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11 setembro 2012

Diante de Jesus, não há neutralidade

TabernáculosDepois disso Jesus percorreu a Galileia, mantendo-se deliberadamente longe da Judéia, porque ali os judeus procuravam tirar-lhe a vida. Mas, ao se aproximar a festa judaica dos tabernáculos, os irmãos de Jesus lhe disseram: "Você deve sair daqui e ir para a Judéia, para que os seus discípulos possam ver as obras que você faz. Ninguém que deseja ser reconhecido publicamente age em segredo. Visto que você está fazendo estas coisas, mostre-se ao mundo". Pois nem os seus irmãos criam nele. Então Jesus lhes disse: "Para mim ainda não chegou o tempo certo; para vocês qualquer tempo é certo. O mundo não pode odiá-los, mas a mim odeia porque dou testemunho de que o que ele faz é mau. Vão vocês à festa; eu ainda não subirei a esta festa, porque para mim ainda não chegou o tempo apropriado". Tendo dito isso, permaneceu na Galileia. Contudo, depois que os seus irmãos subiram para a festa, ele também subiu, não abertamente, mas em segredo. Na festa os judeus o estavam esperando e perguntavam: "Onde está aquele homem? " Entre a multidão havia muitos boatos a respeito dele. Alguns diziam: "É um bom homem". Outros respondiam: "Não, ele está enganando o povo". Mas ninguém falava dele em público, por medo dos judeus. Quando a festa estava na metade, Jesus subiu ao templo e começou a ensinar.  (João 7:1-14- Nova Versão Internacional)

A Festa dos Tabernáculos tinha como objetivo fazer o povo se lembrar do tempo em que morou em tendas, durante a peregrinação pelo deserto, e que Deus o sustentou ali, após livra-los da escravidão no Egito (Levíticos 23:33-43). Em hebraico, essa festa é chamada de Sucot – que significa tendas – e toda a região próxima a Jerusalém ficava coberta de cabanas ou tendas feitas de ramos de árvores. Todos os peregrinos ficavam vivendo em tendas durante aqueles dias. A Festa era também conhecida como Festa da Colheita, Festa da Sega, Festa das Cabanas; acontecia no sétimo mês do calendário judaico, cinco dias após o Dia da Expiação, e durava uma semana;  no oitavo havia uma celebração solene (Êxodo 23:16-17; 34:22). Era realizada logo após a colheita do trigo e dos frutos próprios da estação; assim, a celebração servia como memória da provisão divina, que nunca faltou, mesmo nos momentos mais duros, quando o povo viveu peregrino no deserto (Levíticos 23:43). Era a festa religiosa mais alegre naqueles tempos.

Jerusalém ficava lotada de peregrinos, vindos de todo o país.  Havia muita gente e também muitas atrações. Como em nossos dias, em grandes festas populares, havia  vendedores de diversas coisas, como os “camelôs” de nossos dias, e também pessoas que se autodenominavam profetas, curandeiros, e até quem se apresentava como sendo o Messias esperado.

Por isso, os irmãos de Jesus sugerem que ele procurasse o sucesso em meio à multidão que se reuniria para a Festa, mostrando publicamente os prodígios que Ele podia realizar! Para sua família, se Jesus fizesse sucesso, como alguns curandeiros faziam, ele ganharia muito dinheiro e sua família ganharia também prestígio. Nesse sentido, o texto nos mostra que Jesus recusa a ideia de sucesso. E manifesta seu desagrado com palavras duras: não era seu momento e chama seus irmãos de mundanos, de darem importância às glórias do mundo!

Os Evangelhos mostram, em muitos trechos, que Jesus sempre recusou autopromover-se a custa de “milagres”, sempre recomendou que não se desse publicidade quando realizava alguma cura. Porque Jesus não fazia milagres para autopromover-se, mas os fazia para sinalizar a ação de Deus e a chegada de Seu Reino. Importava para Jesus que as pessoas mudassem de atitude diante da vida e das relações sociais; não lhe interessava um séquito de admiradores dependentes e aduladores.

Mas podemos também nos perguntar se a sugestão dos irmãos de Jesus seria alguma insinuação cínica para que ele ficasse exposto aos que o perseguiam, testando sua coragem.  Porque Jesus já estava sendo perseguido pelos líderes religiosos que viviam da ignorância e da exploração do povo. Na verdade, Jesus nada fazia para provoca-los. Suas palavras e suas ações incomodavam porque por si mesmo denunciavam as más intenções daquelas pessoas. Vemos hoje muito disso em todas as situações humanas: em meio a pessoas desonestas, quem seja honesto – só pela sua atitude – denuncia os demais; um juiz que age com justiça denuncia, pelo seu gesto, aqueles que são venais ou estão a serviço de elites dominantes…  ou seja: a presença da bondade, da justiça, da solidariedade, denuncia por si só a maldade, a malignidade!

Assim, como hoje, também naquele tempo, os bons eram perseguidos porque sua simples presença revela a maldade que se oculta no cinismo e no populismo.

Jesus resolveu viajar incógnito até Jerusalém. Até mesmo para evitar que grupos de peregrinos começassem a seguí-lo à espera de milagres e prodígios… e também para não chamar a atenção dos seus perseguidores. Mas em Jerusalém, acabou expondo-se no Templo. E, na sequencia do texto acima, vê-se que as autoridades do templo o mandaram prender, mas o guardas se recusaram a cumprir a ordem; além disso, houve quem o defendesse entre as autoridades… (leia todo o capítulo 7 do Evangelho de João!).

Nas palavras de Jesus, o mundo o odeia! assim como o mundo odeia todos que denunciam, através das atitudes, a maldade que existe, a dureza de coração, o egoísmo, a injustiça, a ganância…

Jesus é uma personalidade que denuncia o mal em sua totalidade apenas demonstrando Sua bondade! Diante de Jesus não se fica em neutralidade: ou aceitamos sua atitude ou rejeitamos. A leitura da Palavra de Deus, especialmente dos Evangelhos, nos coloca diante de uma escolha: afinal, o que fazemos de nossas vidas? o que realmente nos importa? vai amar ou não vai amar?

Qual a tua resposta?

Rev. Luiz Caetano, ost.

(Este texto foi produzido a partir de uma reflexão com o Rev. Daniel e com a Simone Cunha, de Recife. Agradeço a ambos as sugestões.)

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14 agosto 2012

Saudade

Vila Velha, Praia da Costa
 

 

Poemas de Saudade

(Fernando Pessoa)

Eu amo tudo o que foi 

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia

 

Salmo 137

Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com saudade de Sião. Ali, nos salgueiros penduramos as nossas harpas;ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos opressores exigiam canções alegres, dizendo: ‘Cantem para nós uma das canções de Sião!’ Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estrangeira? Que a minha mão direita definhe, ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti! Que a língua se me grude ao céu da boca, se eu não me lembrar de ti, e não considerar Jerusalém a minha maior alegria! Lembra-te, Senhor, dos edomitas e do que fizeram quando Jerusalém foi destruída, pois gritavam: "Arrasem-na! Arrasem-na até aos alicerces!". Ó cidade de Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele que lhe retribuir o mal que você nos fez! Feliz aquele que pegar os seus filhos e os despedaçar contra a rocha!

Hoje amanheci com uma vontade de falar sobre a saudade. E pensei. Como fazer isto? Fazer um texto devocional? Queria fazer um artigo teológico de varias paginas, mas sabia que o blog da paróquia não comporta isso. A saudade é criticada como sendo uma vontade de voltar ao passado, uma nostalgia, ou uma volta a um passado antiquado e sem sentido, para o presente. Muito por causa disso, a sociedade sofre hoje em dia, pois uma das coisas tidas como “velhas” é querer re-viver algo que passou. Hoje tudo tem que ser novo, moderno diferente.

Nas nossas igrejas, o mesmo acontece. Quantas vezes não tive que ouvir, ao escolher determinadas músicas, que elas eram ruins porque eram antigas. O mesmo acontece com símbolos da liturgia cristã, como o sacrário ou a cruz processional: Muitos jovens e adolescentes simplesmente não o querem, porque acham eles antiquados, preferindo as liturgias light ou sem símbolo nenhum. Sem falar da liturgia em si...

Domingo passado lembrei do meu pai (pois em nosso país, era dia dos Pais), uma pessoa que gostava de falar muito, principalmente, das histórias do passado, contar coisas que aconteceram com ele ou com a nossa família. Por isso amanheci assim, nostálgico. Querendo reviver este tempo de historias e estórias, intermináveis que meu pai fazia, ao redor de uma mesa com meus irmãos e eu, ele falava e nos ouvimos horas e horas. Ah! saudade!

A verdade, porém, é a nostalgia, é a saudade de um sentimento, que nos torna humanos porque nos remete a um passado agradável que vivíamos. Ele nos faz relembrar daquilo de bom que passamos, que vivenciamos, e nos leva, muitas vezes, a repensar a vida que levamos neste tempo presente. Um resgate de algo bom, que teve um efeito positivo em nossas vidas, jamais deveria ser criticado, mas sim elogiado. Por isso me lembrei do Salmo 137...

O Salmo 137 nos mostra um povo que usou o sentimento de saudade, da nostalgia para ir além do seu sofrimento , dor e solidão numa terra estrangeira. Este povo utilizou este sentimento para manter a sanidade nos momentos de angústia e sofrimento no cativeiro, momentos em que até seus próprios entendimentos como pessoa foram destruídas.

O Salmo 137 apresenta uma narrativa claramente de uma pessoa no exílio. Ela fala, no versículo 1, sobre os rios da Babilônia, onde as pessoas sentam e choram com saudades de Sião (Jerusalém). A saudade de sua terra era exacerbada quando seus captores pediam que se cantassem canções felizes de sua terra (v.3). Entretanto, para aquele povo, os salmos eram músicas de adoração a Deus, era algo sagrado, não era meramente músicas para divertimento. Isso fazia parte da identidade daquele povo, que se via como o povo separado por Deus. Por isso, sua afirmação tão contundente (v. 5), onde o salmista afirma que espera que sua mão definhe, se ele se esquecer de Jerusalém, ou quando o salmista pede que sua língua cole no céu de sua boca, caso não considere seu lar sua maior alegria (v.6).

O texto nos traz algumas lições importantes sobre o que a saudade pode nos causar: 1) A saudade gera alegria pela restituição: O povo israelita sofreu as consequências de se afastar de Deus e cultuar outros ídolos. Agora, perceberam quão bom era viver em suas terras, livres, sem o jugo de outra pessoa. Com isso fortaleceram sua vontade de reviver ou viver plena mente sua religião que outrora foi esquecida. 2) A saudade gera fortalecimento da identidade: O neste sentimento, ao se verem cercados pela cultura e religiosidade babilônica, criaram um sentimento de unidade maior, unindo-se em torno de suas histórias ancestrais, seu passado, sua religião e seu Deus. Estudiosos afirmam que foi aqui que grande maior parte da Bíblia hebraica foi composta, deixou de ser mera tradição oral e passou para a escrita, criando um sentimento de identidade única, pois estavam espalhados pelo território babilônico, deixando um legando inestimável (tanto histórico como teológico) para nós cristãos. 3) A saudade gera frustração pela situação atual e sentimento de mudança: E aqui, deve-se tomar cuidado, pois a vontade de mudança de realidade pode gerar situações extremas, (cf vs. 7 a 9). A fúria do povo israelita se deve provavelmente por ter sido vítima da mesma pena. Por isso o sentimento de vingança do texto. A humanidade do autor transparece em seu cântico de lamento e nos leva a ponderar, que devemos aprender a canalizar nossa frustração e nosso desejo de mudança para coisas boas, justas e de preferência de transformação da realidade, para uma perspectiva boa e libertadora e nunca opressora e vingativa, querendo sempre re-significar nossa situação atual através das memórias boas. Como diz o livro das Lamentações de Jeremias: Quero trazer à memória o que pode me dar esperança.(cf.Lamentações 3.21)

Encerro esta pequena meditação sobre a saudade dizendo: Fiquem com saudade, pois é muito bom! Que poema e canção bonita os israelitas e Fernando Pessoas escreveram quando estavam com saudade.

Porque como diz Rubem Alves: A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar. Ou ainda melhor: Deus mora no mundo das coisas que não existem, o mundo da saudade...!

Rev. Daniel Rangel Cabral Jr, ost+

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19 julho 2012

Separado para servir!

No domingo, 22 de agosto, a Paróquia São Paulo Apóstolo hospedará a cerimônia de Ordenação ao Diaconato do Frei Fabiano Nunes, osb. Fabiano atua em nossa comunidade paroquial há alguns anos como Ministro Leigo e administra um amplo projeto de ação social diocesana na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro.

O Diaconato é a primeira ordem que recebemos quando ingressamos no Sagrado Ministério da Igreja. O Diaconato é a Ordem do Serviço, e o ministério diaconal é exatamente o ministério de servo da comunidade em nome de Cristo. O Presbiterado (sacerdócio ordenado) é dado ao Diácono, assim como o Episcopado é dado ao Presbítero. Ou seja, todos os sacerdotes (presbíteros) são diáconos, assim como todos os bispos são presbíteros e diáconos. Portanto, todo o ministério ordenado da Igreja repousa sobre o Diaconato, ou seja, repousa sobre a ordem dada para servir à comunidade da Igreja e ao mundo em nome do Senhor Jesus Cristo, sob a inspiração do Espírito Santo.

O ministério do Diácono é fundamentado em Atos dos Apóstolos, quando é decidido separar entre membros da comunidade gentílica, sete homens para dedicarem-se ao cuidado dos órfãos e das viúvas, ou seja, das pessoas mais necessitadas da comunidade (cf. Atos 6.1-7).

Sabiamente a Igreja, desde algum tempo, e retomando antiga tradição, incluiu as mulheres nas Ordens Sagradas, e assim temos hoje na Igreja Episcopal Anglicana diáconas e diáconos, como temos também Presbíteras e Bispas. Evitamos a palavra diaconisa, pois no tradição protestante este termo não tem o mesmo significado de uma Ordem Sacramental.

Uma vez que todas as demais Ordens são dadas sobre o Diaconato,  tanto o Presbiterado quanto o Episcopado devem ser exercidos de maneira diaconal, ou seja, como serviço à comunidade em nome de Jesus Cristo, e em testemunho do Evangelho.

Na Igreja Episcopal  Anglicana acontece o renascimento da vocação diaconal e uma reflexão teológica e pastoral buscando fortalecer o papel do Diácono na vida das dioceses. Durante algum tempo o Diaconato foi visto como um “estágio” anterior ao Presbiterado, mas hoje há uma visão que recupera o significado desse ministério específico de acordo com a Tradição herdada pela Igreja.  Surgem vocações que se destinam ao Diaconato especificamente, pessoas que não buscam o Presbiterado, mas querem colocar-se em serviço diaconal de forma permanente. Fabiano, desde o início, afirma sentir-se chamado à esta vocação especial de servir como Diácono sem almejar as demais ordens. A exemplo de Fabiano, outras pessoas começam a manifestar-se sentindo o mesmo chamado, não só em nossa Diocese como também em outras.

É preciso salientar que na nossa visão doutrinária sobre as Sagradas Ordens, adotamos o princípio estabelecido na Carta aos Hebreus, de que o Sacerdócio é único e pertence ao Senhor Jesus Cristo, o qual é delegado a todas as pessoas pelo Batismo. Assim,  ao separar pessoas para o exercício das Sagradas Ordens, a Igreja como um todo delega a essas pessoas o exercício de seu sacerdócio (de todos) para exatamente exerce-lo como serviço à comunidade e ao mundo. Assim, devemos entender que Diáconos, Presbíteros e Bispos são pessoas da comunidade, separadas pela comunidade e ordenadas para o serviço à comunidade, cada ministério em seu múnus específico.  Tais pessoas têm a grave responsabilidade de serem sinais da presença de Cristo na Igreja, e por isso é necessário que haja realmente uma vocação (chamado) inspirado pelo Espírito Santo para que uma pessoa receba as Sagradas Ordens com dignidade e humildade. A Igreja, sabiamente, reserva um tempo relativamente longo para que tal vocação seja testada e avaliada até que se concretize o momento em que a pessoa é separada para exercer o ministério ordenado em nome da Comunidade em em perfeita comunhão com o Senhor Jesus Cristo.

Colocamos Fabiano, assim como todas as pessoas vocacionadas diante de Deus, intercedendo para que seu ministério seja realmente sinal da Presença do Cristo Vivo e da Bênção de Deus em nossa diocese e Igreja. Após sua ordenação, Fabiano será nomeado pelo Bispo Diocesano para servir às comunidades do Mediador e Bom Jesus, ambas na Zona Oeste da nossa cidade. Fabiano deixa a São Paulo Apóstolo com a mesma dignidade que sempre mostrou no seu longo período de ministério conosco e leva nossa gratidão e saudade.

Rev. Luiz Caetano, ost+

Rev. Daniel, ost diácono

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26 junho 2012

Passe para o outro lado, mas fique ai mesmo!


Naquele dia, ao anoitecer, disse Jesus aos seus discípulos: "Vamos atravessar para o outro lado". Deixando a multidão, eles o levaram no barco, assim como estava. Outros barcos também o acompanhavam. Levantou-se um forte vendaval, e as ondas se lançavam sobre o barco, de forma que este foi se enchendo de água. Jesus estava na popa, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e clamaram: "Mestre, não te importas que morramos?" Ele se levantou, repreendeu o vento e disse ao mar: "Aquiete-se! Acalme-se!" O vento se aquietou, e fez-se completa bonança. Então perguntou aos seus discípulos: "Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé?" Eles estavam apavorados e perguntavam uns aos outros: "Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?" (Marcos 4:35-41 – N.V.I.)
Parece uma ordem simples: “Vamos atravessar para o outro lado!”; mas não era. O outro lado do Mar da Galileia era território estrangeiro, habitado por um povo de costumes e padrões diferentes. Era o território chamado Decápolis, que significa as 10 cidades. Não era um lugar como a Judéia e a Galileia, era um território estranho habitado por gente cujos costumes eram contrários à Lei… Não era algo confortável ouvir um rabino dizer “Vamos atravessar para o outro lado!”; afinal, fazer o quê, por lá?
Além do mal estar causado pela ideia “maluca” de Jesus, a travessia não era fácil. Uma coisa é navegar ao longo da costa, onde estão os cardumes, para pescar; coisa bem diferente era atravessar o mar. Longe da costa os ventos sopram mais forte, as águas são mais agitadas, e as pequenas barcas dos pescadores galileus não se davam bem em tal ambiente. Ainda por cima, o Mestre resolve cochilar tranquilamente, como que não dando pelota para o temor dos que estavam com ele, e isso durante a pior parte da travessia, e durante uma tempestade! Um desaforo!

06 junho 2012

Igreja Viva é Igreja Confessante!

Sob a influência dos valores consumistas, muita gente avalia a Igreja através de critérios pouco evangélicos (do Evangelho!). Uma Igreja cheia de gente, que movimenta muito dinheiro, que promove show de bênçãos, é considerada uma Igreja viva, porque mostra resultados de sucesso… Ou então, uma Igreja que se envolve em tudo, opina sobre tudo, participa de todas as mobilizações e suas lideranças apresentam discursos altamente engajados, é considerada uma Igreja viva porque “dá testemunho”, aparece na mídia, chama a atenção.
Entretanto, eu acredito que tais são Igrejas moldadas no ativismo e na imagem bem construída de seus pastores, não necessariamente na Cruz do Cristo. Personalismo e estrelismo, síndrome de sucesso no mercado. Um produto bem sucedido e bem vendido!
Qual seria o critério de Cristo para avaliar a Igreja? Penso que João 6:63-70 pode nos dar uma pista:
O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não crêem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele. Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente. Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo. (João 6:63-70 _ Nova Versão Internacional)
Depois de multiplicar o alimento através da partilha, o Senhor fala com clareza sobre Sua Missão, sobre o significado de Sua Presença. Então, as mesmas pessoas, saciadas da fome, se afastam, saem de cena, porque as palavras do Senhor é estranha e contrária às expectativas…  Entretanto, o Senhor fica olhando todos se afastarem, não tenta negociar, não tenta agradar a clientela! Ainda, talvez cinicamente, pergunta aos que sobram, os Doze, se também não desejam abandoná-lo! Fica bem claro que o Senhor não está preocupado em organizar um movimento de massa, nem em angariar clientes ou “agradar os fiéis”; Ele não tenta seduzir com palavras doces, antes anuncia duramente o sentido de Sua Presença!  Ele mesmo sabia, diz-nos o texto, que muitos não criam. Mesmo entre os poucos que sobraram, havia um traidor.
Interessante notar que, no texto joanino, após esse episódio, Jesus não anda mais com multidões, mas reduz seu círculo de discípulos aos doze e algumas outras pessoas. Não está preocupado em ter auditório, mas em cumprir Sua tarefa, e ministrar aos poucos seguidores, inclusive ao traidor…
Qual o motivo alegado por Pedro, em nome dos que ficaram, para permanecerem com Ele?  “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. Mais do que uma afirmação filosófica, Pedro dá um testemunho de fé e de reconhecimento do Cristo! Sua primeira frase mais parece uma oração: “Senhor, para quem iremos nós?” , como uma súplica! e conclui com uma confissão de fé: “E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. Exatamente estes poucos que sobraram se tornam depois, os arautos da Palavra, anunciam o Evangelho por todo o mundo, tornam-se Apóstolos e Apóstolas, testemunhas vivas da Presença permanente de Cristo no mundo, testemunhas do Ressuscitado!
Aos contrário dos que hoje em dia se autodenominam “apóstolos”, ou muitos que – no decorrer da história – se proclamam seus sucessores, estes homens e mulheres que permaneceram com Jesus até a Ressurreição (mesmo tendo fugido diante da Cruz), não viviam de pompa e circunstância, não foram tomados pela vaidade, mas na simplicidade de suas vidas, são os alicerces da Igreja de todos os tempos.  E criaram comunidades confessantes da fé no Ressuscitado, comunidades solidárias aos que sofrem e choram, comunidades pequenas mas corajosas em enfrentar a perseguição do Império e da Sinagoga – os cristãos foram considerados anátema pelo Sinédrio reunido em Jâmnia, por volta do ano 90 d.C.  O primeiro fruto da ação daqueles remanescentes seguidores de Jesus na Palestina, foi a Igreja dos Mártires, a Igreja Confessante por excelência! Animados pelo Espírito Santo em suas vidas, enfrentaram a morte com ousadia e coragem!
A Igreja que herdamos é a Igreja que permaneceu no tempo e na história mesmo depois do desaparecimento de seus fundadores. Não estava alicerçada na personalidade ou no personalismo deles, mas no Espírito Santo. Quando surge a tentação do personalismo e do culto à personalidade, Paulo, um confessante, admoesta a Igreja:
Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissen-sões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais? Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. (1 Coríntios 3:3-7 – Nova Versão Internacional)
Igreja Viva é a Igreja que confessa a Fé no Cristo Ressuscitado, que anuncia o Evangelho, denuncia o Mal em todas as suas formas e testemunha com coragem a Vontade de Deus e Sua Bondade e Misericórdia. Não importa sermos muitos ou poucos, não importa sermos reconhecidos ou elogiados pela sociedade. Importa antes que seja cumprida a Vontade Soberana de Deus Pai/Mãe, manifesta em Seu Filho, o Cristo, e permanentemente anunciada através da ação do Espírito Santo.
A Igreja de Cristo está Viva quando dobra seu joelho em oração e adoração, e obedece a Deus. Ela segue ao Cristo, em Sua Cruz e Ressurreição, não segue lideres carismáticos personalistas!
Luiz Caetano, ost+
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