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23 maio 2017

Ascensão: espiritualidade pé no chão!

ascensãoA narrativa da ascensão de Jesus aparece em três versões: em Marcos, em Lucas e nos Atos dos Apóstolos. Mateus e João não contém essa narrativa, a partir do contexto em que estes Evangelhos foram escritos.

O Evangelho segundo Marcos faz uma pequena referência à ascensão do Senhor e conclui afirmando estar Ele à direita de Deus (significando que Ele detém o poder de Deus).

Mas em Atos dos Apóstolos e no Evangelho de Lucas, a narrativa é bem detalhada, embora um pouco diferente nos dois livros.

Lucas conclui afirmando, como Marcos, que o Cristo foi se afastando e levado para o Céu (lugar de Deus) e os discípulos retornam a Jerusalém cheios de alegria. Mas o Livro de Atos apresenta um detalhe importantíssimo:

1.8 Porém, quando o Espírito Santo descer sobre vocês, vocês receberão poder e se-rão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até nos lugares mais distantes da terra. 9 Depois de ter dito isso, Jesus foi levado para o céu diante deles. Então uma nuvem o cobriu, e eles não puderam vê-lo mais. 10 Eles ainda estavam olhando firme para o céu enquanto Jesus subia, quando dois homens vestidos de branco apareceram perto deles 11 e disseram: — Homens da Galileia, por que vocês estão aí olhando para o céu? Esse Jesus que estava com vocês e que foi levado para o céu voltará do mesmo modo que vocês o viram subir. (Atos 1.8-11 - NTLH)

15 abril 2017

Esperando…

Cruz da GuatemalaSábado Santo veio novamente. É sempre um daqueles dias em que eu não sei o que pensar ou que sentir sobre ele. Como a maioria dos sábados, a igreja está calma e tranquila, exceto pela agitação da atividade dos que cuidam do altar da Igreja, preparando o altar e para as celebrações do dia seguinte. Além disso, é mais um dia na vida da igreja, um dia em que não há reuniões em qualquer uma das salas e salões paroquiais, somente à noite para realização da Vigília Pascoal (aqueles que fazem), há uma aparente sensação de espera.

Sobre a espera que eu penso no Sábado Santo. Recentemente, um número de pessoas que eu conheço estão passando pela dor de esperar por várias coisas, algumas delas pela morte de seus entes queridos. É uma libertação para os moribundos, mas é uma dor para aqueles que estão esperando. Esperar assim custa muito para uma pessoa, significa a perda iminente de alguém muito importante em suas vidas. Por outro lado, é sensação de medo ver outro lado da cama vazia ou um quarto vazio, porque pode ser apenas no momento em que o amado passe para uma vida melhor. Continua sendo difícil para nós, e mesmo sabendo que vai acontecer, nunca estamos realmente e totalmente preparados para isso.

27 fevereiro 2017

O Tempo da Quaresma

Cruz da Quaresma 3Desde os dias primitivos da vida da Igreja, o povo cristão tem observado com grande devoção o tempo da Paixão e da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. É costume prepararmo-nos para essas celebrações com penitência e jejum.
Antigamente, o Tempo da Quaresma era observado pelas pessoas que se preparavam para o Batismo, que acontecia na Páscoa, e por aquelas pessoas que seriam restauradas à plenitude da vida da Igreja. Recordava-se, assim, a mensagem de perdão e absolvição proclamada no Evangelho, e a constante necessidade de renovação do arrependimento e da fé.
O Tempo da Quaresma se inicia na quarta-feira seguinte ao último domingo do Tempo da Epifania, chamada Quarta-Feira de Cinzas, e termina no primeiro dia da Semana Santa, chamado Domingo de Ramos, totalizando 40 dias. A Igreja lembra, assim, os 40 dias que o Senhor Jesus passou em jejum no deserto, antes de iniciar seu ministério de anúncio da Boa Nova. Recorda-se, também, de forma simbólica, os 40 anos que o povo hebreu passou no deserto, como peregrino diante de Deus, até chegar à Terra Prometida, após a Libertação do jugo egípcio.

20 dezembro 2016

O Tempo Litúrgico do Natal

Natal 2O tempo Litúrgico do Natal começa com a Vigília de Natal (a noite de 24 de dezembro) e termina na Véspera do Dia da Epifania do Senhor (6 de janeiro).
Tempo de festa e alegria, a Igreja relembra a chegada de nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus que se tornou carne humana, e vive conosco para sempre!
Na Celebração da Natividade do Senhor ascende-se a quinta vela da Coroa do Advento, de cor branca, símbolo do Cristo, a Luz do Mundo!
Para as pessoas que vivem acima do Equador, portanto no hemisfério norte, é Inverno, o clima é muito frio e as noites são longas. Mas para nós, que vivemos no hemisfério sul, é Verão; portanto, faz calor e as noites são curtas. Por isso, nós não percebemos bem o simbolismo do Natal, uma festa de luz e de alegria, de esperança renovada.

26 outubro 2016

Uma questão de Justiça!

Viuva Chata 2a ovalA conhecida parábola “O Juiz Iníquo” é geralmente interpretada como uma orientação sobre a necessidade de se insistir na oração diante de Deus. Ou seja, Deus é como o juiz iníquo! Arrogante, e cheio de si, tipo aqueles que sempre perguntam ao interlocutor: “sabe com quem está falando?”. Seria Deus tão arrogante assim?  Jesus estava dizendo isso sobre o Papai?
Com certeza, não! Tal identidade contradiz tudo que Jesus nos ensina sobre Papai. Então, o objetivo da parábola é outro.  Vamos ao texto:
1 Jesus contou a seguinte parábola, mostrando aos discípulos que deviam orar sempre e  nun-ca desanimar: 2  — Em certa cidade havia um juiz que não temia a Deus e não respeitava ninguém. 3 Nessa cidade morava uma viúva que sempre o procurava para pedir justiça, dizendo: “Ajude-me e julgue o meu caso contra o meu adversário!” 4  — Durante muito tempo o juiz não quis julgar o caso da viúva, mas afinal pensou assim: “É verdade que eu não temo a Deus e também não respeito ninguém. 5 Porém, como esta viúva continua me aborrecendo, vou dar a sentença a favor dela. Se eu não fizer isso, ela não vai parar de vir me amolar até acabar comigo.” 6 E o Senhor continuou: — Prestem atenção naquilo que aquele juiz desonesto disse. 7 Será, então, que Deus não vai fazer justiça a favor do seu próprio povo, que grita por socorro dia e noite? Será que ele vai demorar para ajudá-lo? 8 Eu afirmo a vocês que ele julgará a favor do seu povo e fará isso bem depressa. Mas, quando o Filho do Homem vier, será que vai encontrar fé na terra? (Lucas 18.1-8 / NTLH)

23 fevereiro 2016

Justiça, Misericórdia e Perdão


Na Bíblia, a palavra “misericórdia” aparece centenas de vezes.  Eu afirmo, até, que “misericórdia” é um dos grandes temas bíblicos. Acima de tudo, a Bíblia revela a Misericórdia de Deus, o Deus Misericordioso e Justo. Sim, porque Misericórdia e Justiça são lados de uma mesma figura, no conceito bíblico! É Deus quem julga a humanidade e Sua Justiça se baseia na Misericórdia
Em Mateus 5:7 Jesus diz: “ Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia”. Deus é misericordioso com quem exerce a misericórdia: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.” (Tiago 2:13), ou seja a misericórdia está acima do juízo!  Assim, a misericórdia é algo a ser exercida como obediência a Deus! O julgamento de Deus se baseia no critério de cada pessoa.  Jesus afirmou “Porque, com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” (Mateus 7:2).
Todavia, quando pensamos em julgamento por Deus, muitas vezes imaginamos o Senhor como um juiz severo e mal encarado, feliz em condenar sem apelações (na verdade, em nossa cultura ocidental fomos ensinados assim!). Mas não é assim! Porque o juízo misericordioso de Deus tem, como prioridade, o Perdão!  O Perdão é o terceiro lado que compõe, com a Misericórdia e a Justiça , a figura imaginária do Deus Amoroso que se revela em Jesus, o Cristo.

11 fevereiro 2016

Deus é muito chato!

Não estou blasfemando! Isso é dito, com muitas palavras indignadas, no Livro de Jonas.

O Livro de Jonas é uma fábula. Explico: seu texto é um tanto absurdo, mas traz uma lição importante: a lição sobre o que significa ser Profeta.  Trata-se de um texto singelo e até divertido; é um desabafo e, ao mesmo tempo, uma advertência para quem recebe o chamado para ser Profeta (e o aceita).

Vamos ver o que o Livro de Jonas nos ensina sobre o ser Profeta (as citações são da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil)

Certo dia, o SENHOR Deus disse a Jonas, filho de Amitai:  — “Apronte-se, vá à grande cidade de Nínive e grite contra ela, porque a maldade daquela gente chegou aos meus ouvidos”. Jonas se aprontou, mas fugiu do SENHOR, indo na direção contrária. Ele desceu a Jope e ali encontrou um navio que estava de saída para a Espanha. Pagou a passagem e embarcou a fim de viajar com os marinheiros para a Espanha, para longe do SENHOR.  (Jn 1.1-2)


Estava lá o Jonas, tranquilo e sossegado, cuidando de sua vida. Então Deus o chamou e o mandou ir a Nínive! Caramba! Nínive?! a capital da Assíria, um Império cruel (como todos os Impérios), que arrasou o Reino do Norte (Israel) e levou seu povo ao cativeiro?!?! Mas que coisa chata!

24 dezembro 2015

Um menino nos nasceu!


Um Menino nasceu para nós... pobre; na periferia de uma grande cidade situada na periferia de um grande Império (opressor como todos os impérios); visitado pelos pastores, aqueles que vivem fora dos muros; deitado em uma manjedoura, um curral, porque não havia quem o hospedasse... 
Alguém ainda lembra o que realmente se festeja?

19 dezembro 2015

O Lado Escuro da Força

Herói e Bandido
Sem dúvida, a bactéria consumista deste final de ano é mais um episódio da série Guerra nas Estrelas.

Nada contra a serie, que, aliás, gosto muito e assisti todos os episódios. De certa forma, é uma série inteligente, mas demasiadamente fantasiosa para ser considerada Ficção Científica de boa qualidade.

O Darth Vader é ao mesmo tempo um vilão e um herói. Foi considerado pela crítica como um dos personagens mais significativos e emblemáticos do cinema no século XX, e pelo jeito, continua sendo nestas quase duas décadas do século XXI.

A estória do Darth Vader é conhecida: o “Jedi” Anakin Skywalker, depois de perder sua condição de “Cavaleiro Jedi”, e ter sofrido uma barbaridade (perdeu as pernas, teve quase todo seu corpo queimado por lava), entrega-e plenamente à sedução do “Lado Escuro da Força”.

Maniqueísmos à parte, toda a saga , como a maioria das produções de Hollywood, acaba sendo a velha luta entre o Bem e o Mal, com uma tremenda sofisticação tecnológica e um enredo muito bem bolado; mas no fundo, continua sendo um filme de “mocinho e bandido”, com direito à cavalaria chegando para salvar a pátria… e o bandido morre.

22 novembro 2015

Milagres Acontecem?!

Viuva de Naim 2
Várias vezes acontece de pessoas me pararem na rua e perguntarem: “Padre, sua Igreja faz milagre?”  ou então: “Estou interessado na sua Igreja; o que ela tem para oferecer?”
É muito complicado dar uma resposta a perguntas desse tipo. Obviamente,  militantes imprudentes do proselitismo dirão que a resposta é simples: responder “Sim” à primeira questão e responder mostrando as atividades da igreja no caso da segunda, e, óbvio, convidar para que venha conhecer a igreja, que será bem recebido, que Jesus tem um presente para a pessoa, etc.
Mas não é tão simples, porque, por trás dessas perguntas estão alguns equívocos, e até mesmo uma disfarçada idolatria consumista, além de, muitas vezes , uma mente desesperada, uma alma aflita.
Eu costumo manter o diálogo assim:
“Padre, sua Igreja faz milagre?”  Respondo: “Olhe, a Igreja não é minha, mas é de Cristo; e ela não faz milagre, Deus é quem faz, em qualquer lugar e até lá… mas nós não fazemos disso uma propaganda para atrair pessoas, porque o milagre não é um mérito da Igreja, mas uma graça que Deus concede às pessoas que têm fé. Quando isso acontece, nós louvamos a Deus, mas não ficamos divulgando por ai, porque Deus não precisa de publicidade, nem milagres são possíveis de serem comprados. Você quer que eu ore com você?”
“O que a sua Igreja tem para oferecer?”  Respondo: “Olhe, a Igreja não é minha, mas é de Cristo. Ela tem para oferecer algo muito pequeno, nada de espetacular que esteja disponível em um Shopping. O que ela oferece cabe na palma da mão, Jesus disse que é do tamanho de uma sementinha… mas não se compra isso, nem se ganha com dinheiro, bajulação e arrogância; é de graça, mas requer muita humildade. E tem uma coisa importante que você precisa saber: exige compromisso e comprometimento. Você está mesmo interessado? Se estiver, será bem vindo!”

26 junho 2015

Você é cristão?!?!?!

cruzCaminhar com Jesus Cristo não é fácil. Não é uma opção filosófica. Não é adotar um estilo de vida. Não é ser “bonzinho”. Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, aceitar um convite, um chamado, e todas as implicações que isso traz.

No tempo presente, o nome de Jesus Cristo é insultado diariamente. Espertalhões que exploram a fé do povo cometem, “em nome de Jesus”, falcatruas visando angariar dinheiro de maneira imediata, deturpam descaradamente a Bíblia, que para os Cristãos é a Palavra de Deus, anunciam falsas promessas ou, por outro lado, defendem uma moralidade hipócrita e irrelevante, como se o Deus da Igreja fosse um grande negociante ou um soberano mal humorado.  Transformam a Fé Cristã em consumismo religioso vazio de conteúdo, prometendo em nome de Deus o que Ele jamais prometeu! E buscam as instâncias de poder do Estado para, com tal poder, atingir seus mais torpes objetivos.

As comunidades de fé que ainda resistem a essa onda diabólica, se tornam cada vez menores, e passam por forte crise de identidade. Há uma pressão sobre elas para acompanharem a onda do consumo religioso e crescer a qualquer preço.

Ao mesmo tempo, diante das falcatruas e das propostas moralistas hipócritas e excludentes, pessoas inteligentes se afastam de qualquer coisa que tenha um significado religioso, especialmente um significado “cristão”.

Muita gente inteligente, hoje, afirma crer em Deus, mas não frequenta qualquer religião. A religião é vista como algo nocivo e enganador, movida por organizações (chamadas Igrejas) cujo interesse é acumular riquezas, e explorar a boa fé das pessoas mais simples.

Todavia, pouca gente compreende que caminhar com Jesus Cristo não é simplesmente adotar uma religião ou vincular-se a uma instituição.  Igrejas sempre estão cheias de gente, mas não significa que estão cheias de pessoas cristãs!

Caminhar com Jesus Cristo é, acima de tudo, uma experiência que surge a partir de um convite: “Vem, e segue-me!”  É uma experiência que só tem sentido quando vivida em uma comunidade de oração, serviço, anúncio e testemunho. Tal comunidade é, desde os tempos dos Apóstolos, chamada de Igreja. Não uma instituição, mas uma grande comunidade.  Sem essa percepção, tudo perde sentido!

É claro que as comunidades de fé se organizam institucionalmente. Não podem fugir disso. É da própria natureza dos agrupamentos humanos organizarem-se com normas de direitos e deveres, símbolos e ações simbólicas, definições de autoridade e exercício de poder dentro do agrupamento. Mas nada disso é absoluto por si mesmo, mas é antes de tudo, a maneira de compreender as limitações humanas e colocar-se na total dependência de Deus. Não há autoridade única e absoluta na Igreja de Deus, a não ser a de Jesus Cristo. Todo o resto se procura fazer em obediência e atendimento ao chamado: “Vem e segue-me!

Como tudo que é humano, a grande comunidade de fé se organiza, e se denomina tal organização de “Igreja” e, ainda que possa abranger muitas comunidades de fé espalhadas pelo mundo, traz em si mesma a imperfeição humana e a tentação do pecado. Em todo tempo e lugar sempre acontecem desvios e muitas vezes o absoluto de Deus é deixado de lado.  Na teologia, isso se chama pecado.

Por ser humana, a Igreja está cercada pelo pecado. Por isso,  a comunidade de fé está sempre se renovando e se reformando, procurando corrigir os desvios e tentando evitar a tentação de ser absoluta por si mesma. Por isso, a Igreja se reúne como comunidade para, acima de tudo, colocar-se diante do Senhor, reconhecer seus pecados, e receber a Graça Libertadora que anima toda a comunidade a permanecer fiel e caminhando com Jesus Cristo neste mundo!

Há muita safadeza no chamado “mercado religioso”. Há muita gente “esperta” que, tal como um vampiro, vive parasitando as pessoas com promessas vazias, falsos testemunhos e muitas vezes acompanhado de uma moralidade hipócrita, excludente e preconceituosa.

Mas há também muitas comunidades de fé que não se deixam levar pelos demônios da exploração e da falcatrua; acolhem com afeto e simpatia todas as pessoas que, tendo ouvido o Chamado, buscam vivenciar essa experiência em uma comunidade de irmãos e irmãs.

São essas pessoas que tornam o testemunho cristão relevante diante das mazelas do mundo. São tais pessoas que, nos momentos mais duros e difíceis da sociedade humana são capazes de empenhar a própria vida visando o bem estar de todos. É porque ainda existem os que atenderam ao Chamado que a solidariedade, embora rara hoje em dia, ainda acontece. 

Isso não é um privilégio das comunidades Cristãs. Afinal, o próprio Jesus informou, aos seus discípulos mais próximos, que Ele tem ovelhas em outros apriscos…  e eu entendo que lá Ele é reconhecido, mas chamado por outro nome…

Rev. Luiz Caetano, ost+

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03 junho 2015

SS. Trindade: Justiça, Misericórdia e Graça!

Síntese do Sermão proferido no Domingo da SS. Trindade

ss_trindade08Conta uma tradição que certa vez estava Santo Agostinho de Hipona refletindo sobre o “Mistério da SS. Trindade”. Ele queria entender a partir da lógica helenista de seu tempo. Agostinho, olhando para a praia enquanto meditava, viu um menino brincando na areia, de forma curiosa: o menino havia cavado um buraco na areia e, com um vasilhame, corria até o mar e trazia água que jogava no buraco, e ficava olhando. Em seguida, ele voltava ao mar, e trazia água e jogava no buraco. E fez isso muitas vezes. Agostinho ficou encafifado com aquilo e resolveu descer até a praia para ver aquilo de perto. Ele precisava espairecer um pouco porque sua cabeça estava doendo de tanto pensar sobre a SS. Trindade e, talvez brincando um pouco com o menino, poderia distrair-se.

Chegando à praia, viu que o menino continuava fazendo a mesma coisa, parecia até um ritual: ia até o mar, enchia o vasilhame com água e jogava no buraco cavado na areia. Agostinho se aproximou e perguntou ao menino: “_ O que você está fazendo, com essa brincadeira de buscar água e jogar dentro do buraco?”. Olhando para Agostinho, o menino disse: “_Estou colocando o mar todinho dentro desse buraco!”

Agostinho riu e fazendo um carinho na cabeça do menino, disse: “_ Meu filho, isso é uma coisa impossível! Você não vê que a areia absorve a água que você joga? essa água volta para o mar… você não vai conseguir colocar o mar todo no buraco que você cavou, nem que faça o buraco crescer dez vezes!” O menino, olhando bem nos olhos de Agostinho disse: “_ Pois saiba que é mais fácil eu colocar o mar todo neste buraco que você explicar a SS. Trindade!”; em seguida, o menino desapareceu.

Agostinho entendeu que um Anjo, enviado por Deus, veio até ele para, simplesmente, ensinar que o Mistério da SS. Trindade é realmente um mistério, trata-se de uma percepção e não de uma racionalização.

A lenda, que aparentemente é uma apelação autoritária sobre a doutrinária, não nos serve para compreendermos o mistério.  A tradição bíblica do Antigo Testamento nos fala do Deus de Justiça!  Já, o Novo testamento nos apresenta o Deus da Misericórdia, e o Deus que derrama a Graça sobre seu povo.

O que significam Justiça, Misericórdia e Graça no contexto bíblico? Sem estender muito o assunto, podemos entender assim: JUSTIÇA é dar a cada um o que merece: o castigo ou a absolvição! MISERICÓRDIA é não dar a cada um a punição que merece! GRAÇA é dar a cada um o que não merece! (1) 

Mistério é algo que, estando oculto, é revelado! ou seja, quem sabe olhar, o vê! Mistério é algo que está ai, na cara da gente, mas só quem sabe olhar pode ver! E esse seria o olhar da fé!

Não explicamos racionalmente a SS. Trindade; nem estamos dando uma interpretação racional, pois, afinal, não queremos colocar todo o mar em um buraco na praia, mas esta é uma proposta de reflexão que pode ajudar você, leitor e leitora, a refletir no significado desse Mistério e o quê esse Mistério aponta para a sua vida e a vida da Comunidade de Fé:

O Deus Justo se revela em Seu Filho como Deus Misericordioso e se manifesta como o Deus da Graça, movendo seu povo a proclamar que um novo mundo é possível, a Boa Nova de Jesus o Cristo! 

A aventura utópica* da fé nos mantem na esperança desse novo mundo: como diz Aquele que está no Trono, conforme o Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5b).

* Utopia (gr.: u topos) = não lugar ainda, pode vir a ser lugar; é diferente de Atopia (gr.: a topos) = nunca lugar! Utopia é um horizonte, Atopia é coisa nenhuma!

(1) Devo esta conceituação ao Prof. Dr. Márcio Redondo, em palestra apresentada  durante um evento preparatório para a Assembleia Geral do CLAI, em 2005, na Faculdade Teológica Sul-Americana, na cidade de Londrina (PR).

Rev. Luiz Caetano, ost+

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05 abril 2015

O discípulo viu e creu: Jesus está vivo!

Viu e Creu 2Domingo bem cedo, quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi até o túmulo e viu que a pedra que tapava a entrada tinha sido tirada. Então foi correndo até o lugar onde estavam Simão Pedro e outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse: — Tiraram o Senhor Jesus do túmulo, e não sabemos onde o puseram!  Então Pedro e o outro discípulo foram até o túmulo. Os dois saíram correndo juntos, mas o outro correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro. Ele se abaixou para olhar lá dentro e viu os lençóis de linho; porém não entrou no túmulo. Mas Pedro, que chegou logo depois, entrou. Ele também viu os lençóis colocados ali e a faixa que tinham posto em volta da cabeça de Jesus. A faixa não estava junto com os lençóis, mas estava enrolada ali ao lado. Aí o outro discípulo, que havia chegado primeiro, também entrou no túmulo. Ele viu e creu. [...] E os dois voltaram para casa. Maria Madalena tinha ficado perto da entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, ela se abaixou, olhou para dentro e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus. Um estava na cabeceira, e o outro, nos pés. Os anjos perguntaram: — Mulher, por que você está chorando? Ela respondeu: — Levaram embora o meu Senhor, e eu não sei onde o puseram! Depois de dizer isso, ela virou para trás e viu Jesus ali de pé, mas não o reconheceu. Então Jesus perguntou: — Mulher, por que você está chorando? Quem é que você está procurando? Ela pensou que ele era o jardineiro e por isso respondeu: — Se o senhor o tirou daqui, diga onde o colocou, e eu irei buscá-lo.   — Maria! — disse Jesus. Ela virou e respondeu em hebraico: — “Rabôni!” (Esta palavra quer dizer “Mestre”.) Jesus disse: — Não me segure, pois ainda não subi para o meu Pai. Vá se encontrar com os meus irmãos e diga a eles que eu vou subir para aquele que é o meu Pai e o Pai deles, o meu Deus e o Deus deles. Então Maria Madalena foi e disse aos discípulos de Jesus: — Eu vi o Senhor! E contou o que Jesus lhe tinha dito.          (Evangelho de João, 20.1-18 – NTLH)
O texto bíblico fala por si mesmo. Tem sua própria linguagem! Tem sua própria semântica, seu contexto e intenção! É pelo teu coração que você precisa ver e crer!
A Fé Cristã só pode ser entendida e experimentada como um dom!  Ele é como poesia... Uma poesia de Ivan Junqueira, pode ajudar a entender isso:

FLOR AMARELA
(Ivan Junqueira - * 1934 , + 2014)
Atrás daquela montanha tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela, o menino que você era.
Porém,
se atrás daquela montanha não houver a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha tenha uma flor amarela,
com o menino que você era
guardado dentro dela.
Lido dentro de uma lógica cartesiana/aristotélica, o texto se torna absurdo. Lido na perspectiva da fé (e da poesia), o texto ganha significado de esperança, cria sentido para a vida, abre portas para libertação!
Jesus Cristo está vivo! Hoje e sempre!
Rev. Luiz Caetano, ost+

17 fevereiro 2015

Lema da Quaresma 2015: Renovando-nos como Igreja!

OraçãoÉ preciso que voltemos nosso olhar ao Evangelho para libertarmo-nos de conceitos, usos e costumes que foram sendo incorporados pela Igreja no decorrer de sua História. A Igreja deve estar em constante reforma, para que possa responder aos desafios deste tempo presente e dar o testemunho da vida em Cristo. Cada comunidade da Diocese na região do Arcediagado do Rio de Janeiro começa o processo de construir um Plano Trianual, um processo permanente de planejamento e avaliação, para caminhar rumo a uma renovação em termos de organização e percepção missionária. É um princípio que herdamos da Reforma do século XVI: Igreja Reformada, sempre se reformando!
Uma mudança de paradigmas é algo complexo, lento e não muito simples! A renovação da Igreja só acontecerá se cada um de nós renovarmo-nos diante de Deus, a partir do estudo e leitura orante da Palavra de Deus, se formos capazes de fazermos isso não só individualmente, mas também enquanto comunidade confessante.
Precisamos olhar a nós mesmos como comunidade, olharmos a realidade onde estamos inseridos, detectar as oportunidades e os desafios para nossa ação missionária. Ação missionária não significa proselitismo, mas testemunho diante das realidades do mundo. Devem ser as nossas atitudes, as nossas ações que apresentem o Evangelho, não o palavreado exagerado tentando convencer pessoas! Palavras podem convencer, mas atitudes convertem!
No processo de construção do Plano Trianual, apresentado na Conferência Diocesana de setembro passado, usaremos o método ver, julgar, agir e celebrar, a partir de uma avaliação do que temos sido, observar a realidade ao nosso redor, analisar essa realidade para compreende-la e definir o que podemos fazer nessa realidade como missão e testemunho, para construirmos relações de comunhão e serviço.
Comece você mesmo essa reflexão pessoal, depois faça-a com sua família, estenda à nossa comunidade: vamos iniciar o processo de VER! e de JULGAR!
Enquanto pessoa no mundo, você deve se perguntar:
1.Vendo e avaliando a mim mesmo: Como está minha vida pessoal? O que está bom? O que pode melhorar? O que precisa mudar?
2. Vendo e conversando com a minha família: Como está nossa vida familiar? O que está bom? O que pode melhorar? O que precisa mudar?
3. Vendo e conhecendo os arredores de minha casa: como é a vizinhança? que necessidades temos como moradores no bairro? como você e sua família podem ajudar?
4. Vendo e avaliando meu espaço profissional: Como são meus colegas de trabalho, meus clientes, meus fornecedores, meus empregados, meus superiores, meus subordinados? como tem sido a convivência? há pessoas sofrendo? necessitando algum tipo de apoio? que eu posso fazer?
Enquanto Comunidade Paroquial devemos nos perguntar e conversar:
1. Vendo e avaliando a mim mesmo perante a comunidade: Como eu tenho participado e assumido responsabilidades sendo parte de uma comunidade de fé? O que posso oferecer à Comunidade?
2. Vendo e avaliando nossa vida comunitária: quais as nossas necessidades? o que está bem na comunidade? o que precisa melhorar? o que precisa mudar? há necessitados entre nós, do ponto de vista de apoio emocional, financeiro, etc.? como podemos ajudar?
3. Vendo e avaliando nosso testemunho comunitário: nossa Paróquia tem tido uma presença concreta nas demandas do povo que habita o bairro de Santa Teresa e adjacências? que temos de mudar em nossa presença? o que mais podemos fazer? Como podemos incrementar as relações com as demais Igrejas em Santa Teresa? Como eu me enquadro nesse processo (como espectador ou agente com a comunidade)?
Vamos ter oportunidades de conversar e aprofundar essas questões em comunidade, mas é preciso que cada um de nós comece agora o processo de reflexão.
Que o Espírito Santo nos acompanhe e nos ilumine! Amém!
Vossos Pastores, na comunhão com o Bispo:
Rev. Luiz Caetano, ost+  e Rev. Daniel, ost+

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05 setembro 2014

Renovar a vida

(Leia em tua bíblia: Evangelho de João 11.1-45)

Forte é a morte, que tem o poder para privar-nos do dom da vida.  Forte é o amor, que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor. (Balduíno, Tratado 10 )

ressureição de LázaroNo tempo de sua caminhada conosco, Jesus manifestou, muitas vezes, por ações e palavras, a grande esperança da vida que ele vinha oferecer a todas as pessoas. Ele aparece nos Evangelhos como a única luz capaz de esclarecer as nossas dúvidas em torno da morte. Algo que é uma certeza de cada um de nós.

A ressurreição de Lázaro é o sinal mais concreto para afirmar que Ele veio para que tenhamos vida, mas vida em plenitude. Nesta passagem, encontramos Jesus indo ao encontro do amigo morto, para exatamente dizer que a morte não é um fim em sim mesma, mas que pode ser vencida pelo gesto de esperança e amor Nele. É isso que Ele faz com Maria e Marta. Tristes com a morte do irmão e com medo do futuro. Por isso Cristo vai consola-las, mais dizer: “Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais”!

Através de Sua vida, morte e ressurreição, Ele revela-nos que não somos feitos para “morrer eternamente” e sim “viver eternamente” ou “viver em plenitude”; e não podemos ficar indiferentes diante dos atentados contra a vida, seja qual for, tão frequentes em nossos dias. Entendendo isso, o teólogo Harvey Cox – no seu livro “A Festa dos Foliões”, mostra como a explosão de vida e alegria se relaciona com a fé, a esperança e o amor...

Em certo sentido, nossas indignações contra morte são justas: manifestam-se nas profundezas de nosso ser, de onde brota a convicção de que a vida é algo muito precioso que não pode ser destruída sob qualquer pretexto.

Nossa esperança cristã não deve e não pode ser a de quem aguarda como simples espectador, que espera de braços cruzados algo acontecer, mas de mangas arregaçadas, para agir em Cristo na reconstrução de uma vida de esperança, mais digna e justa para todos.

Por isso o compositor Gonzaguinha numa inspiração, que só pode ser cristã, fala em sua canção:

Viver e não ter a vergonha de ser feliz, /Cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. / Eu sei que a vida podia ser melhor – e será! / Mais isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita, é bonita!

Rev. Daniel Rangel, ost+

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02 agosto 2014

Pastoral ou Poder?

jesus e os fariseus e saduceus
      Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos: Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.  Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.  Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o maior dentre vós será vosso servo. Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado. (Mateus 23 1-12)
Este capítulo do Evangelho segundo Mateus se encontra inúmeras vezes a frase: “Ai de vós, Escribas e Fariseus”; a frase é bem forte, um tom de condenação. Esta expressão vem dos livros dos proféticos e sempre tem um teor condenatório para quem o recebe, uma critica sobre a atitude de quem o recebe.
Jesus ataca os religiosos da sua época (sacerdote e escribas) por causa do clericalismo exagerado que havia em seu tempo. Qualquer ato religioso deveria passar pelo sacerdote e/ou os fariseus (os únicos interpretes da lei). Além disso, obrigavam pesadas penitências às pessoas para expurgar os pecados. Os escribas e os fariseus conseguiam assim hegemonia e controle sobre o sagrado e controlando, por isso mesmo, a vida do povo no campo social, religioso e político.
Como o ser humano consegue corromper as coisas boas quando se encantam pelo poder! Jesus, em Mateus, esta criticando a tendência dos religiosos em deter o monopólio da vida e do sagrado do povo da época, criando um clericalismo exagerado, como “deuses” na terra.
Infelizmente vemos religiosos manipulado o povo com o sagrado e a santidade. Usando de sua posição para manipular e vilipendiar pessoas que buscam simplesmente serem bons crentes e seguidores da fé. Por isso me lembrei desta frase: “O homem verdadeiramente santo é aquele que não se preocupa com a santidade, assim como o homem que se deixa dominar pelo amor não se importa mais com conceitos e classificações” que dizia o teólogo e educador Rubem Alves (1933-2014). Com isso, ser bom ou santo é algo que deve ser incorporado naturalmente no nosso dia a dia. E não uma qualidade a ser usada e explorada pelo homem.
Sabemos que em nossa Igreja, como na maioria das denominações cristãs, existe o clero (bispo, presbíteros e diáconos); os quais precisam, a todo o momento, lembrar que – como Igreja e como clero – não têm a última palavra, pois nós, anglicanos, herdamos, pela Reforma, o conceito de sacerdócio universal dos fiéis, de que fala a Epistola aos Hebreus. 
Todavia, às vezes, por causa das tentações que a posição lhes dá, membros do clero buscam apenas desfrutar das regalias do ministério, e desviam seu ministério (serviço) pastoral buscando controlar a vida das pessoas ao seu bel prazer, usando-as e explorando-as emocionalmente.
Jesus nos alerta, ainda hoje, que o crente (o povo) tem a possibilidade de tomar decisões sobre a sua vida, e que nós, do clero, somos simples orientadores espirituais. Cabe a nós,  clérigos, realizar nossa atividade pastoral (visitas e aconselhamento) com espírito de humildade e simplicidade para não cairmos na tentação do monopólio da vida dos fies.
Rev. Daniel Rangel, ost+
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20 abril 2014

JESUS CRISTO ESTÁ VIVO!

Jesus Ressucitado com Madalena

A Proclamação do Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, segundo São João, no capítulo 20, começando no versículo 1º até o versículo 18º.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra estava revolvida. Então, correu e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes:

_”Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram.”

Saiu, pois, Pedro e o outro discípulo e foram ao sepulcro. Ambos corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro; e, abaixando-se, viu os lençóis de linho; todavia, não entrou. Então, Simão Pedro, seguindo-o, chegou e entrou no sepulcro. Ele também viu os lençóis e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte. Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu.  Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos. E voltaram os discípulos outra vez para casa.

Maria, entretanto, permanecia junto à entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, abaixou-se, e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira e outro aos pés. Então, eles lhe perguntaram: _”Mulher, por que choras?”

Ela lhes respondeu: _ “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.”

Tendo dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não reconheceu que era Jesus.

Perguntou-lhe Jesus: _”Mulher, por que choras? A quem procuras?”

Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: _ “Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.” 

Disse-lhe Jesus:”_Maria!”

Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: _“Raboni!” (que quer dizer Mestre)

Recomendou-lhe Jesus: _”Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.”

Então, saiu Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi o Senhor! E contava que ele lhe dissera estas coisas.

Este é o Evangelho do Senhor!

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25 fevereiro 2014

Um olhar para as Bem Aventuranças

discipulo

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.   Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque  alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.    Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (Mateus 5.1-12 – Almeida,R.A.)

Na Tradição do Antigo Testamento, a Lei declarada por Moisés se torna lei dos hebreus. Todavia, com o passar do tempo foi reinterpreta pelos interpretes autorizados (escribas e fariseus) para favorecer, no tempo do Novo Testamento, os religiosos e as elites judaicas, se tornando opressora e excludente do povo mais simples da época.

Os mais simples não tinham como observar os inúmeros preceitos lei que eram impostos para eles, sendo considerados sempre “pecadores”, “devedores” para com os códigos de purificação a serem cumpridos no Templo, através de sacrifícios e ofertas. Por outro lado, as elites do Templo e das Sinagogas, cumprindo esses preceitos, julgavam-se “puras”, “justas” e “santas”.

Neste contexto que é declarada as Bem Aventuranças (no grego: makarion), Jesus proclama um caminho alternativo para o povo simples, um caminho de justiça e amor, um olhar para vida de maneira mais leve e livre. As bem aventuranças não têm a intenção de substituir a Lei mosaica. Antes, são um chamado, ou uma proposta, para uma nova vida, com a prática da Justiça conduzindo ao Amor e à Paz. Priorizando o direito à vida plena, Jesus empenha-se em retirar as amarras das interpretações equivocadas da Lei, opressoras e excludentes, colocando a Lei no devido lugar sempre a favor do povo simples, humilde e explorado.

Sendo assim a mensagem das bem-aventuranças para hoje se torna mais ao menos assim: Os pobres descobrem seu espaço nas comunidades que vivem a partilha. Os que choram passam a sorrir no novo convívio da fraternidade. Os mansos cativam os corações aproximando-se uns dos outros. Os que tem fome e sede de Justiça são saciados pela conquista disto. Os misericordiosos, cheios de compaixão, livram aqueles que tem sua consciência impregnada de culpabilidade por causa desta visão opressora da vida. Os de coração puro são sensíveis a tudo o que é justo para todos sem discriminação. Os pacificadores se comprometem na construção de um mundo livre da ambição, da violência, do consumismo desenfreado, do hedonismo e egocentrismo.

A pratica do amor é libertador! subverte a ordem vigente porque sempre pensa no outro, na concórdia, nos que estão perto e longe. Infelizmente quem assume esta posição é perseguido, difamado, morto. Mas a alegria de unir a sua vida em comunhão com todas as pessoas, juntamente com Pai – que é amor, fraternidade e paz – é  eterna e não cessam neste mundo. Por isso o Cristo fala em “Alegrai-vos e regozijai-vos, pois grande é o vosso galardão nos Céus!”

Rev. Daniel, ost+

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24 dezembro 2013

Onde está o Menino?

Ache o bebe“Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer. E foram apressadamente e acharam Maria e José, e a criança deitada na manjedoura.” (os pastores, cf. Lucas 2.15b-16)

“Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adora-lo.” (os Magos, em Jerusalém, cf. Mateus 2.2)

“...então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer.” (atitude de Herodes, cf. Mateus 2.4)

“...Herodes, tendo chamado secretamente os Magos, inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera. E enviando-os a Belém, disse-lhes: ‘Ide informar-vos cuidadosamente a respeito; do menino; e quando o tiverdes encontrado, avisai-me para eu também ir adora-lo.” (Herodes, aos Magos, cf. Mateus 2.7-8)

“Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram...” (os Magos, em Belém, cf. Mateus 2.11)

“Sendo por divina advertência prevenidos em sonho para não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra” (os Magos, cf. Mateus 2.12)

Onde está o Menino?

Cada um, por sua própria motivação, faz essa pergunta, e recebe a resposta que merece:

    • a) Os pastores, gente simples, excluída e que vivia fora da cidade, não perguntaram; a eles foi revelado gratuitamente pelos anjos; a eles foi anunciada a chegada do Salvador!
    • b) Os Magos do Oriente, que provavelmente seriam exorcizados na maioria das mega-igrejas pós-modernas, não eram judeus, não eram do povo eleito, a eles foi reveladosegundo a sua própria maneira de conhecer o Sagrado – a chegada do Rei. E eles partiram para vê-lo e adora-lo e indagaram... os mesmos Magos que recebem do Divino a advertência de não mais procurarem Herodes e regressarem por outro caminho: vieram de um jeito, retornaram de outro, desta vez guiados não mais pela estrela, mas pelo Divino!
    • c) Herodes, o rei, o poderoso, judeu mestiço, parte do povo eleito, mas lacaio do Império Romano que a tudo e todos dominava, em seu coração temeu perder o poder e as regalias, para ele a resposta não foi dada, e em seu desespero, tornou-se assassino pelo medo de perder o poder.

Neste início do século XXI, já desde o final do século XX, celebramos o Natal em meio ao consumismo, ao Papai Noel, aos banquetes e às vazias mensagens de paz e boa-vontade (no dia 26 os bancos e a agiotagem geral, impiedosamente, estarão liquidando vidas – como Herodes - em nome de dívidas e amparados pela lei – talvez até mesmo de alguns que receberam sua mensagem natalina); mas a pergunta ainda está presente: Onde está o Menino?

Talvez o Menino esteja entre os moradores de rua, que no dia 26 estarão buscando no lixo, as sobras dos banquetes do desperdício, recolhendo caixas de papelão dos brinquedos e TV’s digitais, para vender a fim de poder comprar pão e um pouco de dignidade...

Talvez o Menino esteja em algum assentamento de pobres migrantes no terceiro mundo – como aliás, estava em Belém....

Talvez o Menino esteja em algum lar muçulmano na Palestina, sem esperança futura de uma cidadania com dignidade, pois isso lhes é negada por um Estado de opressão...

Talvez o Menino esteja em algum cidade iraquiana ou afegã, entre as ruínas do assassinato... que motiva mais assassinatos... talvez o Menino acabe se tornando um terrorista, porque de Salvação só lhe restará a vingança...

Talvez o Menino esteja em algum acampamento de assolados pela seca, pela fome e pela opressão em algum canto da África, sem futuro, sem esperança, sem nada…

Talvez o Menino esteja na pequena e pobre comunidade cristã em alguma periferia ou favela controlada pelo tráfico de drogas, esquecida dos serviços públicos e à mercê da boa-vontade dos traficantes e dos milicianos…

Talvez hoje o Menino seja também uma Menina, qualquer criança ameaçada de viver, no futuro, em um mundo onde a água será privilégio e a natureza estará, em sua loucura, vingando tudo aquilo que a humanidade destruiu em nome da riqueza e do progresso.

Mas com certeza – e assim nos mostram Lucas e Mateus – o Menino não está nos grandes palácios dos poderosos (fosse em Roma, ou Jerusalém naquele tempo, seja em Washington, Bruxelas, Moscou, Brasília e tantos lugares onde o poder se instala em palácios cercados de barracos...).

Com certeza não estará entre os donos da verdade que, em sua arrogância, negam a diversidade e demonizam todos que diferem ou discordam deles...

Com certeza não estará nos mega-templos dos shows mirabolantes e da venda do sagrado...

Com certeza não estará como membro de qualquer instituição religiosa que segue a própria lógica da manutenção de seu “status quo”...

O Menino quer estar no teu coração... mas para isso é preciso que faças a pergunta certa, com o motivo certo, e não tenhas medo se a resposta não for aquela que imaginas.

O Menino nasce no estábulo, na periferia, é revelado entre pastores que vivem fora da cidade e é visto pelos Magos, que vieram de longe seguindo uma estrela. Não seja um Herodes!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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12 novembro 2013

Seguir a Cristo hoje!

Jesus com discípulos 3Lemos na 2ª Carta de Paulo a Timóteo:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. […] São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante; porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles. Tu, porém, tens seguido, de perto, o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (II Timóteo 3.1-17 – Almeida, R.A.)

No tempo de Timóteo, como no nosso tempo, seguir Jesus Cristo traz problemas: o autor da epístola diz claramente: Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”. Complicado isso, não é? Afinal, religião devia trazer paz e bem estar pra gente! A gente vai à Igreja em busca disso, não é?

De fato, quem pretende consumir religião, pensa assim mesmo! Quer viver em paz, ter certeza de que Deus o abençoa, resolver sua vida, enfim, se dar bem!

Porém, o real seguimento a Jesus Cristo implica, muitas vezes em estar na contramão, em seguir caminhando com Fé, geradora da Esperança!

Não se trata de eliminar o prazer, a alegria, o bem viver… mas de tomar atitudes que contrariam a lógica do consumismo, do egocentrismo e da satisfação momentânea de todos os desejos. Significa sair da mediocridade imediatista, da superficialidade do moralismo, da vazia auto-satisfação que gera cada vez mais a necessidade de autoestima, numa busca sem fim do sentido da vida!

O texto acima de II Timóteo parece ter sido escrito para uma pessoa cristã de nosso tempo, não do primeiro século cristão!

De fato, seguir a Jesus Cristo é um caminho estreito e, muitas vezes, complicado, porque  nos faz parecer estranhos para os outros, e pode trazer perseguição – há muitas formas de perseguição hoje em dia… Afinal, uma pessoa cristã, que busca seguir Jesus Cristo, norteia sua vida e suas atitudes por outros valores! Olha o mundo de forma crítica e busca criar relações de solidariedade e comunhão…

Leia novamente o texto acima de II Timóteo. E reflita sobre sua vida e sobre os caminhos que você vem seguindo…

E decida: queres ouvir a Jesus Cristo e seguir com Ele? ou prefere a mesmice do cotidiano ansioso em busca de um sentido concreto para a sua vida?

Rev. Luiz Caetano, ost+

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