Os artigos deste blogue expressam o pensamento de seus autores, e não refletem necessariamente o pensamento unânime absoluto da comunidade paroquial. Tal unanimidade seria resultado de um dogmatismo restrito e isso contraria o ethos episcopal anglicano. O objetivo deste blogue é fornecer subsídios para a reflexão e não doutrinação. Se você deseja enviar um artigo para publicação, entre em contato conosco e envie seu texto, para análise e decisão sobre a publicação. Artigos recebidos não serão necessariamente publicados.

Pesquisar este blog

08 fevereiro 2013

Sobre milagres: não basta ler, é preciso compreender!

Os 4 Evangelhos 2Muita gente lê os Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) como se fossem um registro histórico sobre Jesus, isto é, uma “biografia” de Jesus. Se realmente os Evangelhos fossem uma biografia ou um simples relato histórico sobre Jesus, a Igreja Primitiva, quando estes textos foram escritos, os chamaria de Crônicas e não de Evangelhos. Desde cedo os textos que relatam situações da vida de Jesus foram escritos não visando um registro factual, mas para anunciar uma boa notícia, dai serem chamados Evangelhos, palavra grega que significa Boa Notícia, Boas Novas… Ler os Evangelhos com a preocupação de quem lê uma biografia é perder a perspectiva dos autores, é não perceber as boas novas anunciadas.

E mais, a pessoa fica confusa porque os textos não são coerentes entre si, embora Mateus, Marcos e Lucas sejam bem semelhantes, pois foram escritos praticamente no mesmo contexto histórico e geográfico e na mesma época, 30 a 40 anos após o surgimento das comunidades cristãs (evento de Pentecostes). Porém o Evangelho de João surge após o ano 90, em um contexto muito específico e destinado a uma população bem específica: as comunidades judaico-cristãs dispersas em uma região da Ásia que hoje conhecemos como Turquia, as chamadas comunidades joaninas, que viviam a experiência da perseguição pelo Império Romano e pelas sinagogas judaicas, pois em 90 d.C. o Concílio Rabínico reunido em Jamria (Palestina) decidiu que os cristãos eram anátema e os cristãos não poderiam mais participarem da sinagoga.

As narrativas dos milagres de cura que Jesus realizou , por exemplo, querem dizer muito mais do que um simples fato miraculoso. Hoje em dia, as filosofias de prosperidade e auto-ajuda reduzem as narrativas das curas a um simples ato de magia e curandeirismo; porém Jesus não era um curandeiro, (haviam muitos em seu tempo, e prestavam um serviço relevante às populações pobres – como ainda hoje), nem era um mago; Jesus era chamado de Mestre, era conhecido como um rabino, alguém que explica e interpreta a Lei e os Profetas, bases da fé judaica.

Essa forma barata de compreender os milagres reduzem a Fé em Jesus Cristo a uma simples relação de troca com Deus! e um Deus injusto e cruel, porque não faz milagres para todo mundo! As pessoas, iludidas por uma interpretação simplória e geralmente forçada do texto bíblico, vivem no desespero da busca pelo milagre, fazendo mil sacrifícios e práticas insensatas de religiosidade para “merecer a atenção de Deus”; e se o “milagre” não acontece, sentem culpa porque “não tiveram fé suficiente” ou não ofereceram aquilo que Deus desejava delas (geralmente dízimos, trízimos, promessas, etc.). Assim, a narrativa de um “milagre” de Jesus não traz nenhuma Boa Notícia, apenas falsas esperanças… como quando a gente lê a notícia de que alguém ganhou sozinho a Mega-Sena.

Se a intenção da Igreja Primitiva fosse apenas dizer que Jesus fazia milagres, não precisava narrar os fatos com certos detalhes, bastaria uma lista de curas e milagres, sem dar muita explicação sobre como e onde aconteceram. Exatamente por serem narrativas que querem dizer mais que as palavras escritas – apresentar uma Boa Nova! – é que esses textos devem ser lidos e apreendidos com mais profundidade, conhecendo-se seu contexto, pessoas envolvidas, lugares… tudo isso traz uma mensagem que os cristãos àquela época entendiam muito bem e percebiam realmente a Presença de Deus agindo no Mundo – e não apenas na vida de algumas poucas pessoas merecedoras desse carinho divino; todos podiam perceber e experimentar essa ação carinhosa e poderosa de Deus no mundo e em suas vidas, sem esperar por coisas absolutamente mágicas!

Milagres realmente acontecem! mas não acontecem por si mesmos, nem por exibicionismo de Deus! milagres são sinais e significam muito mais do que o fato em si mesmo. É preciso ver além do fato, é preciso compreender a ação de Deus, permitir que Deus Se revele hoje, como Se revelou aos nossos ancestrais na fé.

Por isso, é muito importante que a comunidade da Igreja se reúna, sempre sob a inspiração do Espírito Santo, também para o Estudo da Palavra de Deus, da Bíblia, além da vivência sacramental comunitária e das reuniões de louvor e de oração. É muito importante a leitura pessoal e devocional da Escritura Sagrada, mas também é importante que a comunidade estude e compreenda em profundidade o texto bíblico, para realmente compreender o que Deus está fazendo e nos dizendo hoje!

--------

Em nossa comunidade paroquial buscamos estudar a Palavra de Deus através dos Sermões de nossos pastores, nos ofícios comunitários. Mas precisamos de mais! Por isso, em breve estaremos divulgando encontros para estudos da Palavra de Deus, além dos nossos ofícios litúrgicos.

Aguarde!

Rev. Luiz Caetano, ost+

===/===

19 janeiro 2013

Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana (2)

seja igrejaEm artigo anterior com este mesmo título  (veja Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana), expliquei um pouco sobre como a tradição Episcopal Anglicana entende o conceito de Igreja e o que caracteriza nossa identidade, diferenciando-nos de outras tradições cristãs, não menos importantes e reconhecidas. Afirmamos que nossa identidade como parte da Igreja de Cristo se expressa como unidade na diversidade. Isso tem um significado muito importante e fundamental para que se compreenda o ser (ethos) de nossa Igreja.

Unidade na diversidade significa que não somos uma Igreja Confessional! Explicando: a maioria das Igrejas Cristãs são Confessionais, isto é, adotam uma Confissão de Fé comum que as identifica e define sua forma de ser. Tais Igrejas têm um Corpo Doutrinário, algo como um Catecismo, bem definido, que é aceito por todas as pessoas que congregam nessas Igrejas. A maioria das Igrejas Protestantes Históricas, herdeiras da Reforma do século XVI são Igrejas Confessionais. Quando se constituíram cada uma dessas Igrejas adotou uma Confissão de Fé, uma Declaração de Fé que lhe dá unidade e identidade.  Essas Confissões foram definidas em Concílios e Sínodos, e são frutos de consenso que determina o modo de ser da Igreja, o seu “ethos”. Desde a Reforma no século XVI, várias Confissões foram definidas e adotadas por grupos cristãos, e delas derivam muitas das Igrejas Protestantes: a Confissão de Augsburg (1530), a Confissão de Westminster (1634), por exemplo, são as duas mais conhecidas.

Por outro lado, a Igreja Católica Romana também tem seu corpo doutrinário, estabelecido de forma canônica e entendida como Magistério da Igreja, fiel interprete das Escrituras, que se expressa pelos Documentos Papais e da Cúria Vaticana, havendo um Catecismo Oficial para toda a Igreja.

As Igrejas Orientais seguem caminhos diferentes, não foram influenciadas pelas correntes filosóficas que marcaram o Ocidente, mas podemos ver uma certa organização doutrinária na maioria delas; todavia as Igrejas Orientais têm outras características, são profundamente enraizadas nas culturas dos povos onde se estabeleceram e são diferencias por tradições litúrgicas e doutrinárias. De certa forma são Igrejas de Comunhão.

A Igreja da Inglaterra, que é a Igreja de origem da Comunhão Anglicana, teve uma definição confessional a princípio, conhecida como os “39 Artigos de Religião”, que delineiam, digamos assim, sua base doutrinária, tendo adotado a tradição católica do ocidente e do oriente, princípios da Reforma, e incorporou boa parte da tradição da antiga Igreja Celta, que foi quase eliminada com a chegada dos missionários enviados por Roma nos séculos V e VI, finalmente dobrando-se à latinização no século VII (Concilio de Whitby, em 664).

Essa mesma Igreja da Inglaterra acompanhou a expansão do Império Britânico e instalou-se nas colônias e territórios imperiais. Todavia, a Igreja da Inglaterra não se transplantou para as colônias. Fiel ao seu princípio de catolicismo marcado pela Reforma, e o conceito de Igreja Nacional (Igreja de um povo), a Igreja foi se encarnando nas culturas das colônias e assim foram surgindo, a partir dos missionários ingleses, os embriões de Igrejas Nacionais inspiradas no modelo da Igreja da Inglaterra.  Os 39 Artigos foram sendo reinterpretados e na maioria das Igrejas derivadas da Igreja da Inglaterra, foram caindo em desuso, uma vez que a reflexão teológica começa a dialogar com as culturas. Nesse sentido o cristianismo da América Latina seguiu caminho completamente oposto…

A formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, por exemplo, não foi apenas uma mudança de nome da Igreja Colonial, mas a união e incorporação de várias correntes cristãs que estavam presente no território norte-americano, que se uniram para formar uma Igreja Nacional que adotou o modelo episcopal de governo e acolheu diferentes tradições e confissões dentro de si mesma – unidade na diversidade! É essa Igreja dos Estados Unidos que vem fazer missão no Brasil ao final do século XIX e dá origem à hoje Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que também é fruto da Missão entre os Japoneses (imigrantes, a partir da Igreja do Japão, especialmente nos Estados de São Paulo e Paraná) e das Capelanias Britânicas nos principais portos brasileiros.

Em meados do século XIX a Igreja da Inglaterra, começa a tomar consciência que seu ethos e sua atividade missionária – aliada ou não ao imperialismo britânico – criou uma rede de Igrejas Nacionais com semelhanças entre si, embora diferenciadas pelas culturas: haviam adotado o governo episcopal (e seus bispos estavam na linha sucessória de bispos ingleses), adotavam uma Liturgia fundamentada no livro de Oração Comum e cooperavam entre si. Por seu lado, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos já fazia missão em vários países da América Latina e da Ásia, mantendo o mesmo princípio de encarnação cultural. Assim surgiu lentamente o conceito de Comunhão Anglicana.  A base doutrinária dessa Comunhão é mínima, e conhecida como Quadrilátero de Lambeth-Chicago (1886/1888):

a) As Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento como base da Fé confessada pela Igreja, pois contêm tudo que é necessário para a Salvação;

b) A confessionalidade da Comunhão se expressa nos Credos da Igreja Antiga: o Credo Apostólico, o Credo Niceno-Constantinopolitano e também o Credo Atanasiano (quase nunca usado no Brasil);

c) A Comunhão adota os dois sacramentos biblicamente instituídos, a saber, o Batismo e a Eucaristia – os demais são reconhecidos de forma diferenciada nas Igrejas ou mesmo em uma mesma Igreja;

d) O Episcopado Histórico como forma de governo, como garantia da sucessão apostólica e sinal da unidade da Igreja.

Formulada em tal simplicidade, essa base doutrinária permite uma diversidade de interpretações e formas de vivenciar a fé cristã. Não somos uma Igreja monolítica do ponto de vista doutrinário, mas aberta à reflexão permanente e, por isso, muitas vezes os episcopalianos são vistos como vanguarda teológica ou demasiadamente liberais…

Pode-se resumir isso de forma simplista assim: nenhuma devoção, uso ou costume, norma moral (ética sim: fundamenta-se nas Escrituras), padrão litúrgico, modelo de espiritualidade, é obrigatório ou imposto, respeitando-se a prática devocional individual. Por exemplo se você gosta de uma espiritualidade mariana, inspirada na Beatíssima Virgem Maria, viva isso, mas não obrigue os outros a ter a mesma prática.

Por isso, caro leitor, se você visitar várias igrejas de nossa Comunhão, em várias partes do mundo, verá que não há uma uniformidade, mas uma grande diversidade. Essa diversidade ocorre inclusive dentro de uma mesma diocese. Algumas comunidades terão a aparência de uma Igreja Romana anterior ao Vaticano II, ou uma Igreja Oriental: você verá imagens, quadros, muitas velas acesas, a liturgia é realizada com sofisticado cerimonial e o clero paramentado de forma solene; outras comunidades parecerão uma Igreja Evangélica: um discreto altar, sem velas, a decoração do templo no máximo admite um cruz, o cerimonial é bem simples (embora usa-se o mesmo Livro de Oração Comum), há uma ênfase maior na pregação e na piedade pessoal; você ainda encontrará comunidades onde a liturgia é dançada (na África especialmente), os cânticos são modernos e em ritmo popular; outras ainda misturam tudo isso em sua prática comunitária… enfim, ouso dizer que não há duas comunidades anglicanas idênticas em todo o mundo! Todavia, estão em comunhão no Senhorio de Jesus Cristo,  em unidade na diversidade, sendo o símbolo dessa unidade o Quadrilátero de Lambeth Chicago. 

Pode ser atrevimento de minha parte, uma certa euforia, mas eu sinto que somos muito parecidos com a Igreja Primitiva, antes da cristandade ser estabelecida quando o cristianismo se torna religião oficial e estatal do Império Romano do Ocidente  no século IV.

Ser uma Igreja de Comunhão não é simples: não somos unidos porque aceitamos essa ou aquela doutrina, esse ou aquele princípio de usos e costumes, porque rezamos de uma forma ou de outra… somos unidos porque reconhecemos que fazemos parte de uma mesma comunidade de fé, diversa em sua forma de ser, mas centrada em Jesus Cristo, nosso Senhor.

Assim, ninguém se torna verdadeiramente anglicano ou episcopaliano porque adotou uma forma específica de confessar a fé; tornar-se episcopaliano é um exercício contínuo e um desafio, porque você terá de conviver com os diferentes em Comunhão, e terá de aprender a reconhecer a sua Igreja nas suas diversas maneiras de ser, conforme a prática e a história de cada comunidade. 

No 1º Centenário da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (1989) adotou-se o lema “Igreja a gente vive!”; isso se opõe ao “Igreja a gente segue!”, e também ao “Igreja do Pastor Fulano!”.

Meu irmão de Ordem, companheiro de ministério e um dos meus confessores, Rev. Onofre Machado Ramos ost+, falecido ano passado, dizia: “Igreja a gente vive com paixão!”. Isso é ser parte de uma Igreja de Comunhão: uma relação sempre de desafio na aceitação do outro, em nome de Jesus Cristo, e de companheirismo solidário.

Rev. Luiz Caetano, ost+

===/===

31 dezembro 2012

O Natal e a Plenitude dos Tempos

natividade_sexto_sentido_14_0001_500_x_396São Paulo escreveu ao Gálatas:

                    Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: "Aba, Pai". Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro. (Gálatas 3.23-29; 4.4-7 – N.V.I.)

É uma pena que para muitas pessoas o nascimento de Jesus signifique apenas um momento do ano para se ganhar presentes. Nada contra os bonitos presentes que ganhamos neste momento especial do ano, mas não podemos reduzir o Natal a isso.

Quando lemos as escrituras, e em especial a perícope acima, nos damos conta que o primeiro Natal não significou exatamente aquilo que as pessoas hoje leem e acreditam. O primeiro Natal é descrito neste texto como sendo um momento especial. Ele é descrito como a “plenitude dos tempos”.

Por causa desta visão tão especial que Paulo tinha acerca do Natal, nos animamos a refletir hoje sobre o seguinte tema: “Quando a plenitude dos tempos chega…”

Quando a plenitude dos tempos chega, em primeiro lugar, somos livres da escravidão (v. 4, 5):O apóstolo Paulo descreve nossa relação com a Lei ( O Pentateuco), que regia os relacionamentos entre Deus e os homens, como uma relação de submissão. Ele nos diz, por exemplo, que todos estávamos “encerrados” (3:23) ou  seja “aprisiona-dos”, “tutelados” (3.23) e “submetidos” (3:25) a ela.

Quando Paulo nos diz que a Lei nos servia de “tutor”, ele estava dizendo que a Lei era uma espécie de guia que deveria nos levar até a escola para que aprendêssemos algo. E, de fato, a Lei nos ensinou o quão pecadores somos. O grande mérito da Lei, segundo Paulo, foi nos ensinar que somos pecadores. Foi nos revelar quem, de fato, somos, e quão necessitados estamos de um médico. A Lei, contudo, era incapaz de apresentar um remédio para a realidade que ela, tão eloquentemente, descrevia. A chegada da plenitude dos tempos, identificado por Paulo como o envio do Filho (v. 4), contudo a realidade muda: O período de escravidão está no fim e a libertação se aproxima.

Quando a plenitude dos tempos chega, em segundo lugar, somos transformam em filhos (V.6). Que mudança radical Paulo descreve aqui! Paulo se serve de uma figura para explicar esta mudança: a figura de uma família. Nas famílias da época além dos pais e dos filhos, havia também os escravos.

Estes não gozavam, obviamente, das mesmas condições e privilégios que eram próprios aos filhos. Contudo, com a chegada da plenitude dos tempos, os escravos são agora transformados em filhos. Eles são, segundo o texto, resgatados (v.5) do poder da Lei e adotados como filhos. A marca mais forte de que agora somos “filhos de Deus” é nosso direito de dizer aquilo que só os filhos legítimos podiam dizer: “Aba, Pai” (v.6), que significa “paizinho”.

Finalmente, quando a plenitude dos tempos chega, em terceiro lugar, somos contados entre os herdeiros (v.7). Uma vez que Deus nos resgatou dos grilhões da Lei, uma vez que ele nos adotou como filhos e nos deu o direito de chamá-Lo como os filhos legítimos o chamam; Ele, na plenitude dos tempos, também nos fez seus herdeiros. Como membros da família de Deus somos também beneficiários e herdeiros de todos os bens de nosso Pai. Esta figura nos assegura que a “fazenda” do Pai pertence a seus filhos e filhas, assim como o “Reino” de Deus também nos espera. E o que nos garante a posse e a entrada nesta nova realidade em que mora a paz, é a plenitude dos tempos, que já chegou.

Esse o grande significado do Natal!

Rev. Daniel, ost

===/===

19 dezembro 2012

Notícia Extraordinária !!!

Zacarias_e_anjo_Gabriel

Anjos são seres celestiais que estão junto do trono de Deus. Há uma enorme quantidade de anjos, de vários tipos, segundo as Escrituras: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades… Mas o nosso assunto aqui não é exatamente sobre anjos, mas sobre um anjo em especial, chamado Gabriel, um Arcanjo (um anjo importante!!!).

Os Arcanjos são mensageiros especiais que trazem uma informação sobre o agir de Deus. Os nomes dos Arcanjos já indicam isso. Assim, Micael (Miguel), significa Deus Luta; Rafael significa Deus Cura; e Gabriel significa Deus Fala, Deus comunica.

Gabriel é o Anunciador do que Deus está fazendo e fará em breve; é o portador de notícias, de novidades! No início do Evangelho de São Lucas, o Arcanjo Gabriel é um personagem importante: ele traz notícias, boas notícias!

Eu sugiro que você leia com atenção Lucas 1.5-38. É um texto muito grande para colocar aqui no blogue; conta das visitas que o Arcanjo Gabriel fez a duas pessoas: a um sacerdote chamado Zacarias e a uma jovem chamada Maria. Nas duas visitas, Gabriel informa que Deus está agindo e em breve fará algo extraordinário!

Deus está para cumprir uma promessa, que foi anunciada pelos profetas e que era esperada pelo povo judeu, desde tempos muito antigos: Deus vai restaurar sua aliança com os seres humanos, vai começar uma nova relação com a humanidade.

Assim, Gabriel primeiro visita Zacarias, um sacerdote piedoso, já de idade avançada, que estava de serviço no Templo em Jerusalém, e anuncia que ele terá um filho, um homem especial, que virá para anunciar a chegada do Salvador, vem preparar o caminho, um caminho que será novo e inaugurado com a chegada do Ungido de Deus:

"Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele, pois será grande aos olhos do Senhor. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor".

Assim, no tempo certo após a visita de Gabriel, a esposa de Zacarias, Isabel, deu à luz um menino que recebeu o nome de João e veio a ser São João Batista, aquele que testemunhou o Cristo quando Jesus chegou para ser batizado por ele. Nos três primeiros domingos do Advento nossa comunidade estudou sobre São João Batista, seu ministério e seu testemunho sobre Jesus, o Cristo.

Seis meses após falar com Zacarias, o Arcanjo Gabriel visitou uma jovem chamada Maria, que vivia em Nazareth, pequena aldeia situada na Galileia – uma região pobre e mal vista pelas pessoas que habitavam nas proximidades de Jerusalém. O que Gabriel revela a Maria é algo extraordinário: ela terá um filho, não um filho simplesmente, mas ela será mãe do Filho de Deus! Ela dará sua carne para que Deus se torne humano e viva entre as pessoas:anunciacao

O anjo, aproximando-se dela, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!" Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim". Perguntou Maria ao anjo: "Como acontecerá isso, se sou virgem?" O anjo respondeu: "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus”.

Ao contrário de Zacarias, que duvidou das palavras do Arcanjo, Maria – mesmo surpresa e sem entender exatamente o que aquilo significava – colocou-se à disposição de Deus e aceitou ser serva do Senhor!

Os cristãos antigos, para afirmarem sua fé na divindade de Jesus Cristo, deram a Maria o título de Teotókos , portadora de Deus, mais literalmente, “paridora de Deus” (hoje nós a denominamos Mãe de Deus): aquele homem nascido de Maria é o próprio Deus que se encarnou e se tornou parte real da história humana, o Emanuel – Deus Conosco!

Gabriel trouxe uma notícia extraordinária: Deus vem estar conosco para sempre! Celebramos isso no Natal! Jesus não nasce de novo; mas nós celebramos seu nascimento, e oramos para que ele possa nascer no coração de muita gente que ainda não O conhece.

Nós não precisamos que o Arcanjo Gabriel venha nos anunciar novidades extraordinárias! Jesus o Cristo, humano conosco, divino com Deus, está vivo e presente na vida de quem O aceita e O acolhe. Juntamente com o Pai, enviou-nos o Espírito Santo que se manifesta como Deus agindo em nossas vidas, criando o novo, apontando horizontes, renovando a esperança. Se você abrir seu coração ao senhorio de Cristo, você perceberá, pela inspiração do Espírito Santo, o agir de Deus.

Veja bem ao seu redor, Deus está agindo! Deus não está ausente, nem nos deixou à mercê de nossa própria sorte. Ele está conosco em nossa vida, em todos os momentos. É isso que vamos celebrar no Natal: a presença de Deus na história humana, como parte da humanidade, companheiro de caminho, amigo solidário!

Cada pessoa cristã é vocacionada para ser missionária, ser, ao mesmo tempo, como Gabriel (trazendo uma boa notícia!), como João Batista (anunciando o Cristo que já é presente!), e como Maria (portadora de Deus, trazendo Deus para a vida das pessoas!).

Deixe Deus operar em sua vida e você terá boas notícias para anunciar às pessoas que estão ao seu redor. Tente viver isso de forma mais intensa neste tempo de Natal. Será um Natal diferente, um Natal realmente feliz!

Rev. Luiz Caetano, ost+

===/===

28 novembro 2012

Fé, Justiça e Amor

Jesus caminhandoAinda pensando na festa “Jesus Cristo, Rei do Universo”, volto ao texto que relata Jesus entrando em Jerusalém, num jumento, com as multidões gritando e aclamando-o como rei:

         Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé e Betânia, perto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: "Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo que entrarem, encontrarão um jumentinho amarrado, no qual ninguém jamais montou. Desamarrem-no e tragam-no aqui. Se alguém lhes perguntar: ‘Por que vocês estão fazendo isso? ’ digam-lhe: ‘O Senhor precisa dele e logo o devolverá’". Eles foram e encontraram um jumentinho, na rua, amarrado a um portão. Enquanto o desamarravam, alguns dos que ali estavam lhes perguntaram: "O que vocês estão fazendo, desamarrando esse jumentinho?" Os discípulos responderam como Jesus lhes tinha dito, e eles os deixaram ir. Trouxeram o jumentinho a Jesus, puseram sobre ele os seus mantos; e Jesus montou. Muitos estenderam seus mantos pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam cortado nos campos. Os que iam adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana! "Bendito é o que vem em nome do Senhor!" "Bendito é o Reino vindouro de nosso pai Davi! " "Hosana nas alturas!" Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-se ao templo. Observou tudo à sua volta e, como já era tarde, foi para Betânia com os Doze.      (Marcos 11:1-11 – N.V.I)

O Sinédrio, vendo isso, conspirou para mata-lo porque, analisando mal a cena, achou que Jesus lidera uma revolta contra os poderes estabelecidos.

Assim, quando Jesus entra em Jerusalém, ele sabe que será visto como ameaça e haveriam reações fortes. Pois tem percepção que sua vida e ministério contrariavam os interesses dos poderosos. Seu ministério se tornou ação política porque questiona as prioridades, os valores e a legitimidade das autoridades políticas e religiosas, incapazes de servir o bem comum. No entanto, ele não entra em Jerusalém para tomar o poder, nem fazer parte da maquina política: ele não anseia por poder. Pois o Poder dele é outro: Disse Jesus: "O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui". (João 18.36)

Essa fina linha de coerência entre seu discurso e a sua prática nos mostra como devemos viver. Jesus nos desafia, tanto como indivíduos, como sociedade, a vivermos de acordo com os padrões de sua Mensagem, a Boa Nova, Boa Noticia que transforma a vida cotidiana em vida em abundância. Vida que, ao mesmo tempo, dá autonomia, liberdade e livre pensar. Jesus ensina que devemos ser altruístas: o serviço ao próximo sem ansiar retornos ou vantagens pessoais. Assim, ser discípulo de Cristo é andar um caminho que, incomodamos e sofremos reações decorrentes das nossas atitudes concretas.

Duas grandes tentações nos tiram deste caminho: primeiro, somos tentados a resolver os nossos problemas ou/e dos outros “espiritualmente”: o problema se torna subjetivo, isentando-me da agir por minha livre decisão, não permitindo uma atitude concreta, me tornado infantil e dependente emocional da “vida espiritual”. Em segundo lugar, somos tentados a idolatrar o poder e a desejá-lo, acreditando que, se o “nosso padrão” seja aceito – ou imposto aos outros – tudo será lindo e perfeito: assim poderemos controlar as pessoas mais facilmente. Esta cobiça pelo poder, afasta-nos da vivência do Evangelho e lança-nos em disputas mesquinhas pelo poder, esquecendo que o Poder é de Cristo.

Com isso a boa noticia fica diluída e desfigurada quando se permite que uma destas tentações triunfe em nossas vidas ou Igreja.

Nosso chamado é para sermos corajosos e fiéis, ao Evangelho e confiarmos sempre no amor de Deus orientando nossa vida, em testemunho que outra realidade é possível: a vida social sem corrupção, desmando e injustiça. O poder para livremente servir, como o Filho do Homem serve!

“Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". (Marcos 10.45)

Rev. Daniel, ost+

===/===