidade e ao mundo. Assim, devemos entender que Diáconos, Presbíteros e Bispos são pessoas da comunidade, separadas pela comunidade e ordenadas para o serviço à comunidade, cada ministério em seu múnus específico.  Tais pessoas têm a grave responsabilidade de serem sinais da presença de Cristo na Igreja, e por isso é necessário que haja realmente uma vocação (chamado) inspirado pelo Espírito Santo para que uma pessoa receba as Sagradas Ordens com dignidade e humildade. A Igreja, sabiamente, reserva um tempo relativamente longo para que tal vocação seja testada e avaliada até que se concretize o momento em que a pessoa é separada para exercer o ministério ordenado em nome da Comunidade em em perfeita comunhão com o Senhor Jesus Cristo.

Colocamos Fabiano, assim como todas as pessoas vocacionadas diante de Deus, intercedendo para que seu ministério seja realmente sinal da Presença do Cristo Vivo e da Bênção de Deus em nossa diocese e Igreja. Após sua ordenação, Fabiano será nomeado pelo Bispo Diocesano para servir às comunidades do Mediador e Bom Jesus, ambas na Zona Oeste da nossa cidade. Fabiano deixa a São Paulo Apóstolo com a mesma dignidade que sempre mostrou no seu longo período de ministério conosco e leva nossa gratidão e saudade.

Rev. Luiz Caetano, ost+

Rev. Daniel, ost diácono

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28 março 2012

A escassez se vence com a partilha!

Multiplicação 1      A Páscoa, a festa principal dos judeus, estava perto. Jesus olhou em volta de si e viu que uma grande multidão estava chegando perto dele. Então disse a Filipe: — Onde vamos comprar comida para toda esta gente? Ele sabia muito bem o que ia fazer, mas disse isso para ver qual seria a resposta de Filipe. Filipe respondeu assim: — Para cada pessoa poder receber um pouco de pão, nós precisaríamos gastar mais de duzentas moedas de prata.Então um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse:  — Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos. Mas o que é isso para tanta gente? Jesus disse: — Digam a todos que se sentem no chão. Então todos se sentaram. (Havia muita grama naquele lugar.) Estavam ali quase cinco mil homens. Em seguida Jesus pegou os pães, deu graças a Deus e os repartiu com todos; e fez o mesmo com os peixes. E todos comeram à vontade. Quando já estavam satisfeitos, ele disse aos discípulos: — Recolham os pedaços que sobraram a fim de que não se perca nada.Eles ajuntaram os pedaços e encheram doze cestos com o que sobrou dos cinco pães. Os que viram esse sinal de Jesus disseram: — De fato, este é o Profeta que devia vir ao mundo! Jesus ficou sabendo que queriam levá-lo à força para o fazerem rei; então voltou sozinho para o monte.          (João 6.4-15)

Quando lê esse texto, muita gente fica imaginando Jesus fazendo aparecer pão e peixe do nada a fim de alimentar todas aquelas pessoas que O estavam acompanhando. Mas eu sempre achei que se assim tivesse acontecido, seria muito injusto, muito mesmo! Afinal, ele resolveu o problema daquelas pessoas, mas e as outras milhares que, em seu tempo também sentiam fome? e os bilhões de pessoas que hoje morrem de fome? Milagrezinho safado esse de Jesus… parece até coisa da tal filosofia safada da prosperidade que enriquece os mercadores da fé!

Entretanto, não foi isso que aconteceu. O alimento que saciou a fome de todas aquelas pessoas não surgiu do nada. Houve alguém que ofereceu o que tinha para ser partilhado. Não fosse aquele menino estar disposto a dividir seus pães e peixes, Jesus não teria feito o SINAL! (no Evangelho de João, nos manuscritos antigos em grego, a palavra milagre praticamente não aparece, mas sim a palavra SINAL)

Jesus começou a dividir e distribuir o pouco que aquele menino tinha para oferecer… e então sim aconteceu o milagre: quem tinha algo partilhou com quem não tinha e então todos experimentaram a fartura, a ponto de sobrar! Eu acho que, isso sim, é um milagre porreta, como dizem lá em Recife. E muito justo! e não resolveu só o problema daquelas pessoas.

O menino apenas tinha lá seus pães e peixes; deixou que Jesus os distribuísse entre os que estavam por perto. Com certeza o menino não comeu cinco pães e dois peixes, muito menos dez pães e quatro peixes. Comeu menos do que tinha, mas comeu e ficou saciado. Mas outros que nada tinham também ficaram saciados. E ainda puderam levar o que sobrou para partilhar em sua casa.

Um SINAL para todas as épocas: dividindo, se multiplica! a quebra dos paradigmas do egoísmo: “primeiro eu!”, “isso é meu!”, e rejeitando a hipócrita resposta de muitos que se dizem cristãos: “_ Vou orar por você, é assim que posso ajudar. Deus vai resolver tua dificuldade, tenha fé!”  ou o que é pior: “Faça a sua doação para o nosso ministério que Deus multiplicará para você” (e quem enriquece é o charlatão, apesar da blasfêmia).

Nosso mundo é um mundo de fartura. Se olharmos bem as estatísticas que mostram a produção de riquezas, veremos que produzimos muito mais do que necessitamos. Todavia, somos movidos pela ganância e pelo espírito (diabólico) de rapina. O lixo das nossas cidades está cheio de alimento de boa qualidade, enquanto milhões não tem o que comer.  Terras produtivas ficam anos sem uso, acumulando valor especulativo para um futuro empreendimento que criará mercado, enquanto milhões de pessoas não têm onde trabalhar e produzir comida para si mesmas. Moradias ficam fechadas esperando melhor oportunidade de preço de aluguel ou venda, e milhões não têm onde morar com dignidade. Roupas de “grife” custam muito dinheiro, acumulando  lucro cruel para seus proprietários que enriquecem à custa de mão-de-obra escrava ou mal remunerada. A ciência médica é avançadíssima em nosso tempo, mas milhões morrem de doenças elementares. Nosso mundo é lugar onde poucos acumulam tudo e a grande maioria vive de migalhas.

Em matemática, dividir significa multiplicar pelo inverso.  Isto é, dividir um número por 3 significa multiplicar esse número pelo inverso de três. Assim, dividir é multiplicar pelo inverso: dividir dons é multiplicar pelo inverso do egoísmo, ou seja, dividir é multiplicar pela solidariedade. Por isso, dividindo, se multiplica! Um milagre matemático!

Jesus pergunta a você hoje: “Como alimentaremos tanta gente? como poderemos melhorar a vida de tanta gente? Como vamos curar tanta gente? Como podemos diminuir a tristeza de tanta gente?”

O que você tem a oferecer para ser partilhado? que dons você pode colocar nas mãos do Cristo, no exercício da divisão que é multiplicação?

Luiz Caetano, ost+

NOTA: Agradecemos os e-mails que nos são enviados comentando favorável ou desfavoravelmente as postagens deste blogue. Mas preferimos que você comente aqui mesmo, partilhando suas ideias com outras pessoas. Nós publicamos todos os comentários, inclusive os anônimos, exceto quando um comentário seja ofensivo à dignidade humana ou à nossa comunidade – mas mesmo assim, respondemos com misericórdia quando o autor se identifica.

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23 março 2012

Vida de Pastor

(aos seminaristas de hoje que realmente querem servir o Povo de Deus e não faturar no negócio religioso)

Nota: este texto foi publicado em meu blog pessoal, mas por sugestão de vários colegas e paroquianos, estou partilhando no O Apóstolo, com as devidas adaptações.

Novo sentido espiritualidade 01Quando estudava no Seminário, em São Paulo, tirávamos algumas tardes de sábado e nos reuníamos, alunos e professores, para um bate papo informal, onde o que mais acontecia era a troca de experiências e um partilhar da vida.  Bons tempos em que a gente partilhava sentimentos, emoções, esperanças e fracassos com pessoas reais, olho no olho, e não nas redes sociais.  Eu costumava anotar algumas coisas em um caderno, as coisas que chamavam a atenção, que marcavam o coração… uma espécie de registro de momentos e palavras que impressionaram minha vivência aos 22 anos.

Esses caderninhos guardo até hoje, são minha memória afetiva e intelectual.

Lembro especialmente de uma tarde, o grupo não era grande, umas sete ou oito pessoas, e o papo com um velho professor, já falecido...

O assunto correu e chegou na “vida de pastor”… o nosso professor contou algumas de suas vivências, em alguns casos rimos muito, mas de repente nos saiu com essa: (tradução dos meus garranchos no caderno e devidamente editado para ser uma postagem)

Vários de vocês estão aqui estudando porque almejam seguir o ministério ordenado. Não sei se têm ideia da loucura que estão querendo. Isso não é profissão, mas é vocação.  Não é uma carreira, mas é um caminho que sempre nos leva para um lugar sombrio: a alma humana. A tua alma e a alma dos outros.

Você precisa estar prevenido, porque aqui no Seminário, tudo é sonho e projeto, mas lá, no exercício do ministério, na solidão que isso é, a coisa é muito diferente.

Logo de início aviso que felicidade no casamento vai ser algo difícil, a menos que você encontre a esposa certa (naquele tempo mal se falava em ordenação de mulheres), que não deve ser prioritariamente crente mas tem de ter um espírito de abnegação grande e não ser ambiciosa. Um pastor é quase como um médico: tem plantão 24 horas todos os dias, inclusive domingos! Depois do culto, pode acontecer que àquele almoço na casa da sogra, tua esposa e os filhos vão, e você não vá porque a Dona Maricota foi internada e está mal, a família pede sua presença para acompanhar a situação, só que o hospital é exatamente aquele que fica do outro lado da cidade, você não tem carro e provavelmente vai passar lá o resto do dia, quando não a noite também. E, pode ter certeza, sempre aparecerá uma Dona Maricota ou uma emergência pastoral no dia do aniversário da tua esposa, dos teus filhos, no do casamento, no seu mesmo, ou no dia da confraternização da escola das crianças.

Muitas vezes você vai ficar angustiado porque teu soldo é pequeno, e teus filhos querem coisas que você não pode comprar. Tirar férias será sempre um tormento, a preocupação com a igreja e com quem poderá substituir você nesse tempo. Acostumem-se a tirar férias curtas mas pelo menos duas vezes por ano, porque ninguém é de ferro.

As pessoas da Igreja e mesmo de fora da Igreja serão exigentes com você. Você não tem o direito de errar, de ficar triste, de ter dúvidas… ninguém pensa que um pastor também precisa de um pastor, e o Bispo, que deveria fazer isso no mínimo, geralmente não faz; até porque o Bispo também precisa de um pastor, e muito.

Você terá de ser sempre o amigo, o ouvinte, o solidário, o pau-pra-toda obra. Ninguém estará interessado nos problemas que você tem, mas todos querem que você se interesse pelos problemas deles. Poucas vezes você terá um amigo, um ouvinte, alguém solidário, alguém que se ofereça para ajudar você na obra.  Você será a latrina onde as pessoas jogarão suas merdas interiores… então ai, lembre que o Cristo é bom faxineiro e sempre virá para dar a descarga. Nunca compartilhe essas merdas, deixei que o Faxineiro cuida delas, e ele tem muitas maneiras de fazer isso… com o tempo vocês entenderão. Coloquem sempre essas coisas ao pé da Cruz de Cristo e jamais comentem com ninguém, nem mesmo com quem falou com você.

Vocês dirão que Cristo é o pastor de vocês, isso é bonito, mas no dia a dia orem para que Ele seja pastor de vocês através de alguém que possa te abraçar sem medo, te ouvir e compreender que você é humano, tem sentimentos, sonhos, desejos, frustrações e também é pecador. Cercado de muita gente, o pastor está imerso em uma solidão tremenda. Nem mesmo seus colegas estarão disponíveis, por isso cuide que a burocracia da igreja não destrua as amizades que você está construindo aqui no Seminário; não se deixe contaminar pela inveja e pelo espírito de concorrência; seja humilde e lembre-se que você e todos que são pastores, são apenas servos de UM OUTRO, o verdadeiro e único Pastor.

Pense bem antes de aceitar a ordenação. Mas saiba que, se Deus te escolheu, Ele estará contigo sempre, até mesmo na tua fraqueza e no teu pecado. Por isso, reserve sempre parte do teu tempo em solidão, escrevendo, meditando, lendo, e orando, para ouvir a voz do Senhor.

Após 26 anos de vida no ministério ordenado, mesmo tendo passado a maior parte desse tempo servindo à Igreja em funções mais específicas, eu entendo e muito bem, as palavras do velho professor. Sei o quanto ele estava certo. É uma pena que hoje em dia a maioria dos que se dizem pastores são empresários da religião; pena que virou profissão.

Que Deus nos ajude!

Luiz Caetano, ost+

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08 março 2012

Cuidando da Casa da Comunidade, nosso templo!

(publicado originalmente em Pirilampos e Pintassilgos, em  25 de abril de 2011; adaptado)
celtas_thumb[8]Os celtas antigos não construíam templos; para eles, nenhuma construção humana pode conter o Divino, a não ser o próprio templo que a Divindade construiu para si mesma, ou seja, a Natureza. Assim, a religião da Antiga Tradição realizava todos os seus ritos a céu aberto. Em se tratando de uma religião da natureza, isso é bastante lógico e óbvio.
Mas os cristãos, desde muito cedo, celtas ou não celtas, constroem sua igrejas, templos onde a Divindade não habita exclusivamente, mas que se torna um espaço separado – sagrado – onde a comunidade se reúne para o louvor e a adoração. Para os cristãos, a Divindade caminha conosco na História; assim é o Deus que se revela na Bíblia. É a comunidade, não a Divindade, que necessita do templo para viver melhor sua experiência existencial com o Divino. Assim, no decorrer da História, a Igreja do Oriente e do Ocidente construiu templos das mais variadas formas, dos mais variados estilos, desde as muito simples capelas e ermidas até as grandes catedrais góticas. Todas elas como espaços de oração, vivência comunitária e descanso,  em testemunho do amor e da glória de Deus.
DSC00972O templo da São Paulo Apóstolo é uma obra de arte arquitetônica e um dos mais belos templos da Igreja Episcopal no Brasil, um templo construído entre os anos 20 e 30 do século passado, quando as técnicas de engenharia não contavam ainda com o concreto armado, tijolos refratários, tubulações seguras para a eletricidade, a água e os esgotos, cuja ventilação é totalmente dependente do desenho, ou seja, um prédio de manutenção complicadíssima e muito cara!
DSC00955E isso agravado pelo fato que, por mais de 30 anos, por diferentes razões, o edifício não recebeu manutenção adequada e ainda por cima sofreu, há alguns anos, a ação de um raio em forte temporal, estando com sérios problemas estéticos e funcionais, necessitando de restauração geral cujo orçamento está muito além dos recursos da comunidade ou mesmo da Diocese. Por isso, estamos cuidando de conseguir o tombamento do edifício, não só pelo seu valor histórico em Santa Teresa mas também como garantia de manutenção patrocinada permanente.
Uma questão se coloca na consciência de qualquer cristão: é realmente importante a preservação e a conservação deste templo? vale a pena buscar recursos de monta para isso diante de tantas urgências que se colocam para a Igreja?
Como comunidade paroquial afirmamos que a manutenção deste templo, sua restauração e conservação é – também – uma urgência para a Igreja. São vários os motivos que justificam tal postura ética.
Em primeiro lugar, a comunidade necessita do espaço sagrado para sua vida de adoração, estudo e convívio. Claro que para isso bastaria um espaço simples e barato, mas nós recebemos este templo como herança dos ancestrais da comunidade, as gerações que antes de nós e sob a mesma identidade (Igreja de São Paulo Apóstolo) construíram e partilharam esse templo em sua caminhada na história.  Honrar essa memória e essa história é uma responsabilidade que a comunidade de hoje tem e a de amanhã terá de assumir, bem como toda a comunidade maior da Igreja (Diocese e Igreja nacional).
INTERIOR DO TEMPLO PEQEm segundo lugar, o templo da São Paulo Apóstolo é parte da história de Santa Teresa, parte de sua herança arquitetônica, e um dos mais belos edifícios religiosos do Rio de Janeiro pela sua simplicidade e ao mesmo tempo grandiosidade! (características do estilo gótico: simplicidade decorativa, iluminação e grandiosidade estética). Além de ser uma referência turística, o templo e o complexo paroquial têm servido como espaço de serviço e acolhimento de muitas iniciativas da população do bairro. A comunidade, de formação ecumênica, abre o seu espaço sagrado para outras atividades, especialmente culturais e artísticas e até mesmo como local de repouso e acolhida, como testemunho do amor de Deus por todas as pessoas, o Deus que não exclui mas que busca ser presença e companheiro de cada ser humano.
Em terceiro lugar, é dever da comunidade preservar o seu patrimônio, patrimônio da Igreja Diocesana, construído com as ofertas generosas recebidas de seus membros e irmãos e irmãs de outras comunidades pelo mundo.
Com a graça de Deus temos conseguido, como comunidade paroquial e diocesana,  com a ajuda de muitos amigos e amigas, enfrentar o desafio e preservar com gratidão o legado que recebemos dos pioneiros que deram início à Missão de São Paulo Apóstolo no morro de Santa Teresa em 1917, e das seguidas gerações que mantiveram este templo aberto a serviço de Deus e acolhendo todas as pessoas.
Nosso sonho é ter nosso templo totalmente restaurado em 2017, ano do centenário da comunidade! Se você deseja contribuir com essa causa, entre em contato conosco!
Rev. Luiz Caetano, ost+
Note bem: Nossa administração é plenamente transparente! O relatório mensal da Tesouraria está sempre disponível no mural interno de templo, e em breve estaremos divulgando o mesmo na Rede Mundial, de forma a permitir o acesso publico às nossas informações financeiras. A Paróquia é administrada pela Junta Paroquial, composta por membros plenos da Igreja, eleitos em Assembleia Paroquial, de acordo com a ordenação canônica da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, que supervisiona a administração paroquial. Não cobramos serviços religiosos, e a Paróquia é mantida pela Contribuição Regular de seus membros, ofertas especiais recebidas de pessoas e instituições do Brasil e do mundo, além da importante subvenção da Diocese, para quem também damos modesta contribuição como Quota Diocesana, formando o recurso que é distribuído em bens e serviços para todas as comunidades. Parte significativa das coletas nos ofícios religiosos regulares é destinada a entidades de serviço social com quem temos parceria e outros projetos sociais comunitários. Os proventos do Pároco são garantidos pela Diocese (somos subvencionados); nosso Coadjutor presta seu serviço voluntariamente, recebendo apenas uma ajuda de custo para transporte. Todas as despesas da casa paroquial são patrocinadas pelo próprio pároco, por opção do mesmo. Tudo que temos e fazemos, é pela graça de Deus e a solidariedade que anima o povo cristão (Igreja) de todo o mundo.
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20 fevereiro 2012

Jesus manda o diabo plantar batatas!

Tentação de JesusNos Evangelhos chamados sinópticos (Marcos, Mateus e Lucas) há uma referência ao fato de Jesus ter sofrido uma grande tentação no deserto, após seu batismo por João Batista. Marcos faz apenas uma menção a isso, mas Mateus e Lucas narram com detalhes, informando que o diabo apresenta três propostas diferentes para Jesus submeter-se a ele, diferindo apenas na ordem das propostas. Vamos seguir o texto de Mateus (4.1-11). A partir do texto (em itálico) vamos ver como Jesus liquida com três grandes paradigmas  (aquilo que é aceito como normal e costumeiro, valores morais entendidos como absolutos) que inspiram nosso senso comum.

13 novembro 2011

Jesus Cristo, Rei do Universo

cristo_reiA Festa de Cristo Rei encerra o ano litúrgico da Igreja, é celebrada no último domingo do Ano Cristão. É uma festa móvel, pois o calendário litúrgico é organizado a partir da Páscoa, que depende do ciclo anual da Lua. Este ano a Festa de Cristo Rei acontece no domingo 20 de novembro.
A Igreja termina assim o ano litúrgico, que começa no Domingo do Advento (este ano, dia 27 de novembro) com o anúncio da vinda do Redentor, afirmando a vitória e o reinado de Cristo. No tempo litúrgico a festa simboliza o final da História com a chegada do Reino.
A afirmação que Jesus Cristo é o Rei do Universo completa o ciclo de pregação do Evangelho. O Advento fala de Esperança com a vinda do Menino, celebrado no Natal e manifesto no tempo da Epifania. O Tempo da Quaresma se interpola em seguida, para recordar à Igreja o Mistério do Cristo Senhor que, sob a forma de Servo, carrega conosco a cruz da existência, com nossas dores e frustrações, consolando e abrindo caminhos de libertação para todas as pessoas. A Páscoa celebra essa esperança que se concretiza no testemunho do Cristo Ressuscitado, encerrando-se o ciclo Pascal com a Festa da Ascensão do Senhor. Em seguida vem o tempo de Pentecostes, também chamado de Tempo Comum, período em que a Igreja reflete sobre os atos de Jesus, seu ensino e pregação, sua caminhada na História humana. É esse período de pós-Pentecostes que se encerra na festa de Cristo Rei, consumando assim o ciclo de esperança e vitalidade que anima os cristãos.
Dar a Jesus Cristo o título de Rei do Universo é uma maneira de afirmar seu Senhorio, é afirmar que Ele é o Senhor! Mas que Senhor é Ele?
Os primeiros cristãos foram perseguidos pelo Império Romano não exatamente por causa da sua religião, mas pela forma como confessavam a sua fé. Afinal, no Império Romano, mais que hoje, havia total liberdade religiosa. O Império dependia da arrecadação de impostos, especialmente nas terras estrangeiras conquistadas. Isso só seria conseguido sem grandes problemas, mantendo-se os povos conquistados em paz com o Império e até mesmo gostando de ser parte do Império. Havia de ser garantido a qualquer custo, o pão e o circo! Nesse sentido, os Romanos sempre souberam respeitar as culturas dos povos submetidos ao Império e assim, as respectivas religiões.
Havia uma única exigência: a submissão ao Imperador, que era chamado de Pontifex Maximus, um titulo que lhe dava autoridade suprema sobre todas as religiões! como se o Imperador fosse o Sumo Sacerdote de todas as religiões praticadas no Império.  Ao mesmo tempo, o Imperador também tinha o título de Kyrius (Senhor Supremo), ou seja, tudo estava debaixo de seu poder e sua autoridade.
Isso era problemático em se tratando dos cristãos. Em primeiro lugar a consciência de que o Sacerdócio é único em Cristo. Assim, todos os cristãos e cristãs são sacerdotes – cabendo ao clero exercer esse sacerdócio por delegação da comunidade onde serve, ou seja, não há outro sumo sacerdote senão Jesus Cristo. Também o Imperador estava sob a autoridade do Sacerdócio de Cristo. Em segundo lugar, os cristãos davam a Jesus Cristo o título de Kyrius, Senhor Supremo! e assim, o Imperador estava também sob a autoridade moral e política de Cristo!
Pode-se perceber o quanto isso ameaçava a solidez do Império. Ao afirmar que há um único Kyrius e que este é Jesus Cristo, todas as pessoas ficam no mesmo nível: todas são igualmente submissas à autoridade suprema de Cristo – o Filho de Deus, o Deus Encarnado na História e na sociedade humana. Não haviam mais senhores e escravos, nem inimigos, pois todos estavam sob o reinado de Cristo. Por isso, soldados cristãos se negavam a combater contra outros soldados cristãos… até a disciplina militar estava ameaçada!
Portanto, os cristãos significavam um risco político muito sério, pois o poder absoluto do Império era negado! e isso se tornava uma grande ameaça. Por isso, antes de serem condenados, os cristãos presos eram chamados a cuspir ou a pisar a figura de Cristo. Se isso fizessem estavam demonstrando que não O consideravam Senhor Absoluto… se não fizessem isso, eram condenados à morte. Esta é a razão do martírio de muitos cristãos na Igreja dos primeiros séculos: não se submetiam de forma absoluta ao poder de César e seu Império.
Podia-se crer no que se quisesse, podia-se adorar ao deus que se desejasse, desde que a submissão ao Imperador e assim, ao Império, não fosse questionada nem negada.
A famosa frase “Jesus Cristo é o Senhor!”, que há alguns anos aparecia pichada em paredes e nas rodovias, e hoje é tristemente utilizada na mercantilização do sagrado, é exatamente a expressão da fé da Igreja de Cristo  desde seus primórdios.
Assim, festejar Jesus Cristo como Rei do Universo é afirmar que todos os impérios e todos os poderes humanos, de todos os tempos e lugares, não são superiores a Jesus Cristo, Deus Encarnado, O Senhor!  Não há poder absoluto acima de Deus, e Jesus Cristo, “sentado à direita do Pai” (no dizer dos Credos, significando que exerce o poder de Deus) é o Senhor.
É essa mesma fé que confessamos hoje e sempre, como cristãos, e esse é o sentido da festa do Cristo Rei. Ao término do ciclo anual da Liturgia, a Igreja reafirma – como sempre fez desde o princípio – que sua própria existência está subordinada ao Cristo e não a qualquer poder humano, civil, militar ou religioso.
As pessoas que detém autoridade na Igreja, sejam membros do clero ou do laicato, exercem essa autoridade como serviço à comunidade de fé, e não como afirmação de si mesmos. Todo desvio disso é herética e pecaminosa.  Assim também devemos entender que as autoridades constituídas para gerir os assuntos do Estado, em nome do povo, não exercem essa autoridade para si mesmas, mas como serviço aos cidadãos e cidadãs.
A Festa de Cristo Rei no obriga a refletir e avaliar como exercemos o poder em nossas realidades cotidianas, como exercemos a autoridade que nos é delegada (como pais, como professores, como chefes em uma empresa, como patrões, como pastores, etc.) e também como as autoridades que constituímos exercem esse poder. 
A Festa do Cristo Rei nos obriga, partindo da nossa confissão de fé,  a uma reflexão crítica sobre cidadania!
Rev. Luiz Caetano, ost+
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08 agosto 2011

Renova, Senhor, a tua Igreja …

OrandoRenova, Senhor, a tua Igreja, começando por mim!”; a frase é conhecida nos devocionais ecumênicos como Oração dos Cristãos Chineses. Não sabemos exatamente sua origem, mas isso agora não importa.

Essas palavras foram escolhidas pelo nosso Bispo Diocesano como Lema do 70º Concílio da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, que acontecerá em Araras, município de Petrópolis, ao final deste mês de agosto.

Mais que uma transformação, esse brado clama por uma renovação da Igreja, um nascer de novo!  O nosso Bispo, portanto, ao apresentar este lema conciliar, pretende que o Concílio promova o novo nascimento da nossa Diocese.

Uma Diocese, na concepção eclesiológica da nossa Tradição, é a Igreja Local de uma região geográfica, formada por comunidades interdependentes, que são denominadas Paróquias, Missões e pontos Missionários. Além disso, uma Diocese é um corpo de pessoas, clérigos e leigos, reunidas em torno de seu Bispo (ou Bispos, quando há Sufragâneos, Coadjutores ou Auxiliares) que formam a Igreja em expressão total de sua catolicidade, caminhando com o Espírito Santo em Missão, anunciando e testemunhando diante do mundo o Senhorio de Jesus Cristo, o Reinado de Deus.

Renovar, portanto, é tornar isso novo, ou seja, retornar ao princípio fundante de toda e qualquer diocese, dentro de nossa concepção eclesiológica. É sempre bom sermos chamados a ‘re-novar’  nossa identidade como diocese, de tempos em tempos. Acabamos nos acostumando a pensar a Diocese como uma estrutura institucional, e a reduzimos a isso com o passar do tempo, e perdemos o real significado que dá sentido a tal organização institucional.

Uma diocese não é uma federação ou confederação de paróquias ou comunidades que formam a Igreja. Na verdade, a Diocese é a expressão da Igreja, é a Igreja! as comunidades são sinais da presença da Igreja nos lugares onde estão. Portanto, Paróquias, Missões e Pontos Missionários, não são entidades autônomas, independentes, isoladas, mas interdependentes e devem praticar, acima de tudo a solidariedade e o suporte mútuo na caminhada da Missão (cf. Efésios 4.1-6, onde o verbo “suportar” aparece no grego com o significado de “base de apoio”, e não com o sentido de “aturar”, como julgam algumas pessoas intolerantes).

Somos uma Igreja Episcopal, não somos congregacionais. Isso é fator da nossa identidade e da herança que recebemos de nossos ancestrais na Tradição Anglicana e Episcopal. Na Igreja Cristã existem outros modelos eclesiológicos que são congregacionais, como há os modelos sinodais. Todos esses modelos são expressões da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica de Cristo. Nós, episcopais anglicanos, somos uma pequena parte dessa Igreja de Cristo, e seguimos o modelo episcopal, que não é melhor nem pior que outros, mas é um dos pilares de nossa identidade.

O Concílio Diocesano é, portanto, o momento ímpar em que a Diocese está reunida para oração, estudo, reflexão e planejando sua vida para o futuro. Não deixa de ser um evento político; é fundamentalmente, um evento eclesial – por isso é político! Todo o clero e os delegados das comunidades estarão reunidos com o Bispo em oração, solidariedade, mansidão, com o coração e a mente abertos para permitir que o Espírito Santo nos torne novas criaturas em Cristo, re-novando-nos, começando em cada um de nós, e se estendendo pelas comunidades que dão corpo à nossa Igreja Diocesana.

Oremos para que o Senhor da Igreja presida o Concílio e nos prepare em espírito e verdade para esse momento.
Rev. Luiz Caetano, ost+
Rev. Daniel, ost (diac)
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PS.: data do Concílio: 26 a 28 de agosto; retiro do clero: 25 e 26 de agosto
Os delegados da nossa Paróquia serão Lídia e Alberto Correia, cf. decisão da Junta Paroquial.
No Domingo Conciliar, 28 de agosto, o Culto Paroquial será dirigido pelo Fr. Fabiano - Oração Matutina.
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16 janeiro 2011

Mordomia Cristã

Mordomia é “cuidar da casa”! Mordomo é alguém a quem entregamos o cuidado da nossa casa. Após a Criação, Deus entregou tudo ao ser humano que, assim, se tornou Mordomo da Criação! Por isso, como cristãos, nos sentimos responsáveis pelo cuidado da Natureza e pela preservação da Vida em todas as suas manifestações.
Em certo sentido, enquanto comunidade, somos chamados a ser mordomos uns aos outros, ou seja, o bem estar de cada um de nós é responsabilidade de todos nós! Por isso, somos chamados a exercer a solidariedade, a partilhar nossos dons (dádivas de Deus), servindo uns aos outros da mesma forma como Deus foi solidário conosco enviando seu próprio Filho para servir como nosso Redentor!
Como cristãos somos chamados a exercer também a mordomia para com a Igreja. A Igreja, comunidade dos filhos e filhas de Deus em Cristo pelo Batismo, enviada por Cristo para anunciar o Evangelho, existe e atua no mundo, organizada como uma instituição e, portanto, precisa ser mantida e sustentada.
Como podemos fazer isso?
A Manutenção e o Sustento da Igreja
Todos os membros da Igreja, especialmente aqueles que reafirmaram sua fé na Confirmação (Crisma) ou que foram recebidos à Comunhão da Igreja, são responsáveis pela manutenção e sustento da Igreja. Há várias maneiras de colaborar e todos nós somos chamados para isso.
Contribuição Regular
Veja bem: Deus não necessita de um Templo, nem de um salão paroquial, nem de pastores; Deus não precisa de nada disso. Mas nós necessitamos de um espaço sagrado, de um espaço para o convívio fraterno, de pastores e pastoras que nos sirvam como ministros e orientadores espirituais. Isso faz parte de nossa identidade denominacional, e nos localiza no tempo e no espaço enquanto comunidade confessante! Para manter tudo isso, cada membro da Igreja dá sua Contribuição Regular, um valor mensal que se destina exclusivamente para a manutenção da Igreja e o sustento do ministério e da Missão. Cada família, ou cada pessoa decide qual o valor que dará como Contribuição Regular, mensalmente ou conforme a sazonalidade que julgar conveniente à sua realidade. Esse valor será colocado em um envelope especial para o registro da contribuição, que será posto na salva por ocasião da Coleta nos ofícios, ou entregue diretamente ao Tesoureiro Paroquial. Você pode obter o envelope diretamente com o Tesoureiro ou qualquer membro da nossa Junta Paroquial (membros eleitos pela congregação para administrarem a Paróquia com o Pároco, com mandatos determinados). A Contribuição Regular informada é base para a gestão orçamentária da Paróquia. Converse com o Tesoureiro!
Ofertas durante os Ofícios
É importante que você saiba que as ofertas dadas por ocasião dos ofícios (coleta) não se destinam à manutenção da Paróquia exclusivamente. As coletas dos ofícios destinam-se às ações específicas da Comunidade: Diaconia (serviço e ação social), apoio a algum projeto diocesano ou nacional, instituições de caridade da Igreja ou de outras denominações, campanhas especiais, etc. A cada ofício anunciaremos a finalidade da coleta e o destino das ofertas recebidas. Oferta não substitui a Contribuição Regular!
Ofertas Especiais
É costume entre os episcopais anglicanos, em ocasiões especiais, dar-se uma oferta em ação de graças. Por exemplo, no Natal e na Páscoa, aniversário, formatura, matrimônio, etc. Nossa Paróquia não cobra pelos serviços religiosos prestados aos membros da comunidade (batizado, casamento, sepultamento, etc.).
Exerça seu ministério de serviço à Comunidade
Além da contribuição financeira, o membro da Igreja deve oferecer algum dom e um pouco do seu tempo para servir à comunidade. Por exemplo, você pode auxiliar na Liturgia, ser membro da Junta Paroquial, cuidar dos objetos do culto e da decoração do Altar, ajudar o Pároco na Educação Cristã da comunidade, prestar algum serviço na sua área profissional ou de conhecimento (por exemplo, música, saúde, contabilidade, manutenção de equipamentos ou do prédio, limpeza do templo, do jardim, etc). Há muitas oportunidades! Fale com o Pároco!