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03 junho 2017

O Tempo de Pentecostes

Pentecostes 8A Festa de Pentecostes celebra o início da Missão da Igreja, a partir do momento em que os discípulos e discípulas de Jesus, escondidos e com medo, recebem o Espírito Santo e dão início à Proclamação do Evangelho, a Boa Nova de Deus em Cristo.

A Festa de Pentecostes acontece 9 dias depois da Festa da Ascensão do Senhor, e inicia o Tempo Litúrgico da Igreja, quando as comunidades acompanham as narrativas dos Evangelhos sobre o Ministério de Jesus, como inspiração para o ministério missionário de Proclamar a Boa Nova, denunciar as ações diabólicas que ocorrem pelo mundo e testemunhar a Paz e a Justiça proclamando o Reinado de Deus. O Tempo depois de Pentecostes, também chamado Tempo Comum, termina na Festa de Cristo Rei, considerado o último domingo do ano litúrgico, que antecede o Domingo do Advento quando, então, reinicia-se o ano litúrgico.

O povo hebreu celebrava a festa da Colheita, o hag haqasir, sete semanas depois da Páscoa, e também como memória do dia em que Deus entregou a Moisés as Tábuas da Lei. Esse é o sentido original da festa de Pentecostes, celebrado no judaísmo dos tempos de Jesus.

A Igreja Cristã celebra nesse dia a vinda do Espírito Santo aos discípulos e discípulas de Jesus, dando início à pregação do Evangelho, a colheita da semeadura feita por Jesus... É a fundação da Igreja, não como instituição, mas como movimento que vai se expandir pelo Império Romano nos séculos seguintes e até mesmo para além dele.

Portanto, o Pentecostes nos convida a renovar nosso compromisso com a Missão (anúncio, denúncia e testemunho), essência do ministério que recebemos, por obra do Espírito Santo, em nosso Batismo. A Igreja, os discípulos e discípulas de Jesus saem com Ele pelo mundo, pelo poder do Espírito Santo, anunciando o Reinado de Deus, denunciando os poderes malignos e testemunhando a misericórdia e a graça infinita de Deus em Jesus, o Cristo.

Nos domingos durante o Tempo de Pentecostes, este ano as leituras estão focadas no Evangelho de São Mateus (Ano A cf. nosso Lecionário). Que esta caminhada nos ajude, pelo poder do Espírito Santo, como comunidade de Cristo, que sejamos renovados e assumamos com mais esperança e dedicação o compromisso com o Reinado de Deus, renunciando todos os demais reinos deste mundo.

Rev. Luiz Caetano, ost+

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23 maio 2017

Ascensão: espiritualidade pé no chão!

ascensãoA narrativa da ascensão de Jesus aparece em três versões: em Marcos, em Lucas e nos Atos dos Apóstolos. Mateus e João não contém essa narrativa, a partir do contexto em que estes Evangelhos foram escritos.

O Evangelho segundo Marcos faz uma pequena referência à ascensão do Senhor e conclui afirmando estar Ele à direita de Deus (significando que Ele detém o poder de Deus).

Mas em Atos dos Apóstolos e no Evangelho de Lucas, a narrativa é bem detalhada, embora um pouco diferente nos dois livros.

Lucas conclui afirmando, como Marcos, que o Cristo foi se afastando e levado para o Céu (lugar de Deus) e os discípulos retornam a Jerusalém cheios de alegria. Mas o Livro de Atos apresenta um detalhe importantíssimo:

1.8 Porém, quando o Espírito Santo descer sobre vocês, vocês receberão poder e se-rão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até nos lugares mais distantes da terra. 9 Depois de ter dito isso, Jesus foi levado para o céu diante deles. Então uma nuvem o cobriu, e eles não puderam vê-lo mais. 10 Eles ainda estavam olhando firme para o céu enquanto Jesus subia, quando dois homens vestidos de branco apareceram perto deles 11 e disseram: — Homens da Galileia, por que vocês estão aí olhando para o céu? Esse Jesus que estava com vocês e que foi levado para o céu voltará do mesmo modo que vocês o viram subir. (Atos 1.8-11 - NTLH)

06 junho 2012

Igreja Viva é Igreja Confessante!

Sob a influência dos valores consumistas, muita gente avalia a Igreja através de critérios pouco evangélicos (do Evangelho!). Uma Igreja cheia de gente, que movimenta muito dinheiro, que promove show de bênçãos, é considerada uma Igreja viva, porque mostra resultados de sucesso… Ou então, uma Igreja que se envolve em tudo, opina sobre tudo, participa de todas as mobilizações e suas lideranças apresentam discursos altamente engajados, é considerada uma Igreja viva porque “dá testemunho”, aparece na mídia, chama a atenção.
Entretanto, eu acredito que tais são Igrejas moldadas no ativismo e na imagem bem construída de seus pastores, não necessariamente na Cruz do Cristo. Personalismo e estrelismo, síndrome de sucesso no mercado. Um produto bem sucedido e bem vendido!
Qual seria o critério de Cristo para avaliar a Igreja? Penso que João 6:63-70 pode nos dar uma pista:
O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não crêem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele. Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente. Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo. (João 6:63-70 _ Nova Versão Internacional)
Depois de multiplicar o alimento através da partilha, o Senhor fala com clareza sobre Sua Missão, sobre o significado de Sua Presença. Então, as mesmas pessoas, saciadas da fome, se afastam, saem de cena, porque as palavras do Senhor é estranha e contrária às expectativas…  Entretanto, o Senhor fica olhando todos se afastarem, não tenta negociar, não tenta agradar a clientela! Ainda, talvez cinicamente, pergunta aos que sobram, os Doze, se também não desejam abandoná-lo! Fica bem claro que o Senhor não está preocupado em organizar um movimento de massa, nem em angariar clientes ou “agradar os fiéis”; Ele não tenta seduzir com palavras doces, antes anuncia duramente o sentido de Sua Presença!  Ele mesmo sabia, diz-nos o texto, que muitos não criam. Mesmo entre os poucos que sobraram, havia um traidor.
Interessante notar que, no texto joanino, após esse episódio, Jesus não anda mais com multidões, mas reduz seu círculo de discípulos aos doze e algumas outras pessoas. Não está preocupado em ter auditório, mas em cumprir Sua tarefa, e ministrar aos poucos seguidores, inclusive ao traidor…
Qual o motivo alegado por Pedro, em nome dos que ficaram, para permanecerem com Ele?  “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. Mais do que uma afirmação filosófica, Pedro dá um testemunho de fé e de reconhecimento do Cristo! Sua primeira frase mais parece uma oração: “Senhor, para quem iremos nós?” , como uma súplica! e conclui com uma confissão de fé: “E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. Exatamente estes poucos que sobraram se tornam depois, os arautos da Palavra, anunciam o Evangelho por todo o mundo, tornam-se Apóstolos e Apóstolas, testemunhas vivas da Presença permanente de Cristo no mundo, testemunhas do Ressuscitado!
Aos contrário dos que hoje em dia se autodenominam “apóstolos”, ou muitos que – no decorrer da história – se proclamam seus sucessores, estes homens e mulheres que permaneceram com Jesus até a Ressurreição (mesmo tendo fugido diante da Cruz), não viviam de pompa e circunstância, não foram tomados pela vaidade, mas na simplicidade de suas vidas, são os alicerces da Igreja de todos os tempos.  E criaram comunidades confessantes da fé no Ressuscitado, comunidades solidárias aos que sofrem e choram, comunidades pequenas mas corajosas em enfrentar a perseguição do Império e da Sinagoga – os cristãos foram considerados anátema pelo Sinédrio reunido em Jâmnia, por volta do ano 90 d.C.  O primeiro fruto da ação daqueles remanescentes seguidores de Jesus na Palestina, foi a Igreja dos Mártires, a Igreja Confessante por excelência! Animados pelo Espírito Santo em suas vidas, enfrentaram a morte com ousadia e coragem!
A Igreja que herdamos é a Igreja que permaneceu no tempo e na história mesmo depois do desaparecimento de seus fundadores. Não estava alicerçada na personalidade ou no personalismo deles, mas no Espírito Santo. Quando surge a tentação do personalismo e do culto à personalidade, Paulo, um confessante, admoesta a Igreja:
Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissen-sões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais? Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. (1 Coríntios 3:3-7 – Nova Versão Internacional)
Igreja Viva é a Igreja que confessa a Fé no Cristo Ressuscitado, que anuncia o Evangelho, denuncia o Mal em todas as suas formas e testemunha com coragem a Vontade de Deus e Sua Bondade e Misericórdia. Não importa sermos muitos ou poucos, não importa sermos reconhecidos ou elogiados pela sociedade. Importa antes que seja cumprida a Vontade Soberana de Deus Pai/Mãe, manifesta em Seu Filho, o Cristo, e permanentemente anunciada através da ação do Espírito Santo.
A Igreja de Cristo está Viva quando dobra seu joelho em oração e adoração, e obedece a Deus. Ela segue ao Cristo, em Sua Cruz e Ressurreição, não segue lideres carismáticos personalistas!
Luiz Caetano, ost+
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22 maio 2012

Entendendo o Pentecostes

Pentecostes 06

Logo estaremos celebrando o Domingo de Pentecostes, quando a Igreja festeja a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus, inaugurando a Missão e, assim, a própria Igreja de Cristo. Todavia, o Pentecostes não é uma festa originariamente cristã, mas é uma das nossas heranças do Judaísmo. A Festa do Pentecostes era celebrada sete semanas depois da Páscoa Judaica e está referenciada no Antigo Testamento, e recebeu vários nomes conforme a época (cf. Wikipédia):

    • Festa da Colheita ou Sega - no hebraico hag haqasir. Por se tratar de uma colheita de grãos, trigo e cevada, essa festa ganhou esse nome.(Ex 23.16).
    • Festa das Semanas - no hebraico, hag xabu´ot. A razão desse nome está no período de tempo entre a Páscoa e esta festa, que é de sete semanas. Esta festa acontece cinquenta dias depois da Páscoa, com a colheita da cevada; o encerramento acontece com a colheita do trigo (Ex 34.22; Nm 28.26; Dt 16.10).
    • Dia das Primícias dos Frutos - no hebraico yom habikurim. Este nome tem sua razão de ser na entrega de uma oferta voluntária, a Deus, dos primeiros frutos da terra colhidos naquela sega (Nm 28.26). Provavelmente, a oferta das primícias acontecia em cada uma das três tradicionais festas do antigo calendário bíblico. Na primeira, Páscoa, entregava-se uma ovelha nascida naquele ano; na segunda, Colheita ou Semanas, entregava-se uma porção dos primeiros grãos colhidos; e, finalmente, na terceira festa, Tabernáculos ou Cabanas, o povo oferecia os primeiros frutos da colheita de frutas, como uva, tâmara e figo, especialmente.
    • Festa de Pentecostes. As razões deste novo nome são várias: (a) nos últimos trezentos anos do período do Antigo Testamento, os gregos assumiram o controle do mundo, impondo sua língua, que se tornou muito popular entre os judeus. Os nomes hebraicos - hag haqasir e hag xabu´ot - perderam as suas atualidades e foram substituídos pela denominação Pentecostes, cujo significado é cinquenta dias depois (da Páscoa). Como o Império Grego passou a ter hegemonia em 331 a.C., é provável que o nome Pentecostes tenha ganhado popularidade a partir desse período.
    • Enquanto a Páscoa era uma festa caseira, Festa da Colheita ou das Semanas ou Pentecostes era uma celebração agrícola, originalmente, realizada na roça, no lugar onde se cultivava o trigo e a cevada, entre outros produtos agrícolas. Posteriormente, essa celebração foi levada para os lugares de culto, particularmente, o Templo de Jerusalém. Observação: Era ilegal usufruir da nova produção da roça, antes do cerimonial da Festa das Colheitas (Lv 23.14).

Todavia, o Livro dos Atos dos Apóstolos (At. 2:1-11)  relata que:

Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar.   De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava. Havia em Jerusalém judeus, tementes a Deus, vindos de todas as nações do mundo. Ouvindo-se este som, ajuntou-se uma multidão que ficou perplexa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua. Atônitos e maravilhados, eles perguntavam: "Acaso não são galileus todos estes homens que estão falando? Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna? Partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, Judéia e Capadócia, Ponto e da província da Ásia, Frígia e Panfília, Egito e das partes da Líbia próximas a Cirene; visitantes vindos de Roma, tanto judeus como convertidos ao judaísmo; cretenses e árabes. Nós os ouvimos declarar as maravilhas de Deus em nossa própria língua!" 

O autor de Atos, São Lucas, informa que na “festa da colheita” o Espírito Santo dá início à Missão dos Apóstolos, e os capacita para isso – eles se tornam capazes de testemunhar o Evangelho a todos os povos conhecidos de então, os povos que habitam no vasto território do Império Romano. O Espírito Santo torna o Evangelho (a Boa Nova) compreensível para pessoas de diferentes lugares, diferentes contextos e diferentes culturas: não mais limitado ao pequeno território entre a Galileia e a Judéia, o Evangelho agora começa a espalhar-se pelo mundo,  através das testemunhas do Ressuscitado, até os confins da Terra, movimento este previsto pelo Profeta Joel alguns séculos antes:

" [...] derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias. Mostrarei maravilhas no céu e na terra, sangue, fogo e nuvens de fumaça. O sol se tornará em trevas, e a lua em sangue; antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo, pois, conforme prometeu o Senhor, no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento para os sobreviventes, para aqueles a quem o Senhor chamar. (Joel 2:28-32)

Pentecostes 04

Assim nasce a Igreja, a Comunidade de Jesus, não uma instituição, mas a comunidade que, a partir do testemunho dos Apóstolos, se reúne em comunhão em torno de Jesus Cristo, o Ressuscitado. Com o passar do tempo, a Igreja vai adquirindo caráter institucional, muitas vezes desvia-se de sua verdadeira tarefa, algumas vezes torna-se até instrumento do Mal, mas o Espírito Santo a dirige, a corrige e a reforma sempre que necessário.

O Pentecostes que celebramos hoje é sempre a recordação do que significa ser Igreja de Cristo: a comunidade movida e capacitada pelo Espírito de Deus, pessoas em comunhão solidária testemunhando o poder de Deus em suas vidas e proclamando um novo Reinado, não o Reinado de César, mas o Reinado de Cristo, um Novo Mundo plenamente possível! O Espírito de Deus se move em nosso mundo conduzindo a Igreja – Comunidade de Testemunho – na fidelidade à missão delegada por Jesus, o Cristo, o Ressuscitado!

Luiz Caetano, ost+

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19 abril 2012

Igreja: comunidade da misericórdia e do perdão!

Jesus Ressuscitado com discípulosAo cair da tarde daquele primeiro dia da semana, estando os discípulos reunidos a portas trancadas, por medo dos judeus, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: "Paz seja com vocês!" Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se quando viram o Senhor.
Novamente Jesus disse: "Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio". E com isso, soprou sobre eles e disse: "Recebam o Espírito Santo. Se perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados".
  (João 20:19-23 – N.V.I.)

Este é o primeiro encontro, no Evangelho de João, do Ressuscitado com seu grupo de discípulos.  O Cristo se apresenta em um lugar de intimidade, isolamento e medo (portas trancadas…), e sua primeira palavra é uma saudação de Paz e um sinal claro de sua real identidade (as mãos e o lado…) . O medo dá lugar à alegria! e o Cristo se revela como a Presença da Paz que afasta os temores e traz a alegria!

Novamente o Cristo faz a saudação da Paz e então envia seus discípulos na mesma condição que Ele fora enviado: “assim como o Pai me enviou, eu os envio”, dando a eles a unção do Espírito Santo. Assim, os discípulos do Cristo são enviados com o poder do Espírito Santo e como portadores da Paz! Mas a unção do Espírito traz uma motivação: o perdão dos pecados!

E aqui precisamos ser muito cuidadosos. Não vejo no texto a delegação de autoridade para perdoar ou não perdoar. Porque perdoar ou não perdoar, significa também a capacidade de decidir o que é pecado. Uma leitura fundamentalista e moralista vê aqui que, aqueles homens, fracos, ignorantes, medrosos e covardes, teriam o poder de decidir sobre o pecado alheio! Por extensão, o texto seria uma justificativa para o poder da instituição religiosa em definir absolutos, o que significa que a ação de Deus fica limitada à decisão humana, decisão essa que não pode ser absoluta porque condicionada à condição humana (cultura, código moral, poder político, e o próprio pecado!). 

Na verdade, o perdão aqui anunciado, é exatamente o motivo da vinda do Filho ao mundo: o exercício da misericórdia do Pai e a oferta do perdão – reconciliação definitiva. Perdoar é, então, uma identificação com o ministério de Jesus.  Os discípulos são enviados ao mundo em Paz como testemunhas do Cristo Vivo e do perdão dos pecados. Se os discípulos não viverem a permanente experiência do perdão, o perdão deixa de ser tangível, deixa de ser uma experiência concreta!

Assim, a comunidade de fé que se reúne em torno dos discípulos – e a partir deles, se torna a comunidade onde o exercício do perdão (misericórdia) é seu sentido maior. Se a comunidade de Cristo não  for a comunidade do perdão, não haverá perdão, não haverá a misericórdia manifesta e o amor de Deus deixa de ser percebido na vida das pessoas.

Assim, é dever da comunidade construir-se como espaço de perdão e misericórdia, no acolhimento de todas as pessoas tais como são, para ajudá-las na superação de si mesmas em sua humanidade, abrindo-se à ação de Deus em suas vidas e alcançando a Vida em Plenitude pela obra e graça de Deus em Jesus o Cristo.

Rev. Luiz Caetano, ost+

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02 junho 2011

Jesus foi para ficar conosco!

jesasce10Celebramos a Ascensão do Senhor na quinta-feira anterior ao sétimo domingo da Páscoa. Dez dias após, é a Festa do Pentecostes, sobre a qual comentamos em nossa postagem anterior (“A Resposta vem chegando com o Vento”).
Costumamos imaginar a cena da Ascensão como Jesus subindo ao céu, decolando lentamente dum montículo de pedra… é uma imagem que nos foi legada pelos antigos, e na concepção deles, isso tem muito mais a ver com um símbolo – o Cristo ascende ao Céu e reassume o poder divino, que propriamente a um fato. Se pensarmos como fato, e de acordo com as leis que o Criador deu à natureza, se Jesus “subisse” na velocidade da Luz, estaria a uma distância de quase 2 mil anos-luz da Terra, ou seja, ainda estaria dentro de nossa galáxia, aqui pertinho. Ou seja, ainda estaria viajando, e como nós não sabemos a distância daqui para o Céu, ficamos sem saber se, neste momento, falta muito a chegar, ou seja, em nosso modelo cartesiano de compreender o Universo não cabe essa figura, ela é ridícula! Tampouco os antigos acreditavam nisso como “fato”. Afinal, o texto dos Evangelhos não é mera biografia de Jesus, mas uma confissão de Fé no Cristo de Deus manifesto em Jesus, o Cristo.
O que significa então essa afirmação do Credo, “subiu aos Céus”, que celebramos na liturgia como Dia da Ascensão, 40 dias após a Páscoa?
Os textos canônicos dos Evangelhos não trazem uma mesma narrativa. No Evangelho de João, nem há referência a isso; o evangelho termina bruscamente, com Jesus e seus discípulos comendo peixe assado por Ele. Lembremos que João começa com uma festa de casamento que ia acabar mas não acabou [cf. Jo 2.1-12]; e – curiosamente – termina com um churrasquinho de peixe entre amigos (!!!) e uma conversa particular com Pedro [cf. Jo 21].
No Evangelho de Mateus, há uma despedida, que acontece na Galileia, exatamente onde começou o ministério de Jesus; nessa despedida, Jesus se despede e envia os discípulos, referidos como Os Onze [cf. Mt 28.16-20]. O texto de Marcos é muito semelhante ao de Mateus, mas acrescenta ao final que “O Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus[cf. Mc 16.14-20].

19 maio 2011

A Resposta vem chegando com o Vento




“… veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam…. “ (Atos dos Apóstolos cap. 2)


O vídeo acima me fez lembrar da minha juventude, dos tempos de militância política e pacifista, especialmente contra a Guerra do Vietnam.  A música,  Blowing in the Wind, foi o grande sucesso de Woodstock, do sempre querido e lembrado Bob Dylan.

Depois de minha conversão, naquele mesmo tempo, essa música ganhou um sentido maior: ela me faz pensar no significado do Sopro de Deus, o Espírito, o Ruar de Javé, o Pneuma tou Theou.  O Vento de Pentecostes traz a Resposta de todo anseio humano: justiça, liberdade, paz, solidariedade, comunhão… O Vento traz a resposta e o chamado a uma nova perspectiva de vida, vida em abundância.

O Vento de Pentecostes – assim como à pequena comunidade assustada reunida em Jerusalém – nos incentiva a anunciar a Boa Nova, a presença de Deus no mundo, na História, como companheiro de caminho. 

Tal anúncio, entretanto, não é isento de riscos. A Boa Nova, anunciada especialmente aos pobres, aos simples, aos excluídos, aos mansos, não é boa para os adeptos do Príncipe deste Mundo, do Império cuja ganância e sede de poder a tudo engloba e absorve mantendo sua tirania através do culto ao deus Mamona (o dinheiro). As comunidades nascidas pelo fecundo sopro no Pentecostes em Jerusalém defrontaram-se com um Império poderoso… anunciavam um outro Senhor, que não aquele que se julgava senhor do mundo!

Ainda hoje, apesar de todas as contradições institucionais da Igreja de Cristo (em suas diversas maneiras de ser), é a Igreja movida pelo Sopro do Espírito, o Vento de Fogo Pentecostal, e continua anunciando a Boa Nova, o Deus-Conosco, apresentando ao mundo seu verdadeiro Senhor.  O Senhor que assumiu a Cruz! O Senhor Ressuscitado e presente! O Senhor que tem muitos redis, sendo a Igreja um deles…

No tempo da minha juventude, recente conversão, essa música servia de convocação para um novo mundo. Ainda fala ao meu coração… e me desperta o sentimento pentecostal sadio de deixar-me levar pelo Vento e sair por ai anunciando que um outro mundo é possível, onde o senhorio de Cristo não é tirano, mas carinho de Deus para todas as pessoas.

Logo estaremos celebrando o Pentecostes! Inicia-se o tempo litúrgico maior, quando a Igreja reflete – a cada liturgia dominical – nos feitos de Jesus, para aprender e refletir como seria a ação de Jesus hoje, como seria anunciar a Boa Nova em nosso tempo.

Espero não seja uma celebração burocrática, mas um Vento que sopre em nossas vidas renovando mais uma vez o velho sonho: justiça, liberdade,  paz, solidariedade, mansidão, partilha, perdão, misericórdia, comunhão – os grandes sinais do Reino de Deus.
Rev. Luiz Caetano, ost+