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15 outubro 2012

Entendendo nossa Catolicidade Episcopaliana

ide sem nadaO Apostolo Paulo, quando preso, escreveu em sua Carta à Igreja de Éfeso: 
   “Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.”                        (Efésios 4:1-6 N.V.I.)
O verbo suportar como aparece no texto acima, segundo a nossa linguagem cotidiana, inspira uma ideia de tolerância, “tolerar o outro”, como se não tivéssemos outra opção se não “aguentar os outros”!  Nos dias de hoje, quando o individualismo é exaltado e tem se tornado regra de vida, o outro se torna sempre alguém que a gente tem de “suportar”, “aguentar com paciência”, e “haja paciência”!
Na verdade, não é isso que o Apóstolo Paulo está dizendo. Pelo contrário, não se trata de tolerância, mas de solidariedade! No texto de Paulo, o verbo suportar significa dar suporte, sustentar, apoiar. E deve ser fruto da humildade e da mansidão, de coração aberto, porque tal é a vocação daqueles que são de Cristo!
É exatamente o suporte de uns para com os outros que dá sentido a vida em comunidade de fé, que caracteriza a catolicidade (universalidade) da Igreja de Cristo. Se não somos solidários entre nós, em nossa comunidade, e para com as demais comunidades de Cristo, não se justifica nosso louvor, nossa oração: tudo isso se torna hipocrisia!
A Tradição herdada pela Igreja Episcopal Anglicana afirma a catolicidade da Igreja, sua universalidade e sua unicidade, apesar das diferentes maneiras da Igreja ser, das diferentes denominações cristãs. Por isso, somos uma Igreja ecumênica, que partilha com as outras denominações muitas ações de testemunho e solidariedade cristã, não apenas um diálogo entre teólogos, mas ações envolvendo as pessoas. Afinal ecumenismo se faz com pessoas essencialmente!
Mas há também um aspecto interno de vivência católica entre nós. Somos uma Igreja Episcopal, assim, nossa menor unidade é a Diocese, e não cada comunidade específica. A Diocese é, para nós a Igreja Local, a Igreja Particular, não importa sua extensão geográfica. Assim, cada comunidade, seja uma Paróquia ou mesmo um Ponto de Pregação, é parte de uma única Igreja Local, de uma única Igreja Particular: a Diocese!
Isso nos difere da maioria das Igrejas de Tradição Reformada: nós não somos congregacionais. Para nós, uma determinada congregação é parte de um coletivo que denominamos Diocese. Assim, o nosso pastor é o Bispo; os Presbíteros e Presbíteras são pastores e pastoras com ele. Tecnicamente chamamos isso de incardinação (estar no coração). O Bispo, como pastor da Igreja, exerce esse pastorado de forma colegiada com seus Presbíteros e Presbíteras que, em muitos lugares, são chamados pelo povo da Igreja de “padres”, “madres”, “reverendo” ou “reverenda”. Os Diáconos, que são ministros do Bispo, cooperam nesse pastorado exercendo o serviço de acolhimento e cuidado com os mais necessitados e na administração da Igreja e sua obra social, servindo em alguma´comunidade sob a orientação de seu pároco, ou diretamente sob a supervisão do Bispo.
Assim, a unidade colegiada do Bispo com seu Presbitério e seus Diáconos, se traduz também na unidade das diferentes comunidades que compõem a Diocese, que devem apoiar-se umas às outras, dando suporte a toda ação missionária e diaconal da Igreja Diocesana. O povo da Igreja, chamado laicato, participa em todas as instâncias da administração e do poder institucional através dos Concílios da Diocese, de representações específicas e ocupando cargos oficiais, através de eleição ou nomeação, na Diocese e nas comunidades.
A Comunhão e Colegialidade dos Bispos, e por conseguinte, das respectivas Dioceses, dão unidade à Igreja Provincial, que geralmente ocupa um território nacional (como no caso do Brasil), ou parte de um território nacional (como é o caso da Igreja da Inglaterra, que tem duas Províncias), ou vários países, como é o caso da Província do Cone Sul da América, que agrega dioceses anglicanas de vários países da América do Sul. Também em nível provincial e mundial, o laicato é representado e participa ativamente das decisões, de forma paritária com o clero.
É exatamente essa colegialidade de comunhão entre os Bispos de todo o mundo e, assim, das diferentes Dioceses (com seu clero e povo) e Províncias que constitui o que chamamos de Comunhão Anglicana, uma comunhão de Igrejas particulares em comunhão entre si, unidas por vínculos de história, tradição e liturgia. O Arcebispo de Cantuária é o símbolo dessa unidade  (e não “autoridade suprema”), assim como os Primazes de cada província são o símbolo de unidade provincial. Não há uma cúria mundial, mas diferentes níveis consultivos que encaminham os pontos de concordância e discordância entre as Igrejas Particulares: tudo se resolve em nível de consenso mínimo e liberdade. Isso nos diferencia dos Católicos Romanos.
A Paróquia São Paulo Apóstolo em Santa Teresa, cidade do Rio de Janeiro é, assim, uma comunidade na Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, que por sua vez é parte da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (Província) e esta é parte da Comunhão Anglicana.
Nesse encadeamento de comunhão, há muitas formas de cooperação e de suporte entre as Igrejas Particulares e as comunidades (paróquias, missões, pontos de pregação). Apesar de dificuldades devido o caráter humano de toda institucionalização, nossa Igreja procura se fiel à Palavra de Deus e ao Senhor Jesus Cristo.
A Catolicidade da Igreja é um chamado e um testemunho diante do individualismo que separa as pessoas!
Rev. Luiz Caetano, ost
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04 outubro 2012

Eleições! isso não é assunto da fé?

Cdigo Florestal 2 (julho 2011)Neste domingo teremos eleições municipais em nosso país. Somos convocados a exercer nosso direito e nosso poder como cidadãos. A Igreja, enquanto comunidade, não deve ficar alheia a isso, como se fosse algo “que nada tem a ver com a fé”! Pelo contrário, exercer a cidadania é dever ético de todas as pessoas cristãs, e é um imperativo da fé madura e vivida em comunhão profunda com Deus.
Evidentemente que a Igreja é um espaço político, uma vez que cada comunidade é formada por pessoas, e pessoas  reunidas – gostando ou não –  constituem por si só um fato político. Assim, a reflexão sobre os deveres e direitos cidadãos é parte da reflexão que a Igreja deve realizar, à luz da Palavra de Deus.  Entretanto, isso não significa que a Igreja (comunidade) deve determinar o voto individual de cada pessoa, e muito menos devem os clérigos induzirem suas comunidades a apoiar este ou aquele candidato, seja a que cargo eletivo for.
Exatamente por sermos um Estado Laico, os clérigos são primeiro Cidadãos (porque não nascem clérigos) e precisam exercer sua cidadania com transparência e devem SIM, por serem formadores de opinião, ajudar o povo de suas comunidades a exercer sua cidadania, como princípio ético. Não se trata de "obrigar" o voto, mas levar à uma análise crítica da realidade à luz da Palavra de Deus, o que é, de fato, o seu papel pastoral  na qualidade de teólogo com a comunidade. O que não se deve fazer, por ser antiético, é atrelar seu ministério a um projeto eleitoral que implique em "benefícios para a igreja", ou para o próprio pastor (como acaba acontecendo).
Esta tem sido a nossa postura pastoral – minha e do Rev. Daniel – aqui na São Paulo Apóstolo. Nossa comunidade sabe das opções políticas de seus pastores, mas não se sente pressionada por elas; a congregação tem em si mesma diferentes posicionamentos políticos, e isso é incentivado em respeito ao direito de livre pensamento e decisão de cada pessoa. Todavia, também incentivamos a reflexão sobre a situação do país e da cidade onde estamos. Nossa comunidade tem sido, historicamente. muito solidária e engajada nas lutas do povo que vive em Santa Teresa, e isso é entendido por nós como parte essencial de nosso testemunho cristão; tal postura não é de hoje, mas parte dos 95 anos de história da comunidade. A comunidade de São Paulo Apóstolo assume seu papel político no bairro, como parte de seu testemunho, sem medo mas em obediência e no temor a Deus.
Entendemos que o Poder Público não está isento de críticas, ou imune à análise crítica por parte dos cidadãos, uma vez  que as pessoas investidas de autoridade recebem um mandato, ou seja, uma permissão para exercerem o poder. Assim, precisam ser permanentemente avaliadas no exercício de sua autoridade de forma a manterem-se fiéis ao principio de zelarem e promoverem o bem comum da população, razão única porque foram eleitas. Todavia, estar exercendo o poder é uma situação de muita tentação! Por isso, cabe aos cidadãos vigiarem as autoridades, e – assim – cumprirem seu direito e dever de avaliar permanentemente essas autoridades. Eleições são um momento especial para isso.
Os princípios éticos que orientam os cristãos e cristãs são aqueles decorrentes do ensino do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo: mansidão, justiça, solidariedade, compaixão, misericórdia, honestidade, lisura, correção… Tais princípios devem servir como pano-de-fundo para a avaliação das autoridades e escolha dos candidatos que venham merecer o voto de uma pessoa que professa a fé cristã com maturidade e comunhão com Deus.
Lamentavelmente, nosso país é, historicamente, uma república muito jovem e nosso povo mal formado politicamente. Muitas pessoas, graças às campanhas massivas dos grupos que defendem Direitos Humanos, sabem seus direitos, mas poucos conhecem seus deveres! Também não temos uma organização político-partidária digna de confiança e transparência: votamos em pessoas sem nos preocupar com sua linha ideológica e opções políticas exatamente porque nada sabemos sobre os partidos políticos (que aliás primam em manter o povo desinformado sobre sua base ideológica e suas propostas – se é que alguns realmente as tenham!). Por isso, em nosso país, as coligações entre partidos são, algumas, absurdas, feitas visando interesses de grupos e não somar forças por ideais sociais reais e gerais.
Domingo, você, cristão ou cristã, deverá comparecer diante da urna para depositar seu voto. Seja coerente com a sua fé! Gaste um dia, ou algumas horas pelo menos, para refletir sobre os candidatos, procure conhecer as funções e deveres dos cargos eletivos, e acima de tudo ore buscando em Deus a inspiração para sua escolha. Não pense nas vantagens pessoais que possa vir a ter com a vitória de alguém nas urnas, mas pense o que seria melhor para a sua cidade. Afinal, você não é um ser isolado, mas vive em meio a outros.
Vote com ética!
Rev. Luiz Caetano, ost+

PS. - Sugiro que você leia o artigo imediatamente abaixo deste, uma reflexão sobre o Poder à luz do Evangelho. Talvez ajude sua reflexão.
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24 setembro 2012

O maior é o menor!

cristo_rey_2[1]“E chegaram a Cafarnaum. Quando ele estava em casa, perguntou-lhes: "O que vocês estavam discutindo no caminho?" Mas eles [os discípulos] guardaram silêncio, porque no caminho haviam discutido sobre quem era o maior. Assentando-se, Jesus chamou os Doze e disse: "Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos". (Marcos 9:33-35 – Nova Versão Internacional).

A afirmação de Jesus veio na contra-mão das expectativas de seu tempo, e também do nosso tempo. Que contradição: o maior deve ser o menor! o primeiro deve ser o último! Uma nova maneira de conceituar o poder: o poder é dado para que se possa servir! Autoridade como serviço, e portanto, subalterna ao bem comum!

Talvez seja por isso que a Igreja Cristã, a partir de determinado momento, organiza seu clero em três Ordens: diaconato, presbiterado e episcopado, uma ordem dada sobre a outra, sendo o diaconato a primeira a ser dada. Nós, episcopais anglicanos mantemos essa tradição, o que significa que todo nosso clero é formado por diáconos (servos), onde alguns diáconos são também presbíteros e outros diáconos são, além de presbíteros, bispos. Outras identidades eclesiais separam o diaconato do presbiterado, mas nós seguimos a Tradição que vem dos primeiros séculos da Igreja.

Entretanto, a afirmação de Jesus vai além da Igreja, é um alerta ao mundo. Somos (mal) educados, como cidadãos, a entender que a Autoridade é soberana (e o é), mas de forma absoluta. Confundimos, por exemplo, Governo (quem exerce a autoridade) com Estado (a organização social onde exercício da autoridade é delegado às pessoas que compõem o Governo); e assim nos acostumamos com a corrupção e com as trocas de favores: “vou votar em fulano de tal porque se eleito vai me dar um emprego!”; “não vou votar no sicrano porque quando foi prefeito não dava passagem de ônibus de graça para eu ir à cidade vizinha!”  como se o prefeito ou qualquer autoridade pudesse dar aquilo que não lhe pertence (é do Estado), mas está sob seu cuidado (administração, isto é, governo). 

Assim, entendemos a autoridade como sendo o maior e mais importante, e lhe atribuímos, por ignorância devida à nossa má educação, o poder absoluto de fazer o que quiser com o bem comum; então surgem as badalações, as trocas de favores, a corrupção. Achamos tudo isso normal, como se fosse natural que o mundo seja assim: alguns tomam o poder e favorecem os seus amigos e aliados e desprezam todo o resto da população.  Até mesmo para fazer uma obra em benefício da população, favorecem seus comparsas através da burla em licitações, permissão de superfaturamento, vista grossa quando a lei é ferida, etc. Vemos isso todos os dias denunciado pela imprensa e achamos tudo muito natural.

A Palavra de Jesus é muito clara e objetiva: a autoridade é para o serviço! Não é algo dado a uma pessoa para ela mesma, mas para capacitá-la ao serviço em benefício de todas as demais pessoas sob sua autoridade, em benefício do bem estar de todos!

Os cristãos, realmente comprometidos com a Palavra de Deus, têm o dever de exercer sua cidadania em plenitude e não se conformarem com o senso comum (o mundo).  É dever ético cristão, implícito nas palavras de Jesus que a comunidade de fé anuncie essa visão de poder, denuncie os que abusam do poder e testemunhe, através de sua atitude cidadã, a Palavra de Deus.

Isso começa no nosso universo pessoal: como exerço a autoridade em minha casa, na qualidade de pai ou de mãe? como exerço minha autoridade sobre aqueles que são meus empregados, ou subordinados no trabalho? Se me foi delegado um cargo de autoridade, por exemplo, síndico do prédio, diretor da associação do bairro, professor, diretor de escola, etc., como eu a compreendo? como eu exerço esse poder que me foi delegado?

Assim, começando em nossas relações familiares, passando pelas relações profissionais, vamos exercendo a cidadania não só neste mundo, mas sinalizando sermos cidadãos de um outro Reino, o Reino de Deus, o Reino daquele “… que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:6-8 – Nova Versão internacional).

Rev. Luiz Caetano, ost+

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11 setembro 2012

Diante de Jesus, não há neutralidade

TabernáculosDepois disso Jesus percorreu a Galileia, mantendo-se deliberadamente longe da Judéia, porque ali os judeus procuravam tirar-lhe a vida. Mas, ao se aproximar a festa judaica dos tabernáculos, os irmãos de Jesus lhe disseram: "Você deve sair daqui e ir para a Judéia, para que os seus discípulos possam ver as obras que você faz. Ninguém que deseja ser reconhecido publicamente age em segredo. Visto que você está fazendo estas coisas, mostre-se ao mundo". Pois nem os seus irmãos criam nele. Então Jesus lhes disse: "Para mim ainda não chegou o tempo certo; para vocês qualquer tempo é certo. O mundo não pode odiá-los, mas a mim odeia porque dou testemunho de que o que ele faz é mau. Vão vocês à festa; eu ainda não subirei a esta festa, porque para mim ainda não chegou o tempo apropriado". Tendo dito isso, permaneceu na Galileia. Contudo, depois que os seus irmãos subiram para a festa, ele também subiu, não abertamente, mas em segredo. Na festa os judeus o estavam esperando e perguntavam: "Onde está aquele homem? " Entre a multidão havia muitos boatos a respeito dele. Alguns diziam: "É um bom homem". Outros respondiam: "Não, ele está enganando o povo". Mas ninguém falava dele em público, por medo dos judeus. Quando a festa estava na metade, Jesus subiu ao templo e começou a ensinar.  (João 7:1-14- Nova Versão Internacional)

A Festa dos Tabernáculos tinha como objetivo fazer o povo se lembrar do tempo em que morou em tendas, durante a peregrinação pelo deserto, e que Deus o sustentou ali, após livra-los da escravidão no Egito (Levíticos 23:33-43). Em hebraico, essa festa é chamada de Sucot – que significa tendas – e toda a região próxima a Jerusalém ficava coberta de cabanas ou tendas feitas de ramos de árvores. Todos os peregrinos ficavam vivendo em tendas durante aqueles dias. A Festa era também conhecida como Festa da Colheita, Festa da Sega, Festa das Cabanas; acontecia no sétimo mês do calendário judaico, cinco dias após o Dia da Expiação, e durava uma semana;  no oitavo havia uma celebração solene (Êxodo 23:16-17; 34:22). Era realizada logo após a colheita do trigo e dos frutos próprios da estação; assim, a celebração servia como memória da provisão divina, que nunca faltou, mesmo nos momentos mais duros, quando o povo viveu peregrino no deserto (Levíticos 23:43). Era a festa religiosa mais alegre naqueles tempos.

Jerusalém ficava lotada de peregrinos, vindos de todo o país.  Havia muita gente e também muitas atrações. Como em nossos dias, em grandes festas populares, havia  vendedores de diversas coisas, como os “camelôs” de nossos dias, e também pessoas que se autodenominavam profetas, curandeiros, e até quem se apresentava como sendo o Messias esperado.

Por isso, os irmãos de Jesus sugerem que ele procurasse o sucesso em meio à multidão que se reuniria para a Festa, mostrando publicamente os prodígios que Ele podia realizar! Para sua família, se Jesus fizesse sucesso, como alguns curandeiros faziam, ele ganharia muito dinheiro e sua família ganharia também prestígio. Nesse sentido, o texto nos mostra que Jesus recusa a ideia de sucesso. E manifesta seu desagrado com palavras duras: não era seu momento e chama seus irmãos de mundanos, de darem importância às glórias do mundo!

Os Evangelhos mostram, em muitos trechos, que Jesus sempre recusou autopromover-se a custa de “milagres”, sempre recomendou que não se desse publicidade quando realizava alguma cura. Porque Jesus não fazia milagres para autopromover-se, mas os fazia para sinalizar a ação de Deus e a chegada de Seu Reino. Importava para Jesus que as pessoas mudassem de atitude diante da vida e das relações sociais; não lhe interessava um séquito de admiradores dependentes e aduladores.

Mas podemos também nos perguntar se a sugestão dos irmãos de Jesus seria alguma insinuação cínica para que ele ficasse exposto aos que o perseguiam, testando sua coragem.  Porque Jesus já estava sendo perseguido pelos líderes religiosos que viviam da ignorância e da exploração do povo. Na verdade, Jesus nada fazia para provoca-los. Suas palavras e suas ações incomodavam porque por si mesmo denunciavam as más intenções daquelas pessoas. Vemos hoje muito disso em todas as situações humanas: em meio a pessoas desonestas, quem seja honesto – só pela sua atitude – denuncia os demais; um juiz que age com justiça denuncia, pelo seu gesto, aqueles que são venais ou estão a serviço de elites dominantes…  ou seja: a presença da bondade, da justiça, da solidariedade, denuncia por si só a maldade, a malignidade!

Assim, como hoje, também naquele tempo, os bons eram perseguidos porque sua simples presença revela a maldade que se oculta no cinismo e no populismo.

Jesus resolveu viajar incógnito até Jerusalém. Até mesmo para evitar que grupos de peregrinos começassem a seguí-lo à espera de milagres e prodígios… e também para não chamar a atenção dos seus perseguidores. Mas em Jerusalém, acabou expondo-se no Templo. E, na sequencia do texto acima, vê-se que as autoridades do templo o mandaram prender, mas o guardas se recusaram a cumprir a ordem; além disso, houve quem o defendesse entre as autoridades… (leia todo o capítulo 7 do Evangelho de João!).

Nas palavras de Jesus, o mundo o odeia! assim como o mundo odeia todos que denunciam, através das atitudes, a maldade que existe, a dureza de coração, o egoísmo, a injustiça, a ganância…

Jesus é uma personalidade que denuncia o mal em sua totalidade apenas demonstrando Sua bondade! Diante de Jesus não se fica em neutralidade: ou aceitamos sua atitude ou rejeitamos. A leitura da Palavra de Deus, especialmente dos Evangelhos, nos coloca diante de uma escolha: afinal, o que fazemos de nossas vidas? o que realmente nos importa? vai amar ou não vai amar?

Qual a tua resposta?

Rev. Luiz Caetano, ost.

(Este texto foi produzido a partir de uma reflexão com o Rev. Daniel e com a Simone Cunha, de Recife. Agradeço a ambos as sugestões.)

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14 agosto 2012

Saudade

Vila Velha, Praia da Costa
 

 

Poemas de Saudade

(Fernando Pessoa)

Eu amo tudo o que foi 

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia

 

Salmo 137

Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião. Ali, nos salgueiros penduramos as nossas harpas;ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções alegres, dizendo: ‘Cantem para nós uma das canções de Sião!’ Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estrangeira? Que a minha mão direita definhe, ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti! Que a língua se me grude ao céu da boca, se eu não me lembrar de ti, e não considerar Jerusalém a minha maior alegria! Lembra-te, Senhor, dos edomitas e do que fizeram quando Jerusalém foi destruída, pois gritavam: "Arrasem-na! Arrasem-na até aos alicerces!". Ó cidade de Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele que lhe retribuir o mal que você nos fez! Feliz aquele que pegar os seus filhos e os despedaçar contra a rocha!

Hoje amanheci com uma vontade de falar sobre a saudade. E pensei. Como fazer isto? Fazer um texto devocional? Queria fazer um artigo teológico de varias paginas, mas sabia que o blog da paróquia não comporta isso. A saudade é criticada como sendo uma vontade de voltar ao passado, uma nostalgia, ou uma volta a um passado antiquado e sem sentido, para o presente. Muito por causa disso, a sociedade sofre hoje em dia, pois uma das coisas tidas como “velhas” é querer re-viver algo que passou. Hoje tudo tem que ser novo, moderno diferente.

Nas nossas igrejas, o mesmo acontece. Quantas vezes não tive que ouvir, ao escolher determinadas músicas, que elas eram ruins porque eram antigas. O mesmo acontece com símbolos da liturgia cristã, como o sacrário ou a cruz processional: Muitos jovens e adolescentes simplesmente não o querem, porque acham eles antiquados, preferindo as liturgias light ou sem símbolo nenhum. Sem falar da liturgia em si...

Domingo passado lembrei do meu pai (pois em nosso país, era dia dos Pais), uma pessoa que gostava de falar muito, principalmente, das histórias do passado, contar coisas que aconteceram com ele ou com a nossa família. Por isso amanheci assim, nostálgico. Querendo reviver este tempo de historias e estórias, intermináveis que meu pai fazia, ao redor de uma mesa com meus irmãos e eu, ele falava e nos ouvimos horas e horas. Ah! saudade!

A verdade, porém, é a nostalgia, é a saudade de um sentimento, que nos torna humanos porque nos remete a um passado agradável que vivíamos. Ele nos faz relembrar daquilo de bom que passamos, que vivenciamos, e nos leva, muitas vezes, a repensar a vida que levamos neste tempo presente. Um resgate de algo bom, que teve um efeito positivo em nossas vidas, jamais deveria ser criticado, mas sim elogiado. Por isso me lembrei do Salmo 137...

O Salmo 137 nos mostra um povo que usou o sentimento de saudade, da nostalgia para ir além do seu sofrimento , dor e solidão numa terra estrangeira. Este povo utilizou este sentimento para manter a sanidade nos momentos de angústia e sofrimento no cativeiro, momentos em que até seus próprios entendimentos como pessoa foram destruídas.

O Salmo 137 apresenta uma narrativa claramente de uma pessoa no exílio. Ela fala, no versículo 1, sobre os rios da Babilônia, onde as pessoas sentam e choram com saudades de Sião (Jerusalém). A saudade de sua terra era exacerbada quando seus captores pediam que se cantassem canções felizes de sua terra (v.3). Entretanto, para aquele povo, os salmos eram músicas de adoração a Deus, era algo sagrado, não era meramente músicas para divertimento. Isso fazia parte da identidade daquele povo, que se via como o povo separado por Deus. Por isso, sua afirmação tão contundente (v. 5), onde o salmista afirma que espera que sua mão definhe, se ele se esquecer de Jerusalém, ou quando o salmista pede que sua língua cole no céu de sua boca, caso não considere seu lar sua maior alegria (v.6).

O texto nos traz algumas lições importantes sobre o que a saudade pode nos causar: 1) A saudade gera alegria pela restituição: O povo israelita sofreu as consequências de se afastar de Deus e cultuar outros ídolos. Agora, perceberam quão bom era viver em suas terras, livres, sem o jugo de outra pessoa. Com isso fortaleceram sua vontade de reviver ou viver plena mente sua religião que outrora foi esquecida. 2) A saudade gera fortalecimento da identidade: O neste sentimento, ao se verem cercados pela cultura e religiosidade babilônica, criaram um sentimento de unidade maior, unindo-se em torno de suas histórias ancestrais, seu passado, sua religião e seu Deus. Estudiosos afirmam que foi aqui que grande maior parte da Bíblia hebraica foi composta, deixou de ser mera tradição oral e passou para a escrita, criando um sentimento de identidade única, pois estavam espalhados pelo território babilônico, deixando um legando inestimável (tanto histórico como teológico) para nós cristãos. 3) A saudade gera frustração pela situação atual e sentimento de mudança: E aqui, deve-se tomar cuidado, pois a vontade de mudança de realidade pode gerar situações extremas, (cf vs. 7 a 9). A fúria do povo israelita se deve provavelmente por ter sido vítima da mesma pena. Por isso o sentimento de vingança do texto. A humanidade do autor transparece em seu cântico de lamento e nos leva a ponderar, que devemos aprender a canalizar nossa frustração e nosso desejo de mudança para coisas boas, justas e de preferência de transformação da realidade, para uma perspectiva boa e libertadora e nunca opressora e vingativa, querendo sempre re-significar nossa situação atual através das memórias boas. Como diz o livro das Lamentações de Jeremias: Quero trazer à memória o que pode me dar esperança.(cf.Lamentações 3.21)

Encerro esta pequena meditação sobre a saudade dizendo: Fiquem com saudade, pois é muito bom! Que poema e canção bonita os israelitas e Fernando Pessoas escreveram quando estavam com saudade.

Porque como diz Rubem Alves: A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar. Ou ainda melhor: Deus mora no mundo das coisas que não existem, o mundo da saudade...!

Rev. Daniel Rangel Cabral Jr, ost+

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