Certo dia, o SENHOR Deus disse a Jonas, filho de Amitai: — “Apronte-se, vá à grande cidade de Nínive e grite contra ela, porque a maldade daquela gente chegou aos meus ouvidos”. Jonas se aprontou, mas fugiu do SENHOR, indo na direção contrária. Ele desceu a Jope e ali encontrou um navio que estava de saída para a Espanha. Pagou a passagem e embarcou a fim de viajar com os marinheiros para a Espanha, para longe do SENHOR. (Jn 1.1-2)
PARÓQUIA EPISCOPAL ANGLICANA SÃO PAULO APÓSTOLO - em Santa Teresa - Cidade do Rio de Janeiro, RJ
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11 fevereiro 2016
Deus é muito chato!
24 dezembro 2015
Um menino nos nasceu!
22 novembro 2015
Milagres Acontecem?!
26 junho 2015
Você é cristão?!?!?!
Caminhar com Jesus Cristo não é fácil. Não é uma opção filosófica. Não é adotar um estilo de vida. Não é ser “bonzinho”. Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, aceitar um convite, um chamado, e todas as implicações que isso traz.
No tempo presente, o nome de Jesus Cristo é insultado diariamente. Espertalhões que exploram a fé do povo cometem, “em nome de Jesus”, falcatruas visando angariar dinheiro de maneira imediata, deturpam descaradamente a Bíblia, que para os Cristãos é a Palavra de Deus, anunciam falsas promessas ou, por outro lado, defendem uma moralidade hipócrita e irrelevante, como se o Deus da Igreja fosse um grande negociante ou um soberano mal humorado. Transformam a Fé Cristã em consumismo religioso vazio de conteúdo, prometendo em nome de Deus o que Ele jamais prometeu! E buscam as instâncias de poder do Estado para, com tal poder, atingir seus mais torpes objetivos.
As comunidades de fé que ainda resistem a essa onda diabólica, se tornam cada vez menores, e passam por forte crise de identidade. Há uma pressão sobre elas para acompanharem a onda do consumo religioso e crescer a qualquer preço.
Ao mesmo tempo, diante das falcatruas e das propostas moralistas hipócritas e excludentes, pessoas inteligentes se afastam de qualquer coisa que tenha um significado religioso, especialmente um significado “cristão”.
Muita gente inteligente, hoje, afirma crer em Deus, mas não frequenta qualquer religião. A religião é vista como algo nocivo e enganador, movida por organizações (chamadas Igrejas) cujo interesse é acumular riquezas, e explorar a boa fé das pessoas mais simples.
Todavia, pouca gente compreende que caminhar com Jesus Cristo não é simplesmente adotar uma religião ou vincular-se a uma instituição. Igrejas sempre estão cheias de gente, mas não significa que estão cheias de pessoas cristãs!
Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, uma experiência que surge a partir de um convite: “Vem, e segue-me!” É uma experiência que só tem sentido quando vivida em uma comunidade de oração, serviço, anúncio e testemunho. Tal comunidade é, desde os tempos dos Apóstolos, chamada de Igreja. Não uma instituição, mas uma grande comunidade. Sem essa percepção, tudo perde sentido!
É claro que as comunidades de fé se organizam institucionalmente. Não podem fugir disso. É da própria natureza dos agrupamentos humanos organizarem-se com normas de direitos e deveres, símbolos e ações simbólicas, definições de autoridade e exercício de poder dentro do agrupamento. Mas nada disso é absoluto por si mesmo, mas é antes de tudo, a maneira de compreender as limitações humanas e colocar-se na total dependência de Deus. Não há autoridade única e absoluta na Igreja de Deus, a não ser a de Jesus Cristo. Todo o resto se procura fazer em obediência e atendimento ao chamado: “Vem e segue-me!”
Como tudo que é humano, a grande comunidade de fé se organiza, e se denomina tal organização de “Igreja” e, ainda que possa abranger muitas comunidades de fé espalhadas pelo mundo, traz em si mesma a imperfeição humana e a tentação do pecado. Em todo tempo e lugar sempre acontecem desvios e muitas vezes o absoluto de Deus é deixado de lado. Na teologia, isso se chama pecado.
Por ser humana, a Igreja está cercada pelo pecado. Por isso, a comunidade de fé está sempre se renovando e se reformando, procurando corrigir os desvios e tentando evitar a tentação de ser absoluta por si mesma. Por isso, a Igreja se reúne como comunidade para, acima de tudo, colocar-se diante do Senhor, reconhecer seus pecados, e receber a Graça Libertadora que anima toda a comunidade a permanecer fiel e caminhando com Jesus Cristo neste mundo!
Há muita safadeza no chamado “mercado religioso”. Há muita gente “esperta” que, tal como um vampiro, vive parasitando as pessoas com promessas vazias, falsos testemunhos e muitas vezes acompanhado de uma moralidade hipócrita, excludente e preconceituosa.
Mas há também muitas comunidades de fé que não se deixam levar pelos demônios da exploração e da falcatrua; acolhem com afeto e simpatia todas as pessoas que, tendo ouvido o Chamado, buscam vivenciar essa experiência em uma comunidade de irmãos e irmãs.
São essas pessoas que tornam o testemunho cristão relevante diante das mazelas do mundo. São tais pessoas que, nos momentos mais duros e difíceis da sociedade humana são capazes de empenhar a própria vida visando o bem estar de todos. É porque ainda existem os que atenderam ao Chamado que a solidariedade, embora rara hoje em dia, ainda acontece.
Isso não é um privilégio das comunidades Cristãs. Afinal, o próprio Jesus informou, aos seus discípulos mais próximos, que Ele tem ovelhas em outros apriscos… e eu entendo que lá Ele é reconhecido, mas chamado por outro nome…
Rev. Luiz Caetano, ost+
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03 junho 2015
SS. Trindade: Justiça, Misericórdia e Graça!
Síntese do Sermão proferido no Domingo da SS. Trindade
Conta uma tradição que certa vez estava Santo Agostinho de Hipona refletindo sobre o “Mistério da SS. Trindade”. Ele queria entender a partir da lógica helenista de seu tempo. Agostinho, olhando para a praia enquanto meditava, viu um menino brincando na areia, de forma curiosa: o menino havia cavado um buraco na areia e, com um vasilhame, corria até o mar e trazia água que jogava no buraco, e ficava olhando. Em seguida, ele voltava ao mar, e trazia água e jogava no buraco. E fez isso muitas vezes. Agostinho ficou encafifado com aquilo e resolveu descer até a praia para ver aquilo de perto. Ele precisava espairecer um pouco porque sua cabeça estava doendo de tanto pensar sobre a SS. Trindade e, talvez brincando um pouco com o menino, poderia distrair-se.
Chegando à praia, viu que o menino continuava fazendo a mesma coisa, parecia até um ritual: ia até o mar, enchia o vasilhame com água e jogava no buraco cavado na areia. Agostinho se aproximou e perguntou ao menino: “_ O que você está fazendo, com essa brincadeira de buscar água e jogar dentro do buraco?”. Olhando para Agostinho, o menino disse: “_Estou colocando o mar todinho dentro desse buraco!”
Agostinho riu e fazendo um carinho na cabeça do menino, disse: “_ Meu filho, isso é uma coisa impossível! Você não vê que a areia absorve a água que você joga? essa água volta para o mar… você não vai conseguir colocar o mar todo no buraco que você cavou, nem que faça o buraco crescer dez vezes!” O menino, olhando bem nos olhos de Agostinho disse: “_ Pois saiba que é mais fácil eu colocar o mar todo neste buraco que você explicar a SS. Trindade!”; em seguida, o menino desapareceu.
Agostinho entendeu que um Anjo, enviado por Deus, veio até ele para, simplesmente, ensinar que o Mistério da SS. Trindade é realmente um mistério, trata-se de uma percepção e não de uma racionalização.
A lenda, que aparentemente é uma apelação autoritária sobre a doutrinária, não nos serve para compreendermos o mistério. A tradição bíblica do Antigo Testamento nos fala do Deus de Justiça! Já, o Novo testamento nos apresenta o Deus da Misericórdia, e o Deus que derrama a Graça sobre seu povo.
O que significam Justiça, Misericórdia e Graça no contexto bíblico? Sem estender muito o assunto, podemos entender assim: JUSTIÇA é dar a cada um o que merece: o castigo ou a absolvição! MISERICÓRDIA é não dar a cada um a punição que merece! GRAÇA é dar a cada um o que não merece! (1)
Mistério é algo que, estando oculto, é revelado! ou seja, quem sabe olhar, o vê! Mistério é algo que está ai, na cara da gente, mas só quem sabe olhar pode ver! E esse seria o olhar da fé!
Não explicamos racionalmente a SS. Trindade; nem estamos dando uma interpretação racional, pois, afinal, não queremos colocar todo o mar em um buraco na praia, mas esta é uma proposta de reflexão que pode ajudar você, leitor e leitora, a refletir no significado desse Mistério e o quê esse Mistério aponta para a sua vida e a vida da Comunidade de Fé:
O Deus Justo se revela em Seu Filho como Deus Misericordioso e se manifesta como o Deus da Graça, movendo seu povo a proclamar que um novo mundo é possível, a Boa Nova de Jesus o Cristo!
A aventura utópica* da fé nos mantem na esperança desse novo mundo: como diz Aquele que está no Trono, conforme o Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5b).
* Utopia (gr.: u topos) = não lugar ainda, pode vir a ser lugar; é diferente de Atopia (gr.: a topos) = nunca lugar! Utopia é um horizonte, Atopia é coisa nenhuma!
(1) Devo esta conceituação ao Prof. Dr. Márcio Redondo, em palestra apresentada durante um evento preparatório para a Assembleia Geral do CLAI, em 2005, na Faculdade Teológica Sul-Americana, na cidade de Londrina (PR).
Rev. Luiz Caetano, ost+
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03 janeiro 2015
O Santo Nome – o Nome acima de todo nome!
“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2.5-11)
O Calendário Litúrgico da Igreja Episcopal determina para o dia 1º de janeiro, primeiro dia do ano civil, a celebração do Santo Nome de Jesus. Pela proximidade com o Natal, imagina-se que a Festa se enquadra no contexto do Menino de Belém que, tendo sido levado ao Templo para a circuncisão, recebe o nome de Jesus. Entretanto, não se trata disso, uma vez que, nos domingos depois do Natal, a apresentação de Jesus no templo e sua circuncisão têm seu lugar próprio.
A Festa do Santo Nome tem um caráter mais profundo e mais importante que um mero detalhe na vida de Jesus. A Festa se qualifica na Confissão da Fé Cristã, a afirmação do Senhorio de Jesus Cristo, Filho de Deus, Deus-conosco, Redentor e Salvador do Mundo, Rei do Universo! Ele, o Logos que existia desde antes do Princípio, a Palavra Criadora, que se tornou carne humana em Maria e nessa condição humana, despiu-se de toda dignidade divina para que o ser humano e toda a criação retornasse à presença permanente do Criador! O Deus-conosco para sempre!
Iniciar o ano civil celebrando o Santo Nome significa assim, afirmar que a Igreja, a Comunidade de Fé, segue caminhando em Nome de seu Senhor, na Presença Companheira de seu Senhor através do Espírito Santo, anunciando a Boa Nova, denunciado o Mal e testemunhando a ação redentora de Jesus, o Cristo. Não há outro nome que justifique a ação da Igreja e sua presença no mundo, a não ser o Nome do Senhor! No horizonte do caminhar da Igreja está o Reinado de Deus através de Jesus Cristo, o Deus-conosco, Emanuel.
Infelizmente, o nome de Jesus, hoje, é vulgarizado, vilipendiado pelas práticas nada cristãs de grupos que se identificam como “Igreja”; o nome de Jesus se tornou um fetiche e um talismã, um produto de fácil consumo no mercado religioso, invocado como “palavra mágica” cujo efeito é produzir a “graça” comprada a preço barato dos mercadores de esperança que confiam na desesperança das pessoas para vender a ilusão do “milagre” e da “prosperidade”. O Santo Nome colocado a serviço da charlatanice e da exploração da boa fé das pessoas que andam sem rumo em seu desespero pós-moderno!
Por causa dessas coisas abomináveis, o Santo Nome de Jesus hoje é motivo de chacota e se torna algo vazio de significado. Se torna uma vacina contra a pregação de forma que pessoas inteligentes não abrem o coração e mente para a Boa Nova! À simples menção do Nome, rejeitam a pregação por identificar o nome com a charlatanice e a exploração da boa fé humana. O Santo Nome, dito como blasfêmia, transformado em instrumento de Satanás, “pai da Mentira”, de Lúcifer, a luz que cega mas não ilumina o caminho!
É bem verdade que Jesus diz, conforme o Evangelho de João: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, Ele vo-la concederá em meu nome. Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.” (Jo 16.23b-24)
É preciso cuidado com essas palavras. Jesus diz isso ao seu círculo íntimo de discípulos. Não é uma afirmação genérica, mas uma garantia àquelas pessoas comprometidas com Ele. Jesus se coloca como mediador daqueles que a Ele pertencem! Esse é o contexto dos capítulos 13 a 17 do Evangelho de João: palavras ditas por Jesus na intimidade com os seus discípulos e discípulas – algo restrito à Comunidade Confessante da Fé!
Porque não é apenas “pedir em nome de Jesus”, mas também acolher em Seu Nome: “Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande.” (cf. Lucas 9.48); o servir em Nome do Senhor e a humildade diante da Majestade de Deus.
Assim, a oração feita em nome de Jesus não é uma formalidade ou uma fórmula mágica, mas uma declaração do Senhorio e da Mediação de Jesus Cristo, e da vivência dessa mesma fé nas relações entre as pessoas.
Porque o “pedir” não é superior à vontade de Deus, de Quem, no dizer dos charlatões, devemos “exigir o cumprimento da promessa”. A única oração que Jesus ensinou diz, logo no início “ Pai, … seja feita a Tua Vontade…”, ou seja o pedido é subordinado à vontade e à soberania de Deus. Não é “um direito a ser exigido”, mas Graça concedida pela mediação de Jesus o Cristo! Não é prêmio, mas presente pelos méritos de Cristo.
Assim, o Santo Nome de Jesus não pode ser usado como talismã, ou como produto consumível diante da necessidade. O Evangelho de Mateus coloca na boca de Jesus as seguintes palavras:
“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.21-23)
Portanto, amigos e amigas, cuidado ao pronunciar o nome de Jesus. Não é a palavra “Jesus” por si mesma, mas esse é o Nome acima de todo o nome, que ao ser dito é a confissão do Senhorio e a Majestade de Cristo, para a glória de Deus, o Pai (e Mãe).
Quando em sua oração você terminar dizendo “… em o nome de Jesus. Amém!” lembre-se que esse “amém” é – acima de tudo – subordinação à vontade de Deus e abertura para receber a Graça concedida também em nome de Jesus!
Rev. Luiz Caetano, ost+
25 fevereiro 2014
Um olhar para as Bem Aventuranças
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (Mateus 5.1-12 – Almeida,R.A.)
Na Tradição do Antigo Testamento, a Lei declarada por Moisés se torna lei dos hebreus. Todavia, com o passar do tempo foi reinterpreta pelos interpretes autorizados (escribas e fariseus) para favorecer, no tempo do Novo Testamento, os religiosos e as elites judaicas, se tornando opressora e excludente do povo mais simples da época.
Os mais simples não tinham como observar os inúmeros preceitos lei que eram impostos para eles, sendo considerados sempre “pecadores”, “devedores” para com os códigos de purificação a serem cumpridos no Templo, através de sacrifícios e ofertas. Por outro lado, as elites do Templo e das Sinagogas, cumprindo esses preceitos, julgavam-se “puras”, “justas” e “santas”.
Neste contexto que é declarada as Bem Aventuranças (no grego: makarion), Jesus proclama um caminho alternativo para o povo simples, um caminho de justiça e amor, um olhar para vida de maneira mais leve e livre. As bem aventuranças não têm a intenção de substituir a Lei mosaica. Antes, são um chamado, ou uma proposta, para uma nova vida, com a prática da Justiça conduzindo ao Amor e à Paz. Priorizando o direito à vida plena, Jesus empenha-se em retirar as amarras das interpretações equivocadas da Lei, opressoras e excludentes, colocando a Lei no devido lugar sempre a favor do povo simples, humilde e explorado.
Sendo assim a mensagem das bem-aventuranças para hoje se torna mais ao menos assim: Os pobres descobrem seu espaço nas comunidades que vivem a partilha. Os que choram passam a sorrir no novo convívio da fraternidade. Os mansos cativam os corações aproximando-se uns dos outros. Os que tem fome e sede de Justiça são saciados pela conquista disto. Os misericordiosos, cheios de compaixão, livram aqueles que tem sua consciência impregnada de culpabilidade por causa desta visão opressora da vida. Os de coração puro são sensíveis a tudo o que é justo para todos sem discriminação. Os pacificadores se comprometem na construção de um mundo livre da ambição, da violência, do consumismo desenfreado, do hedonismo e egocentrismo.
A pratica do amor é libertador! subverte a ordem vigente porque sempre pensa no outro, na concórdia, nos que estão perto e longe. Infelizmente quem assume esta posição é perseguido, difamado, morto. Mas a alegria de unir a sua vida em comunhão com todas as pessoas, juntamente com Pai – que é amor, fraternidade e paz – é eterna e não cessam neste mundo. Por isso o Cristo fala em “Alegrai-vos e regozijai-vos, pois grande é o vosso galardão nos Céus!”
Rev. Daniel, ost+
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05 setembro 2013
A Beatíssima Virgem Maria
A Virgem Maria, Mãe de Jesus, é uma criatura privilegiada. Deus queria fazer-se homem e escolheu uma menina para isso, ser Sua Mãe, cumulando-a de todas as virtudes, a fim de preparar Sua morada em seu seio virginal.
O privilégio fundamental, que está no centro de todos os outros e dá a razão deles, é a maternidade divina. Maria Santíssima é verdadeiramente Mãe de Deus, porque gerou e deu à luz Cristo Jesus, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Quando Nestório negou a Maternidade Divina de Maria, o Concílio de Éfeso proclamou este ensinamento: "Se alguém não confessa que o Emanuel é verdadeiro Deus e por isso a Santíssima Virgem é Mãe de Deus, posto que gerou carnalmente o Verbo de Deus feito carne, seja anátema". (Anatem, de S. Cirilo, 1, em Dz.113). Jesus é seu Filho.
Embora esse privilégio se refira a ela, há de se entender, ao mesmo tempo, que Deus a santificou com tal abundância de graças que, como anglicanos devemos, sim, respeitar, admirar. Ela é a primeira de todos os Santos, porque a medida da sua santidade é o privilégio maior que Deus concedeu a uma criatura: ser Sua Mãe: "Todas as gerações me chamarão bem aventurada" (Lc 1.48)
A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a Bem-Aventurada Virgem é venerada sob o título de "Mãe de Deus" (Theothokos). Este culto encontra a sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como nas celebrações nos ofícios diários e celebrações dominicais, pois a Virgem é legitimamente honrada com datas próprias no calendário litúrgico da nossa Igreja; várias igrejas e catedrais de nossa tradição, pelo mundo, são dedicadas à Virgem Maria e levam seu nome.
Para saber mais sobre a Virgem Maria na nossa tradição, veja o artigo do Rev. Luiz Caetano:(https://docs.google.com/file/d/0B25fLSpH7iZsY05ubm1XSEFBcU0/edit?usp=sharing).
Rev. Daniel, ost+
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20 agosto 2013
Os muitos rebanhos do Bom Pastor
Jesus se identifica como Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas, aquele que é reconhecido por elas:
“Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. [...] Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor.” (Evangelho de João 10.1-5;11-16 – Almeida, R.A.)
O Bom Pastor tem rebanhos em todo o mundo. Os rebanhos não são todos iguais, porque as ovelhas também não são todas iguais. A diversidade da Igreja de Cristo é uma bênção para que se cumpra o pedido do Senhor, que todas as pessoas possam ter acesso ao Evangelho de Cristo e à Vida em Plenitude que Ele concede.
Essa Vida em Plenitude é dada por Cristo, não por uma denominação religiosa. As diferentes igrejas (instituições e denominações religiosas) são parte da IGREJA DE JESUS CRISTO (que é simplesmente a Comunidade Universal de Comunhão, Serviço e Testemunho à Luz do Evangelho).
Se você se sente uma ovelha fora do rebanho, como que perdida ou desgarrada, dê uma chance ao Bom Pastor, que está à sua procura!
Talvez possamos ser o redil que você está buscando!
Rev. Luiz Caetano, ost+
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26 junho 2013
Santo Albano, mártir
Nosso calendário litúrgico celebra a memória de Santo Albano dia 22 de junho. Santo Albano tem um lugar especial na tradição anglicana por ter sido o protomártir (primeiro mártir) da Grã-Bretanha. Vamos conhecer um pouco da vida de Santo Albano e inspirar-nos em seu testemunho (martirya no grego – daí a palavra mártir significar testemunha).
Albano, cuja origem talvez fosse romana, residia em Verulamium, a cidade-fortaleza construída pelos romanos a sudeste da ilha britânica, perto de River Ver, e prestou serviço no exército imperial de Roma. Sendo pagão, nada tinha a temer quando começou a perseguição anticristã, possivelmente a decretada pelo imperador Sétimo Severo e não a do seu sucessor Diocleciano, como alguns historiadores acreditam.
Certo dia, um cristão perseguido chegou à sua casa. Albano o acolheu e escondeu. Observou que o homem mantinha-se em vigília, orando noite e dia. A convivência e o exemplo do hóspede clandestino levaram Albano impressionar-se com a fé cristã. Tocado pela graça de Deus, converteu-se. Tornou-se um cristão, justamente naquele momento de risco de morte tão sério.
Dias depois, soldados foram à casa de Albano, porque souberam que ele escondia um cristão. Quando chegaram, o santo mártir se apresentou vestindo as roupas do cristão procurado e disse: “Aquele que vocês procuram sou eu”. Assim, foi levado, amarrado, perante o juiz.
O juiz ordenou que Albano fosse torturado e ele o foi com extrema crueldade, e tudo suportou com paciência e íntima alegria, testemunhando sua confiança em nosso Senhor. Quando o juiz percebeu que ele não abandonaria a fé cristã, decretou sua morte por decapitação, uma vez que era soldado romano e assim cometera crime de traição ao Império, pois confessava outro Senhor (Kyrios) que não era o Imperador. Ao ser levado para a execução, Albano converteu seu carrasco, que posteriormente também foi executado. O mártir Albano morreu no dia 22 de junho de 304.
Quase um século depois, quando o cristianismo já era reconhecido no Império e os cristãos tinham liberdade para vivenciar sua fé publicamente, no lugar de seu martírio foi erguido um monumento para sua sepultura, o qual se tornou um lugar de muitas peregrinações nos séculos seguintes. São Germano, que fez peregrinação ao túmulo de Albano, levou para a Gália um pouco da terra da sepultura do venerado mártir, em 429. Dessa forma, Albano passou a ser venerado também no continente.
Ainda no século V, com a retirada dos romanos, a Grande Bretanha foi invadida por tribos germânicas (anglo-saxões), as quais, mais tarde, foram evangelizadas e passaram a propagar o culto do admirável mártir Albano por toda a Alemanha. O papa Gregório Magno, entre os anos de 590 e 604, concedeu a autorização para o culto e declarou Albano santo e mártir pelo testemunho da fé em Cristo.
No lugar onde foi martirizado, formou-se a cidade que hoje leva o seu nome: Saint Albans, ao norte da área metropolitana de Londres, onde se encontra a esplêndida Catedral de Santo Albano. A Igreja festeja-o no dia 22 de junho, mas em algumas regiões é homenageado no dia 17, isso porque um antigo copista cometeu um erro e trocou o numero romano XXII por XVII.
A história da Igreja conta com muitas testemunhas que deram sua vida pela fé. É preciso entender que, no tempo do Império Romano, os cristãos eram condenados por um motivo político e não religioso.
O Império Romano era bastante liberal no que se referia à religião; aliás, essa era uma das táticas para manter a Pax Romana: o respeito à cultura e às tradições dos povos dominados, desde que se mantivesse o Imperador como Sumo Pontífice, ou seja supremo chefe religioso, de qualquer religião, e em alguns momentos, o Imperador devia ser honrado como divino. O título “Kyrios” (Senhor Absoluto) era exclusivamente atribuído ao Imperador.
Mas os cristãos teimavam em reconhecer como Kyrios a Jesus – quem, do ponto de vista do Império, havia sido um fora-da-lei e agitador, condenado à morte pelo governo romano da Judéia, sob a acusação de proclamar-se Rei.
Ora, reconhecer outro “Kyrios” que não fosse o Imperador, era considerado crime de alta traição. Assim, os mártires cristãos deram sua vida por afirmarem que o senhorio absoluto não cabe a um ser humano, mas exclusivamente ao Senhor dos Senhores, o Filho de Deus, ao Deus encarnado, Jesus, o Cristo.
Rev. Luiz Caetano, ost+
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10 maio 2013
Mordomia Cristã: nossa responsabilidade
Mordomia é “cuidar da casa”! Mordomo é alguém a quem entregamos o cuidado da nossa casa. Após a Criação, Deus entregou tudo ao ser humano que, assim, se tornou Mordomo da Criação! Por isso, como cristãos, nos sentimos responsáveis pelo cuidado da Natureza e pela preservação da Vida em todas as suas manifestações.
Em certo sentido, enquanto comunidade, somos chamados a ser mordomos uns aos outros, ou seja, o bem estar de cada um de nós é responsabilidade de todos nós! Por isso, somos chamados a exercer a solidariedade, a partilhar nossos dons (dádivas de Deus), servindo uns aos outros da mesma forma como Deus foi solidário conosco enviando seu próprio Filho para servir como nosso Redentor!
Como cristãos somos chamados a exercer também a mordomia para com a Igreja. A Igreja, comunidade dos filhos e filhas de Deus em Cristo pelo Batismo, enviada por Cristo para anunciar o Evangelho, existe e atua no mundo, organizada como uma instituição e, portanto, precisa ser mantida e sustentada.
Como podemos fazer isso? De várias maneiras; hoje vamos ver uma delas:
A Manutenção e o Sustento da Igreja
Todos os membros da Igreja, especialmente aqueles que reafirmaram sua fé na Confirmação (Crisma) ou que foram recebidos à Comunhão da Igreja, são responsáveis pela manutenção e sustento da Igreja. Há várias maneiras de colaborar e todos nós somos chamados para isso.
a) Contribuição Regular: Veja bem: Deus não necessita de um Templo, nem de um salão paroquial, nem de pastores; Deus não precisa de nada disso. Mas nós necessitamos de um espaço sagrado, de um espaço para o convívio fraterno, de pastores e pastoras que nos sirvam como ministros e orientadores espirituais; gostamos de boa música nas celebrações, gostamos de ver o templo limpo, arrumado e decorado conforme nosso costume. Isso faz parte de nossa identidade denominacional, e nos localiza no tempo e no espaço enquanto comunidade confessante! Para manter tudo isso, cada membro da Igreja dá sua Contribuição Regular, um valor mensal que se destina exclusivamente para a manutenção da Igreja e o sustento do ministério e da Missão. Cada família, ou cada pessoa decide qual o valor que dará como Contribuição Regular, mensalmente ou conforme a sazonalidade que julgar conveniente à sua realidade. Esse valor será colocado em um envelope especial para o registro da contribuição, que será posto na salva por ocasião da Coleta nos ofícios, ou entregue diretamente ao Tesoureiro Paroquial. Você pode obter o envelope diretamente com o Tesoureiro ou qualquer membro da nossa Junta Paroquial (membros eleitos pela congregação para administrarem a Paróquia com o Pároco, com mandatos determinados). A Contribuição Regular informada é base para a gestão orçamentária da Paróquia. Converse com o Tesoureiro!
b) Ofertas durante os Ofícios: É importante que você saiba que as ofertas dadas por ocasião dos ofícios (coleta) não se destinam à manutenção da Paróquia exclusivamente. As coletas dos ofícios destinam-se às ações específicas da Comunidade: Diaconia (serviço e ação social), apoio a algum projeto diocesano ou nacional, instituições de caridade da Igreja ou de outras denominações, campanhas especiais, etc. A cada ofício anunciaremos a finalidade da coleta e o destino das ofertas recebidas. Oferta não substitui a Contribuição Regular!
c) Ofertas Especiais: É costume entre os episcopais anglicanos, em ocasiões especiais, dar-se uma oferta em ação de graças. Por exemplo, no Natal e na Páscoa, aniversário, formatura, matrimônio, etc. Nossa Paróquia não cobra pelos serviços religiosos prestados aos membros da comunidade (batizado, casamento, sepultamento, etc.); no caso de casamentos de pessoas não membros da comunidade, a Junta Paroquial estabeleceu um valor que é destinado para o fundo de manutenção e conservação do templo. Quando recebido, esse valor é registrado como Oferta Especial em nossa Tesouraria e na Contabilidade.
d) Exerça seu ministério de serviço à Comunidade: Além da contribuição financeira, o membro da Igreja deve oferecer algum dom e um pouco do seu tempo para servir à comunidade. Por exemplo, você pode auxiliar na Liturgia, ser membro da Junta Paroquial, cuidar dos objetos do culto e da decoração do Altar, ajudar o Pároco na Educação Cristã da comunidade, prestar algum serviço na sua área profissional ou de conhecimento (por exemplo, música, saúde, contabilidade, manutenção de equipamentos ou do prédio, decoração do templo, do jardim, etc.). Há muitas oportunidades! Fale com os Pastores da Comunidade!
Este não é um artigo para pedir dinheiro para a Igreja. Nossa Paróquia, e a nossa Tradição não negocia com a Graça, nem faz barganhas com serviços religiosos. Ninguém deixa de receber os sacramentos, nem de participar das atividades da Igreja porque não é contribuinte. Nossa Tesouraria publica, mensalmente, no mural da Igreja todo o movimento financeiro da Paróquia.
Intencionalmente, não coloquei referências bíblicas sobre o assunto, embora a Sagrada Escritura, em diferentes textos, trate do tema; preferi abordar a Mordomia Cristã enquanto conceito ético e não obrigação religiosa. A contribuição financeira para a Igreja é um sinal de compromisso e pertença real, movida pela vontade solidária de cada um. Cabe a você decidir se você é realmente parte da Igreja ou apenas se considera alguém consumidor de religião que dá uma esmolinha ou uma ajuda vez em quando…
Rev. Luiz Caetano, ost+
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30 março 2013
JESUS RESSUSCITOU! ALELUIA!
“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revolvida. Então, correu e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram. Saiu, pois, Pedro e o outro discípulo e foram ao sepulcro. Ambos corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro; e, abaixando-se, viu os lençóis de linho; todavia, não entrou. Então, Simão Pedro, seguindo-o, chegou e entrou no sepulcro. Ele também viu os lençóis, e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte. Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu. Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos.E voltaram os discípulos outra vez para casa.
Maria, entretanto, permanecia junto à entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, abaixou-se, e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. Então, eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela lhes respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Raboni (que quer dizer Mestre)! Recomendou-lhe Jesus: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Então, saiu Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi o Senhor! E contava que ele lhe dissera estas coisas.” (João 20.1-18)Cristo ressuscitou! O Senhor vive no meio de nós!
Ele está conosco até o fim dos tempos! Para sempre!
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22 março 2013
Oração Consciente e Coerente
Jesus fazia da oração o recurso para aquietar sua humanidade a fim de ouvir e falar com o Pai. Assim, contam os Evangelhos, ele recebeu orientação para, por exemplo, escolher seus discípulos, e também receber o conforto no Horto antes de ser preso. Na oração, o homem Jesus experimenta profunda comunhão com Seu Pai.
Certa vez um dos discípulos pediu a Jesus que os ensinasse a orar, e Jesus ensinou a oração que conhecemos como Oração Dominical ou Pai-Nosso, a oração que recitamos em comunidade e também individualmente.
Todavia a oração não se resume em uma fórmula definida que se repete, nem em ritos. A oração é mais que isso, é um estado consciente em que o coração humano pode entrar em comunhão com Deus mediante o Cristo, pois toda oração cristã é feita em nome do Senhor Jesus Cristo; ou seja, Jesus ora conosco quando oramos, e assim entramos na intimidade de Deus – o Pai – em comunhão com Seu Filho. A oração nos dá acesso Àquele que nos criou e que nos conhece profundamente e, em amor misericordioso, supre nossas necessidades.
Refletindo a partir da oração que Jesus nos ensinou, podemos tirar algumas lições sobre a oração cristã, orientando-nos para nosso momento pessoal de oração e também quando oramos com outras pessoas cristãs. Vamos fazer uma breve reflexão com base no texto que se encontra em nosso Livro de Oração Comum (LOC), ou seja, a fórmula que utilizamos em nossa oração comunitária.
“Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome; venha o teu Reino; seja feita a Tua Vontade assim na terra como no céu”.
A oração é sempre dirigida ao Pai, é com o Pai que entramos em comunhão quando oramos. Assim, toda oração é louvor e reconhecimento do Nome Santo de Deus e de Sua Glória. A oração é também testemunho de submissão e confiança à vontade soberana de Deus, e manifestação de adesão ao Seu Reino como horizonte de nossa vida.
Talvez algumas pessoas considerem desrespeitosa a forma de tratamento para com Deus (segunda pessoal do singular), diante da majestade de Deus. Todavia, mesmo sendo Soberano, Ele deseja uma intimidade conosco, intimidade de companheiro, intimidade de quem se sabe Senhor mas, acima de tudo, se apresenta como Pai Amoroso. Não se trata de irreverência, mas de reconhecimento de intimidade que o próprio Deus concede. Assim, a ousadia de chamar Deus de Tu é, na verdade, reconhecimento de Sua Majestade Misericordiosa.
“O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje”.
A oração inclui o reconhecimento de nossas necessidades colocando-as diante do Pai Amoroso em plena confiança que Ele nos supre. Importante notar que a petição é para hoje, não para amanhã ou para os próximos anos! Não há necessidade de cronogramas em nossa relação com Deus, pois Deus não tem relógio, nem calendário; o tempo de Deus é sempre o hoje, porque para Deus não há passado, nem presente, nem futuro. A confiança em Deus deve ser tal que nos liberta da ansiedade pelo futuro, e nos permite gozar as dádivas de Deus em cada momento de nossa vida. Jesus afirmou que devemos buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e tudo que necessitarmos nos será acrescentado (cf. Mateus 6.25-34).
“Perdoa as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos os nossos devedores”.
Não se trata apenas de reconhecimento e confissão de pecados! Naturalmente, cada vez que oramos, devemos reconhecer diante de Deus nosso pecado, nossa incapacidade de viver de forma absolutamente solidária e em obediência à Vontade Soberana de Deus. Mas é principalmente reconhecer que somos devedores de Deus, pois Ele nos ama incondicionalmente, atua em nossa vida com misericórdia e nos concede a Graça (de graça) porque o próprio Jesus, Seu Filho, já expiou para sempre os nossos pecados. Assim, invocar o perdão de Deus estamos afirmando também nossa disposição de sermos misericordiosos uns com os outros. O “assim como” da oração não é uma condição, mas uma disposição solidária de sermos misericordiosos, uma abertura à graça de Deus que nos torna misericordiosos. Novamente o texto de Mateus 6.25-34 nos lembra: buscar o Reino de Deus e sua justiça, a justiça de Deus é misericórdia.
“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal”
Como seres históricos, vivemos cercados pela tentação. A tentação da auto-suficiência e de ocuparmos o lugar de Deus. Ao pedirmos livramento da tentação, estamos sendo coerentes com nosso desejo de submissão ao amor e à vontade de Deus, confiando plenamente em Deus. Evitar ou não ceder à tentação é exercício de subordinar nossa vontade e nosso desejo à bondade de Deus. Deus não nos permite uma tentação maior que a Graça que nos concede para vencê-la!
Como não temos poder absoluto sobre nossas vidas, estamos à mercê do Mal. O Mal nos atinge sempre de forma imprevista e, por mais que cuidemos e ajamos com prevenção, não podemos evitá-lo de forma absoluta. Assim, precisamos contar om o livramento que vem de Deus.
“Pois Teu é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”.
Terminamos a oração louvando e afirmando o senhorio de Deus, uma forma de manifestar a gratidão pelo Seu Amor.
Uma coisa sempre me chamou a atenção no “Pai Nosso”: é uma oração feita no plural. Quando oramos sozinhos não dizemos “Pai Meu”, nem pedimos “o meu pão de cada dia”, ou “me livre do Mal”! Sempre a recitamos no plural,ou seja, quando estou orando não estou orando apenas por mim, mas estou incluindo outras pessoas! A oração por si mesma é inclusiva e intercessora! Ao orar o Pai Nosso, estou me colocando como parte de Seu Povo, de Sua Igreja, e incluindo todos os irmãos e irmãs nessa oração. Não basta buscar o Reino de Deus, mas também a sua justiça! A justiça do Reino é inclusiva!
Nossa oração pessoal deve ser sempre consciente e coerente; para isso deve ser inspirada no “Pai Nosso”, a oração por excelência, legada a nós pelos discípulos de Jesus que a aprenderam com ele. Não há lugar para petições egoístas, nem há lugar para determinar o que Deus deve fazer. A oração consciente e coerente sempre vai afirmar nossa gratidão pelo Amor de Deus que fala mais alto que nossos desejos e sonhos, é inclusiva e intercessora, e dá testemunho de nossa dependência da vontade soberana de Deus!
Rev. Luiz Caetano, ost + , em Recife.
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08 fevereiro 2013
Sobre milagres: não basta ler, é preciso compreender!
Muita gente lê os Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) como se fossem um registro histórico sobre Jesus, isto é, uma “biografia” de Jesus. Se realmente os Evangelhos fossem uma biografia ou um simples relato histórico sobre Jesus, a Igreja Primitiva, quando estes textos foram escritos, os chamaria de Crônicas e não de Evangelhos. Desde cedo os textos que relatam situações da vida de Jesus foram escritos não visando um registro factual, mas para anunciar uma boa notícia, dai serem chamados Evangelhos, palavra grega que significa Boa Notícia, Boas Novas… Ler os Evangelhos com a preocupação de quem lê uma biografia é perder a perspectiva dos autores, é não perceber as boas novas anunciadas.
E mais, a pessoa fica confusa porque os textos não são coerentes entre si, embora Mateus, Marcos e Lucas sejam bem semelhantes, pois foram escritos praticamente no mesmo contexto histórico e geográfico e na mesma época, 30 a 40 anos após o surgimento das comunidades cristãs (evento de Pentecostes). Porém o Evangelho de João surge após o ano 90, em um contexto muito específico e destinado a uma população bem específica: as comunidades judaico-cristãs dispersas em uma região da Ásia que hoje conhecemos como Turquia, as chamadas comunidades joaninas, que viviam a experiência da perseguição pelo Império Romano e pelas sinagogas judaicas, pois em 90 d.C. o Concílio Rabínico reunido em Jamria (Palestina) decidiu que os cristãos eram anátema e os cristãos não poderiam mais participarem da sinagoga.
As narrativas dos milagres de cura que Jesus realizou , por exemplo, querem dizer muito mais do que um simples fato miraculoso. Hoje em dia, as filosofias de prosperidade e auto-ajuda reduzem as narrativas das curas a um simples ato de magia e curandeirismo; porém Jesus não era um curandeiro, (haviam muitos em seu tempo, e prestavam um serviço relevante às populações pobres – como ainda hoje), nem era um mago; Jesus era chamado de Mestre, era conhecido como um rabino, alguém que explica e interpreta a Lei e os Profetas, bases da fé judaica.
Essa forma barata de compreender os milagres reduzem a Fé em Jesus Cristo a uma simples relação de troca com Deus! e um Deus injusto e cruel, porque não faz milagres para todo mundo! As pessoas, iludidas por uma interpretação simplória e geralmente forçada do texto bíblico, vivem no desespero da busca pelo milagre, fazendo mil sacrifícios e práticas insensatas de religiosidade para “merecer a atenção de Deus”; e se o “milagre” não acontece, sentem culpa porque “não tiveram fé suficiente” ou não ofereceram aquilo que Deus desejava delas (geralmente dízimos, trízimos, promessas, etc.). Assim, a narrativa de um “milagre” de Jesus não traz nenhuma Boa Notícia, apenas falsas esperanças… como quando a gente lê a notícia de que alguém ganhou sozinho a Mega-Sena.
Se a intenção da Igreja Primitiva fosse apenas dizer que Jesus fazia milagres, não precisava narrar os fatos com certos detalhes, bastaria uma lista de curas e milagres, sem dar muita explicação sobre como e onde aconteceram. Exatamente por serem narrativas que querem dizer mais que as palavras escritas – apresentar uma Boa Nova! – é que esses textos devem ser lidos e apreendidos com mais profundidade, conhecendo-se seu contexto, pessoas envolvidas, lugares… tudo isso traz uma mensagem que os cristãos àquela época entendiam muito bem e percebiam realmente a Presença de Deus agindo no Mundo – e não apenas na vida de algumas poucas pessoas merecedoras desse carinho divino; todos podiam perceber e experimentar essa ação carinhosa e poderosa de Deus no mundo e em suas vidas, sem esperar por coisas absolutamente mágicas!
Milagres realmente acontecem! mas não acontecem por si mesmos, nem por exibicionismo de Deus! milagres são sinais e significam muito mais do que o fato em si mesmo. É preciso ver além do fato, é preciso compreender a ação de Deus, permitir que Deus Se revele hoje, como Se revelou aos nossos ancestrais na fé.
Por isso, é muito importante que a comunidade da Igreja se reúna, sempre sob a inspiração do Espírito Santo, também para o Estudo da Palavra de Deus, da Bíblia, além da vivência sacramental comunitária e das reuniões de louvor e de oração. É muito importante a leitura pessoal e devocional da Escritura Sagrada, mas também é importante que a comunidade estude e compreenda em profundidade o texto bíblico, para realmente compreender o que Deus está fazendo e nos dizendo hoje!
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Em nossa comunidade paroquial buscamos estudar a Palavra de Deus através dos Sermões de nossos pastores, nos ofícios comunitários. Mas precisamos de mais! Por isso, em breve estaremos divulgando encontros para estudos da Palavra de Deus, além dos nossos ofícios litúrgicos.
Aguarde!
Rev. Luiz Caetano, ost+
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19 janeiro 2013
Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana (2)
Em artigo anterior com este mesmo título (veja Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana), expliquei um pouco sobre como a tradição Episcopal Anglicana entende o conceito de Igreja e o que caracteriza nossa identidade, diferenciando-nos de outras tradições cristãs, não menos importantes e reconhecidas. Afirmamos que nossa identidade como parte da Igreja de Cristo se expressa como unidade na diversidade. Isso tem um significado muito importante e fundamental para que se compreenda o ser (ethos) de nossa Igreja.
Unidade na diversidade significa que não somos uma Igreja Confessional! Explicando: a maioria das Igrejas Cristãs são Confessionais, isto é, adotam uma Confissão de Fé comum que as identifica e define sua forma de ser. Tais Igrejas têm um Corpo Doutrinário, algo como um Catecismo, bem definido, que é aceito por todas as pessoas que congregam nessas Igrejas. A maioria das Igrejas Protestantes Históricas, herdeiras da Reforma do século XVI são Igrejas Confessionais. Quando se constituíram cada uma dessas Igrejas adotou uma Confissão de Fé, uma Declaração de Fé que lhe dá unidade e identidade. Essas Confissões foram definidas em Concílios e Sínodos, e são frutos de consenso que determina o modo de ser da Igreja, o seu “ethos”. Desde a Reforma no século XVI, várias Confissões foram definidas e adotadas por grupos cristãos, e delas derivam muitas das Igrejas Protestantes: a Confissão de Augsburg (1530), a Confissão de Westminster (1634), por exemplo, são as duas mais conhecidas.
Por outro lado, a Igreja Católica Romana também tem seu corpo doutrinário, estabelecido de forma canônica e entendida como Magistério da Igreja, fiel interprete das Escrituras, que se expressa pelos Documentos Papais e da Cúria Vaticana, havendo um Catecismo Oficial para toda a Igreja.
As Igrejas Orientais seguem caminhos diferentes, não foram influenciadas pelas correntes filosóficas que marcaram o Ocidente, mas podemos ver uma certa organização doutrinária na maioria delas; todavia as Igrejas Orientais têm outras características, são profundamente enraizadas nas culturas dos povos onde se estabeleceram e são diferencias por tradições litúrgicas e doutrinárias. De certa forma são Igrejas de Comunhão.
A Igreja da Inglaterra, que é a Igreja de origem da Comunhão Anglicana, teve uma definição confessional a princípio, conhecida como os “39 Artigos de Religião”, que delineiam, digamos assim, sua base doutrinária, tendo adotado a tradição católica do ocidente e do oriente, princípios da Reforma, e incorporou boa parte da tradição da antiga Igreja Celta, que foi quase eliminada com a chegada dos missionários enviados por Roma nos séculos V e VI, finalmente dobrando-se à latinização no século VII (Concilio de Whitby, em 664).
Essa mesma Igreja da Inglaterra acompanhou a expansão do Império Britânico e instalou-se nas colônias e territórios imperiais. Todavia, a Igreja da Inglaterra não se transplantou para as colônias. Fiel ao seu princípio de catolicismo marcado pela Reforma, e o conceito de Igreja Nacional (Igreja de um povo), a Igreja foi se encarnando nas culturas das colônias e assim foram surgindo, a partir dos missionários ingleses, os embriões de Igrejas Nacionais inspiradas no modelo da Igreja da Inglaterra. Os 39 Artigos foram sendo reinterpretados e na maioria das Igrejas derivadas da Igreja da Inglaterra, foram caindo em desuso, uma vez que a reflexão teológica começa a dialogar com as culturas. Nesse sentido o cristianismo da América Latina seguiu caminho completamente oposto…
A formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, por exemplo, não foi apenas uma mudança de nome da Igreja Colonial, mas a união e incorporação de várias correntes cristãs que estavam presente no território norte-americano, que se uniram para formar uma Igreja Nacional que adotou o modelo episcopal de governo e acolheu diferentes tradições e confissões dentro de si mesma – unidade na diversidade! É essa Igreja dos Estados Unidos que vem fazer missão no Brasil ao final do século XIX e dá origem à hoje Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que também é fruto da Missão entre os Japoneses (imigrantes, a partir da Igreja do Japão, especialmente nos Estados de São Paulo e Paraná) e das Capelanias Britânicas nos principais portos brasileiros.
Em meados do século XIX a Igreja da Inglaterra, começa a tomar consciência que seu ethos e sua atividade missionária – aliada ou não ao imperialismo britânico – criou uma rede de Igrejas Nacionais com semelhanças entre si, embora diferenciadas pelas culturas: haviam adotado o governo episcopal (e seus bispos estavam na linha sucessória de bispos ingleses), adotavam uma Liturgia fundamentada no livro de Oração Comum e cooperavam entre si. Por seu lado, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos já fazia missão em vários países da América Latina e da Ásia, mantendo o mesmo princípio de encarnação cultural. Assim surgiu lentamente o conceito de Comunhão Anglicana. A base doutrinária dessa Comunhão é mínima, e conhecida como Quadrilátero de Lambeth-Chicago (1886/1888):
a) As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento como base da Fé confessada pela Igreja, pois contêm tudo que é necessário para a Salvação;
b) A confessionalidade da Comunhão se expressa nos Credos da Igreja Antiga: o Credo Apostólico, o Credo Niceno-Constantinopolitano e também o Credo Atanasiano (quase nunca usado no Brasil);
c) A Comunhão adota os dois sacramentos biblicamente instituídos, a saber, o Batismo e a Eucaristia – os demais são reconhecidos de forma diferenciada nas Igrejas ou mesmo em uma mesma Igreja;
d) O Episcopado Histórico como forma de governo, como garantia da sucessão apostólica e sinal da unidade da Igreja.
Formulada em tal simplicidade, essa base doutrinária permite uma diversidade de interpretações e formas de vivenciar a fé cristã. Não somos uma Igreja monolítica do ponto de vista doutrinário, mas aberta à reflexão permanente e, por isso, muitas vezes os episcopalianos são vistos como vanguarda teológica ou demasiadamente liberais…
Pode-se resumir isso de forma simplista assim: nenhuma devoção, uso ou costume, norma moral (ética sim: fundamenta-se nas Escrituras), padrão litúrgico, modelo de espiritualidade, é obrigatório ou imposto, respeitando-se a prática devocional individual. Por exemplo se você gosta de uma espiritualidade mariana, inspirada na Beatíssima Virgem Maria, viva isso, mas não obrigue os outros a ter a mesma prática.
Por isso, caro leitor, se você visitar várias igrejas de nossa Comunhão, em várias partes do mundo, verá que não há uma uniformidade, mas uma grande diversidade. Essa diversidade ocorre inclusive dentro de uma mesma diocese. Algumas comunidades terão a aparência de uma Igreja Romana anterior ao Vaticano II, ou uma Igreja Oriental: você verá imagens, quadros, muitas velas acesas, a liturgia é realizada com sofisticado cerimonial e o clero paramentado de forma solene; outras comunidades parecerão uma Igreja Evangélica: um discreto altar, sem velas, a decoração do templo no máximo admite um cruz, o cerimonial é bem simples (embora usa-se o mesmo Livro de Oração Comum), há uma ênfase maior na pregação e na piedade pessoal; você ainda encontrará comunidades onde a liturgia é dançada (na África especialmente), os cânticos são modernos e em ritmo popular; outras ainda misturam tudo isso em sua prática comunitária… enfim, ouso dizer que não há duas comunidades anglicanas idênticas em todo o mundo! Todavia, estão em comunhão no Senhorio de Jesus Cristo, em unidade na diversidade, sendo o símbolo dessa unidade o Quadrilátero de Lambeth Chicago.
Pode ser atrevimento de minha parte, uma certa euforia, mas eu sinto que somos muito parecidos com a Igreja Primitiva, antes da cristandade ser estabelecida quando o cristianismo se torna religião oficial e estatal do Império Romano do Ocidente no século IV.
Ser uma Igreja de Comunhão não é simples: não somos unidos porque aceitamos essa ou aquela doutrina, esse ou aquele princípio de usos e costumes, porque rezamos de uma forma ou de outra… somos unidos porque reconhecemos que fazemos parte de uma mesma comunidade de fé, diversa em sua forma de ser, mas centrada em Jesus Cristo, nosso Senhor.
Assim, ninguém se torna verdadeiramente anglicano ou episcopaliano porque adotou uma forma específica de confessar a fé; tornar-se episcopaliano é um exercício contínuo e um desafio, porque você terá de conviver com os diferentes em Comunhão, e terá de aprender a reconhecer a sua Igreja nas suas diversas maneiras de ser, conforme a prática e a história de cada comunidade.
No 1º Centenário da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (1989) adotou-se o lema “Igreja a gente vive!”; isso se opõe ao “Igreja a gente segue!”, e também ao “Igreja do Pastor Fulano!”.
Meu irmão de Ordem, companheiro de ministério e um dos meus confessores, Rev. Onofre Machado Ramos ost+, falecido ano passado, dizia: “Igreja a gente vive com paixão!”. Isso é ser parte de uma Igreja de Comunhão: uma relação sempre de desafio na aceitação do outro, em nome de Jesus Cristo, e de companheirismo solidário.
Rev. Luiz Caetano, ost+
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31 dezembro 2012
O Natal e a Plenitude dos Tempos
São Paulo escreveu ao Gálatas:
Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai". Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro. (Gálatas 3.23-29; 4.4-7 – N.V.I.)
É uma pena que para muitas pessoas o nascimento de Jesus signifique apenas um momento do ano para se ganhar presentes. Nada contra os bonitos presentes que ganhamos neste momento especial do ano, mas não podemos reduzir o Natal a isso.
Quando lemos as escrituras, e em especial a perícope acima, nos damos conta que o primeiro Natal não significou exatamente aquilo que as pessoas hoje leem e acreditam. O primeiro Natal é descrito neste texto como sendo um momento especial. Ele é descrito como a “plenitude dos tempos”.
Por causa desta visão tão especial que Paulo tinha acerca do Natal, nos animamos a refletir hoje sobre o seguinte tema: “Quando a plenitude dos tempos chega…”
Quando a plenitude dos tempos chega, em primeiro lugar, somos livres da escravidão (v. 4, 5):O apóstolo Paulo descreve nossa relação com a Lei ( O Pentateuco), que regia os relacionamentos entre Deus e os homens, como uma relação de submissão. Ele nos diz, por exemplo, que todos estávamos “encerrados” (3:23) ou seja “aprisiona-dos”, “tutelados” (3.23) e “submetidos” (3:25) a ela.
Quando Paulo nos diz que a Lei nos servia de “tutor”, ele estava dizendo que a Lei era uma espécie de guia que deveria nos levar até a escola para que aprendêssemos algo. E, de fato, a Lei nos ensinou o quão pecadores somos. O grande mérito da Lei, segundo Paulo, foi nos ensinar que somos pecadores. Foi nos revelar quem, de fato, somos, e quão necessitados estamos de um médico. A Lei, contudo, era incapaz de apresentar um remédio para a realidade que ela, tão eloquentemente, descrevia. A chegada da plenitude dos tempos, identificado por Paulo como o envio do Filho (v. 4), contudo a realidade muda: O período de escravidão está no fim e a libertação se aproxima.
Quando a plenitude dos tempos chega, em segundo lugar, somos transformam em filhos (V.6). Que mudança radical Paulo descreve aqui! Paulo se serve de uma figura para explicar esta mudança: a figura de uma família. Nas famílias da época além dos pais e dos filhos, havia também os escravos.
Estes não gozavam, obviamente, das mesmas condições e privilégios que eram próprios aos filhos. Contudo, com a chegada da plenitude dos tempos, os escravos são agora transformados em filhos. Eles são, segundo o texto, resgatados (v.5) do poder da Lei e adotados como filhos. A marca mais forte de que agora somos “filhos de Deus” é nosso direito de dizer aquilo que só os filhos legítimos podiam dizer: “Aba, Pai” (v.6), que significa “paizinho”.
Finalmente, quando a plenitude dos tempos chega, em terceiro lugar, somos contados entre os herdeiros (v.7). Uma vez que Deus nos resgatou dos grilhões da Lei, uma vez que ele nos adotou como filhos e nos deu o direito de chamá-Lo como os filhos legítimos o chamam; Ele, na plenitude dos tempos, também nos fez seus herdeiros. Como membros da família de Deus somos também beneficiários e herdeiros de todos os bens de nosso Pai. Esta figura nos assegura que a “fazenda” do Pai pertence a seus filhos e filhas, assim como o “Reino” de Deus também nos espera. E o que nos garante a posse e a entrada nesta nova realidade em que mora a paz, é a plenitude dos tempos, que já chegou.
Esse o grande significado do Natal!
Rev. Daniel, ost
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19 dezembro 2012
Notícia Extraordinária !!!
Anjos são seres celestiais que estão junto do trono de Deus. Há uma enorme quantidade de anjos, de vários tipos, segundo as Escrituras: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades… Mas o nosso assunto aqui não é exatamente sobre anjos, mas sobre um anjo em especial, chamado Gabriel, um Arcanjo (um anjo importante!!!).
Os Arcanjos são mensageiros especiais que trazem uma informação sobre o agir de Deus. Os nomes dos Arcanjos já indicam isso. Assim, Micael (Miguel), significa Deus Luta; Rafael significa Deus Cura; e Gabriel significa Deus Fala, Deus comunica.
Gabriel é o Anunciador do que Deus está fazendo e fará em breve; é o portador de notícias, de novidades! No início do Evangelho de São Lucas, o Arcanjo Gabriel é um personagem importante: ele traz notícias, boas notícias!
Eu sugiro que você leia com atenção Lucas 1.5-38. É um texto muito grande para colocar aqui no blogue; conta das visitas que o Arcanjo Gabriel fez a duas pessoas: a um sacerdote chamado Zacarias e a uma jovem chamada Maria. Nas duas visitas, Gabriel informa que Deus está agindo e em breve fará algo extraordinário!
Deus está para cumprir uma promessa, que foi anunciada pelos profetas e que era esperada pelo povo judeu, desde tempos muito antigos: Deus vai restaurar sua aliança com os seres humanos, vai começar uma nova relação com a humanidade.
Assim, Gabriel primeiro visita Zacarias, um sacerdote piedoso, já de idade avançada, que estava de serviço no Templo em Jerusalém, e anuncia que ele terá um filho, um homem especial, que virá para anunciar a chegada do Salvador, vem preparar o caminho, um caminho que será novo e inaugurado com a chegada do Ungido de Deus:
"Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele, pois será grande aos olhos do Senhor. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor".
Assim, no tempo certo após a visita de Gabriel, a esposa de Zacarias, Isabel, deu à luz um menino que recebeu o nome de João e veio a ser São João Batista, aquele que testemunhou o Cristo quando Jesus chegou para ser batizado por ele. Nos três primeiros domingos do Advento nossa comunidade estudou sobre São João Batista, seu ministério e seu testemunho sobre Jesus, o Cristo.
Seis meses após falar com Zacarias, o Arcanjo Gabriel visitou uma jovem chamada Maria, que vivia em Nazareth, pequena aldeia situada na Galileia – uma região pobre e mal vista pelas pessoas que habitavam nas proximidades de Jerusalém. O que Gabriel revela a Maria é algo extraordinário: ela terá um filho, não um filho simplesmente, mas ela será mãe do Filho de Deus! Ela dará sua carne para que Deus se torne humano e viva entre as pessoas:
O anjo, aproximando-se dela, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!" Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim". Perguntou Maria ao anjo: "Como acontecerá isso, se sou virgem?" O anjo respondeu: "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus”.
Ao contrário de Zacarias, que duvidou das palavras do Arcanjo, Maria – mesmo surpresa e sem entender exatamente o que aquilo significava – colocou-se à disposição de Deus e aceitou ser serva do Senhor!
Os cristãos antigos, para afirmarem sua fé na divindade de Jesus Cristo, deram a Maria o título de Teotókos , portadora de Deus, mais literalmente, “paridora de Deus” (hoje nós a denominamos Mãe de Deus): aquele homem nascido de Maria é o próprio Deus que se encarnou e se tornou parte real da história humana, o Emanuel – Deus Conosco!
Gabriel trouxe uma notícia extraordinária: Deus vem estar conosco para sempre! Celebramos isso no Natal! Jesus não nasce de novo; mas nós celebramos seu nascimento, e oramos para que ele possa nascer no coração de muita gente que ainda não O conhece.
Nós não precisamos que o Arcanjo Gabriel venha nos anunciar novidades extraordinárias! Jesus o Cristo, humano conosco, divino com Deus, está vivo e presente na vida de quem O aceita e O acolhe. Juntamente com o Pai, enviou-nos o Espírito Santo que se manifesta como Deus agindo em nossas vidas, criando o novo, apontando horizontes, renovando a esperança. Se você abrir seu coração ao senhorio de Cristo, você perceberá, pela inspiração do Espírito Santo, o agir de Deus.
Veja bem ao seu redor, Deus está agindo! Deus não está ausente, nem nos deixou à mercê de nossa própria sorte. Ele está conosco em nossa vida, em todos os momentos. É isso que vamos celebrar no Natal: a presença de Deus na história humana, como parte da humanidade, companheiro de caminho, amigo solidário!
Cada pessoa cristã é vocacionada para ser missionária, ser, ao mesmo tempo, como Gabriel (trazendo uma boa notícia!), como João Batista (anunciando o Cristo que já é presente!), e como Maria (portadora de Deus, trazendo Deus para a vida das pessoas!).
Deixe Deus operar em sua vida e você terá boas notícias para anunciar às pessoas que estão ao seu redor. Tente viver isso de forma mais intensa neste tempo de Natal. Será um Natal diferente, um Natal realmente feliz!
Rev. Luiz Caetano, ost+
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15 outubro 2012
Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana
“Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.” (Efésios 4:1-6 N.V.I.)
24 setembro 2012
O maior é o menor!
“E chegaram a Cafarnaum. Quando ele estava em casa, perguntou-lhes: "O que vocês estavam discutindo no caminho?" Mas eles [os discípulos] guardaram silêncio, porque no caminho haviam discutido sobre quem era o maior. Assentando-se, Jesus chamou os Doze e disse: "Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos". (Marcos 9:33-35 – Nova Versão Internacional).
A afirmação de Jesus veio na contra-mão das expectativas de seu tempo, e também do nosso tempo. Que contradição: o maior deve ser o menor! o primeiro deve ser o último! Uma nova maneira de conceituar o poder: o poder é dado para que se possa servir! Autoridade como serviço, e portanto, subalterna ao bem comum!
Talvez seja por isso que a Igreja Cristã, a partir de determinado momento, organiza seu clero em três Ordens: diaconato, presbiterado e episcopado, uma ordem dada sobre a outra, sendo o diaconato a primeira a ser dada. Nós, episcopais anglicanos mantemos essa tradição, o que significa que todo nosso clero é formado por diáconos (servos), onde alguns diáconos são também presbíteros e outros diáconos são, além de presbíteros, bispos. Outras identidades eclesiais separam o diaconato do presbiterado, mas nós seguimos a Tradição que vem dos primeiros séculos da Igreja.
Entretanto, a afirmação de Jesus vai além da Igreja, é um alerta ao mundo. Somos (mal) educados, como cidadãos, a entender que a Autoridade é soberana (e o é), mas de forma absoluta. Confundimos, por exemplo, Governo (quem exerce a autoridade) com Estado (a organização social onde exercício da autoridade é delegado às pessoas que compõem o Governo); e assim nos acostumamos com a corrupção e com as trocas de favores: “vou votar em fulano de tal porque se eleito vai me dar um emprego!”; “não vou votar no sicrano porque quando foi prefeito não dava passagem de ônibus de graça para eu ir à cidade vizinha!” como se o prefeito ou qualquer autoridade pudesse dar aquilo que não lhe pertence (é do Estado), mas está sob seu cuidado (administração, isto é, governo).
Assim, entendemos a autoridade como sendo o maior e mais importante, e lhe atribuímos, por ignorância devida à nossa má educação, o poder absoluto de fazer o que quiser com o bem comum; então surgem as badalações, as trocas de favores, a corrupção. Achamos tudo isso normal, como se fosse natural que o mundo seja assim: alguns tomam o poder e favorecem os seus amigos e aliados e desprezam todo o resto da população. Até mesmo para fazer uma obra em benefício da população, favorecem seus comparsas através da burla em licitações, permissão de superfaturamento, vista grossa quando a lei é ferida, etc. Vemos isso todos os dias denunciado pela imprensa e achamos tudo muito natural.
A Palavra de Jesus é muito clara e objetiva: a autoridade é para o serviço! Não é algo dado a uma pessoa para ela mesma, mas para capacitá-la ao serviço em benefício de todas as demais pessoas sob sua autoridade, em benefício do bem estar de todos!
Os cristãos, realmente comprometidos com a Palavra de Deus, têm o dever de exercer sua cidadania em plenitude e não se conformarem com o senso comum (o mundo). É dever ético cristão, implícito nas palavras de Jesus que a comunidade de fé anuncie essa visão de poder, denuncie os que abusam do poder e testemunhe, através de sua atitude cidadã, a Palavra de Deus.
Isso começa no nosso universo pessoal: como exerço a autoridade em minha casa, na qualidade de pai ou de mãe? como exerço minha autoridade sobre aqueles que são meus empregados, ou subordinados no trabalho? Se me foi delegado um cargo de autoridade, por exemplo, síndico do prédio, diretor da associação do bairro, professor, diretor de escola, etc., como eu a compreendo? como eu exerço esse poder que me foi delegado?
Assim, começando em nossas relações familiares, passando pelas relações profissionais, vamos exercendo a cidadania não só neste mundo, mas sinalizando sermos cidadãos de um outro Reino, o Reino de Deus, o Reino daquele “… que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:6-8 – Nova Versão internacional).
Rev. Luiz Caetano, ost+
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